Encontrei um Pedro Chagas Freitas,
por acaso, na rua.
Disse-lhe:
não te ocupes tanto
do que imaginas que os outros pensam,
nem do que imaginas que os outros são.
Aliás, abandona a ideia
de que existem outros.
Nada garante que exista
aquilo que é dos outros
na ideia que dos outros tens.
Re vera, disse-lhe,
puxando o latim
e baixando a voz,
nessa ideia
encontrarás apenas aquilo que és.
Não há olhos atrás dos teus olhos,
nem vozes a perseguir
a tua voz.
Olhou-me com distância
e desprezo,
como se eu fosse
mais um outro,
e seguiu caminho,
levando uma alface debaixo do braço
e, na mão, uma pequena gaiola de plástico
com dois grilos,
um deles morto.
Perto dali,
outros Pedros Chagas Freitas
olhavam inquietos,
cada um levando uma alface
debaixo do braço
e, na mão, uma pequena gaiola
com dois grilos,
um deles morto.
Segui caminho,
levando uma alface debaixo do braço
e, na mão, uma pequena gaiola
com dois grilos,
um deles morto.