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Entrevista ao fundador do LP

Publicado por Luso-Poemas em 25-Jan-2026 10:30 (613 leituras)

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20 anos é uma efeméride especial, tempo de balanço sobre o passado, mas sobretudo um momento de reflexão sobre o futuro. No espaço digital, a longevidade do Luso-Poemas é rara, tornando-o um projeto singular no universo da poesia, entre tantos outros que foram surgindo e, entretanto, desapareceram. Para termos uma visão global deste período e para projetarmos a sua evolução, não poderíamos deixar de escutar a opinião do seu fundador, TrabisDeMentia.

Caro TrabisDeMentia, muito obrigado por aceitares o convite de conversar um pouco connosco sobre o nosso site Luso-Poemas. A primeira questão é óbvia: o que te motivou a criar este site de poesia há 20 anos?
Muito obrigado pelo convite. O que me motivou foi o gosto pela poesia, o gosto pela programação e, acima de tudo, a oportunidade. Em 2006 participava em alguns sites de poesia e era moderador no poemas-de-amor.net. Um conhecido da internet, que vendia serviços de alojamento de websites, perguntou-me se estaria interessado em criar um site. O custo era reduzido — talvez o equivalente a cinco euros hoje em dia. Bastava escolher um nome e, com meia dúzia de cliques, o site estaria no ar. Não resisti: queria experimentar montar um site de poesia e implementar ideias que não me eram permitidas enquanto moderador. A empresa de alojamento chamava-se luso-alojamento.net e, por isso, o nome surgiu de forma bastante natural.

Quais foram os maiores desafios nos primeiros anos do projeto?
Os desafios foram constantes. O primeiro consistiu em ultrapassar a falta de conhecimentos técnicos que me permitissem estruturar o
Luso-Poemas da forma que idealizava. Nos primeiros meses, os poemas eram publicados num fórum. Apenas dois meses depois consegui criar um espaço mais adequado para a publicação dos textos. Os primeiros poemas publicados datam de 7 de abril de 2006, data em que foram retirados do fórum.
Em termos técnicos, destaco alguns desafios que mais me marcaram:
. Criar um espaço próprio para a publicação de poemas, fora do fórum;
. Associar a fotografia do autor a cada poema;
. Implementar um limite diário de publicações, de modo a evitar a concentração excessiva de textos do mesmo autor na página principal;
. Implementar um sistema de registo de visualizações que contabilizasse apenas uma visualização por utilizador.
Houve também desafios relacionados com o alojamento, que rapidamente se tornaram desafios financeiros. O Luso-Poemas cresceu exponencialmente entre 2006 e 2010, e muitas vezes ficava lento ou indisponível por falta de capacidade do servidor. Os custos passaram de cinco euros para cinquenta, depois para cem e, mais tarde, para duzentos euros. A introdução de publicidade e alguns donativos acabaram por estabilizar as finanças.
Os desafios sociais também foram numerosos: incentivar a divulgação do site através de links em blogues, estimular a troca de comentários entre poetas e gerir comentários impróprios.

Quem foram as pessoas que, nessa primeira fase do Luso, te apoiaram mais?
No início, todos aqueles que me acompanharam desde o poemas-de-amor.net tiveram um papel importante, ao publicar, comentar e divulgar o site. Destaco a Fernanda Queiroz, que na altura moderava comigo e a quem recorri, em desespero, para apoio financeiro.
Talvez a primeira fase do Luso-Poemas termine com o lançamento da coletânea, dois anos depois, em 2008. Nesse contexto, não posso deixar de mencionar Valdevinoxis, Tália, Vera Silva e Paulo Afonso. Outros nomes dessa época, que colaboraram na coletânea e deram vida ao Luso-Poemas, foram JB, Rosamaria, Junior A., Conceição B., Edileia, Godi, D. Dinis, Ângela Lugo, Stacarca, Diego Poetastro, Pedro Lopes, João Filipe Ferreira, Angela, Jorge Humberto, InSaNna e Paula Martins.

Existe algo no Luso-Poemas atual que não estava nos planos quando o site surgiu e que acabou por se ir construindo ao longo do tempo?
Não posso dizer que o site atual tenha sido planeado. A minha intenção era que reunisse tudo aquilo que os outros sites de poesia tinham de positivo e, além disso, algo mais. Inspirei-me aqui e ali, e até copiei — como quem pede algo emprestado sem que o dono saiba. O que acabou por se construir, sem grande pretensão, foi a comunidade. Essa continua a surpreender-me.

Na tua visão, o que faz com que as pessoas permaneçam no Luso-Poemas depois de tantos anos?
As pessoas permanecem por causa das pessoas. É redundante? Talvez. A plataforma é apenas uma ferramenta; o que realmente importa são as ligações que se criam. A poesia aproxima-nos, apaixona-nos. A vida fora do site acontece, belisca. Cá dentro é ferida que não sara. Permanecemos todos em memória. Em corpo, vamos e voltamos, como quem tem sede — e o Luso é um rio.

Que tipo de feedback dos leitores ou autores mais te marcou ao longo destes anos?
Os feedbacks negativos são os que mais marcam. Já apaguei comentários, ou permiti que fossem apagados, tendo sido depois acusado de censura ou de não respeitar a liberdade de expressão. Por vezes dei liberdade excessiva a quem quis expressar-se, e houve quem abandonasse o site para não ter de ouvir. O feedback que mais dói é aquele dito no silêncio, entre o apagar dos poemas.

Que desafios enfrenta hoje um site de poesia num mundo dominado por redes sociais e consumo rápido de conteúdos?
Antes das redes sociais, ninguém mostrava o rosto. Hoje, quem não o faz é considerado falso. Havia uma certa magia em sermos personagens, em não termos a obrigação de sermos nós próprios. Essa magia perdeu-se. As redes sociais não levaram a poesia consigo, mas levaram o anonimato que a incentivava. Roubaram-nos também o tempo e a atenção — e, mais alarmante ainda, a atenção dos nossos filhos. Num mundo de redes sociais e videojogos, quem quer crescer entre poemas e xadrez?
Em 2011, os motores de busca penalizaram blogues e fóruns, considerando o conteúdo gerado pelos utilizadores como de baixa qualidade. Com o crescimento do conteúdo produzido por inteligência artificial, espero que espaços de criatividade genuína, como o Luso-Poemas, voltem a ser valorizados.

Como vês o futuro do Luso-Poemas? Há algo que ainda gostarias de ver ou fazer no site e que ainda não existe?
Gostaria de melhorar o aspeto visual do site, uma vez que a adaptação para dispositivos móveis, iniciada há alguns anos, ficou incompleta. A secção de páginas também poderá ser aprimorada, uma vez que foi criada como mais uma porta de entrada através dos motores de busca.
Infelizmente, a procura por poesia tem vindo a diminuir. Segundo o Google Trends, por cada 100 pessoas que procuravam “poemas” em 2004, hoje apenas quatro o fazem.
Dessas poucas pessoas que ainda procuram poesia, tenho pena que muitas sejam direcionadas para publicidade, imagens, livrarias ou para qualquer órgão de comunicação social que tenha decidido criar uma lista de “top 10”. Sinto saudades dos blogues e fóruns que, ao interligarem-se, recomendavam conteúdos e distribuíam valor. Não me parece, contudo, que seja possível voltar atrás. O tempo em que o Homem ditava as regras parece ter terminado. Hoje, quem decide o que é bom por nós é o algoritmo, a máquina.


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Enviado por Tópico
Alemtagus
Publicado: 26/01/2026 09:12  Atualizado: 26/01/2026 09:12
Moderador
Usuário desde: 24/12/2006
Localidade: Montemor-o-Novo
Mensagens: 3917
 Re: Entrevista ao fundador do LP
Ao valor de quem cria uma obra destas deveria ser acrescentada parte da edição dos livros de muitos autores desta casa, talvez não tivesse sido possível atingir certos patamares se o Luso-Poemas não existisse. Tiro o chapéu à teimosia do Trabis, mas com uma ressalva, eu (e talvez muitos) ainda não sou um mero número, gosto de crescer entre poemas e xadrez.
Acho que é altura de passares à fase seguinte e criares uma Editora credível, a Lusófona Editora (por exemplo), fica a ideia.


Enviado por Tópico
Carlos Ricardo
Publicado: 26/01/2026 11:26  Atualizado: 26/01/2026 11:26
Colaborador
Usuário desde: 28/12/2007
Localidade: Penafiel
Mensagens: 1803
 Re: Entrevista ao fundador do LP
A parte mais desagradável e desafiante ao mesmo tempo era estar numa nuvem frequentada por personagens, uns mais obscuros do que outros, e afinar constantemente os meus critérios de leitura sem cair em fidelizações, ou comodismos de confraria. Aprendi muito dentro dessa gruta onde as sombras eram o que havia de uma realidade que eu nunca sabia se estava interessado em conhecer.


Enviado por Tópico
KaiiqueNascimentto
Publicado: 27/01/2026 03:50  Atualizado: 27/01/2026 03:50
Da casa!
Usuário desde: 23/09/2014
Localidade: Francisco Morato - SP
Mensagens: 430
 Re: Entrevista ao fundador do LP
Li essa entrevista e fiquei meio quieto depois. Tem algo ali que faz a gente pensar no tempo, em tudo que ficou e no que ainda resiste. O Luso sempre teve esse ar de casa velha, cheia de vozes e fantasmas bons — onde a gente entra pra respirar e acaba ficando.

É estranho ver o quanto o mundo mudou e ainda assim o Luso tá aqui, firme, teimoso, meio cansado, mas vivo. Acho bonito isso. No fundo, quem escreve aqui não tá só publicando texto, tá tentando existir de algum jeito.

A poesia hoje é quase um ato de resistência, e talvez seja por isso que esse lugar continua importante. Entre tantos ruídos, ainda tem espaço pra silêncio, pra verdade, pra gente que sente de verdade.

Talvez seja isso o que o Trabis construiu sem perceber: um abrigo pra quem se recusa a deixar de sentir.

Trabis, eu não posso terminar sem te agradecer por tudo.
Minha vida realmente mudou após conhecer o site e os poetas.
A depressão virou arte, música e poesia — e tudo se conectou, sem morte, sem dor e sem machucados.
A escrita nos liberta do corpo e da alma, e acho que não há médico ou psicólogo capaz de refazer isso da mesma forma, de nos permitir dormir em paz.
Meus agradecimentos

- Kaique Nascimento


Enviado por Tópico
Benjamin Pó
Publicado: 27/01/2026 17:44  Atualizado: 27/01/2026 17:44
Administrador
Usuário desde: 02/10/2021
Localidade:
Mensagens: 914
 Re: Entrevista ao fundador do LP
.
Esta entrevista ajuda a compreender um pouco melhor o sucesso deste projeto.

Começou como uma experiência, quase um impulso. Depois foi-se transformando e crescendo, não só enquanto plataforma digital, mas também enquanto reunião de pessoas com um sonho em comum.

No entanto, como diz o Trabis, foi a parte humana que verdadeiramente manteve o Luso-Poemas e que o trouxe aos dias de hoje, continuando a cativar-nos apesar de parecer um "outsider" ao lado dos TikToks e dos Instagrams da moda.

Certamente que, mais dia menos dia, teremos de fazer adaptações ao site por condicionantes próprias da evolução tecnológica incessante que nos atravessa, mas o importante continuará a ser, sempre, a relação íntima com as palavras e o desejo de as partilhar com os outros.

Obrigado, TrabisDeMentia, pelo Luso e pela tua persistência ao longo de todos estes anos.


Enviado por Tópico
Aline Lima
Publicado: 30/01/2026 02:18  Atualizado: 30/01/2026 02:18
Administrador
Usuário desde: 02/04/2012
Localidade: Brasília- Brasil
Mensagens: 1132
 Re: Entrevista ao fundador do LP
Ler esta entrevista agora, nos vinte anos do Luso-Poemas, ajuda a entender o caminho que existiu antes de muitos de nós chegarmos aqui. E há um mérito raro no que o Trabis conta: ele não romantiza o percurso.

O Luso não nasceu pronto. Foi se formando aos poucos, entre limites, ideias e a convivência que um espaço coletivo inevitavelmente impõe, sem apagar o que cada pessoa trazia.

Me reconheço quando ele diz que ficamos por causa das pessoas. Fiquei e fico pelos textos, pelas trocas e por esse lugar onde a poesia e a escrita ainda conseguem ter seu tempo, mesmo quando o mundo lá fora corre demais.

Pensar no Luso como um rio é uma imagem além de linda, certeira. Há quem passe, quem mergulhe, quem vá embora e volte com mais sede. Mas o rio continua aqui, fluindo.

Fica meu agradecimento ao Trabis pela dedicação e pela sinceridade de não fazer parecer que foi fácil, nem que é, nem que será. E também a todas as pessoas que mantêm o Luso acontecendo, para que a poesia tenha onde ficar.

Seguimos.


Enviado por Tópico
HelenDeRose
Publicado: 01/02/2026 14:05  Atualizado: 01/02/2026 14:05
Usuário desde: 06/08/2009
Localidade: São Pedro - SP - Brasil
Mensagens: 2042
 Re: Entrevista ao fundador do LP
Parabéns Trabis por 20 anos de dedicação.
Tens minha profunda admiração por tudo o que conseguiste criar até aqui.
Todas as ferramentas do site surpreende para quem tem contato com a parte administrativa.
Agradeço por sua confiança enquanto pude ajudar.
Não é fácil agradar a todos e moderar o site, aprendi muito neste sentido.
Muito grata por tudo o que consegui realizar através das páginas dos Consagrados, Rimador, Livraria, Mural, Fórum e Página inicial.
O Luso é um rio de pessoas, de histórias , de comportamentos, de amigos e amigas que encontrei aqui.
Eu desejo que Luso Poemas continue, cada vez mais, encantar as pessoas que aqui colaboram, porque me encantou desde o primeiro dia que aqui cheguei e volto sempre que posso pela saudade, pela gratidão que sinto e por saber que o fundador deseja melhorar ainda mais o site.

Muito grata por tudo.

Meu abraço.

Helen De Rose

Enviado por Tópico
AlexandreCosta
Publicado: 04/02/2026 12:43  Atualizado: 04/02/2026 12:43
Administrador
Usuário desde: 06/05/2024
Localidade: Braga
Mensagens: 1413
 Re: Entrevista ao fundador do LP
O LP é muito bom e recomenda-se!
Tenho esperanças num futuro mais vivo para a poesia, por isso acredito que vale a pena investir nesta casa, onde a qualidade predomina.
Também acredito que mais tarde ou mais cedo as pessoas se vão cansar das futilidades, dos algoritmos, do fachadismo das rede sociais e voltarão às origens, à procura da genuinidade que tendencialmente se tem perdido.
Parabéns por teres trazido ao mundo este "filho" robusto, resistente e resiliente! :)

Enviado por Tópico
iLA
Publicado: 04/02/2026 20:07  Atualizado: 04/02/2026 20:07
Colaborador
Usuário desde: 25/11/2024
Localidade: Terra
Mensagens: 1131
 🌻Re: Entrevista ao fundador do LP
.
.
.
Agradeço por nos possibilitar esse refúgio, cá ando desde 2012 e sempre me encanto e me surpreendo.



iLA 🌻

Enviado por Tópico
Alpha
Publicado: 08/02/2026 11:41  Atualizado: 08/02/2026 11:41
Membro de honra
Usuário desde: 14/04/2015
Localidade:
Mensagens: 2303
 Re: Entrevista ao fundador do LP
Empreender e inovar são atos de coragem, audácia, determinação. Foi assim que as sociedades avançaram e continuam a avançar. Entendo bem as dores destes “partos” que quantas vezes abortam, e nunca mais conseguem fazer o luto! Felizmente este, pese embora todas as vicissitudes ainda continua a ver a luz do dia. Os meus votos (para bem da poesia) são os de que esta luz nunca se extinga!
A poesia é o caminho que me leva a todo o lado. Só posso estar agradecido ao Trabis por ter criado este espaço e ainda do que espera fazer. Que este rio nunca seque!
Deixo o meu muito obrigado.

Enviado por Tópico
Odairjsilva
Publicado: 08/02/2026 11:53  Atualizado: 08/02/2026 11:53
Membro de honra
Usuário desde: 18/06/2010
Localidade: Cáceres, MT
Mensagens: 6137
 Re: Entrevista ao fundador do LP
Que maravilha foi ler essa entrevista. Eu ainda não conhecia toda a história do Luso-Poemas. Mas, agradeço de coração o trabalho incansável do Trabis. Quando conheci o site e pude publicar minhas primeiras poesias, fiquei deveras encantado. Eu costumava escrever meus versos em cadernos desde a minha adolescência e havia criado um blog em 2008 para publicar esses poemas. Mas fazia isso de forma esporádica. Quando conheci o Luso-Poemas isso passou a ser mais constante. Eu lia as poesias aqui publicadas, lia os comentários e, era, e ainda é, muito difícil sair da página sem ter uma nova inspiração.
Reconheço as dificuldades que tenha enfrentado, mas agradeço por manter esse espaço sempre saudável e acolhedor para que possamos nos deliciar com as maravilhas das poesias.
A poesia é uma forma de resistência. Não podemos deixar de divulga-lá onde quer que seja. Sempre que publico aqui, compartilho o link nas comunidades do Facebook e nas minhas redes sociais porque acredito que a poesia, ainda, é libertadora. Em tempos de urgência, parar para refletir um poema, ainda é necessário.
Ao idealizador desse canal poético meus sinceros agradecimentos e o desejo que tenhamos longa vida por aqui. Abraços poéticos!

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