Poemas : 

Pedro Chagas Freitas

 
Encontrei um Pedro Chagas Freitas,
por acaso, na rua.

Disse-lhe:
não te ocupes tanto
do que imaginas que os outros pensam,
nem do que imaginas que os outros são.
Aliás, abandona a ideia
de que existem outros.
Nada garante que exista
aquilo que é dos outros
na ideia que dos outros tens.
Re vera, disse-lhe,
puxando o latim
e baixando a voz,
nessa ideia
encontrarás apenas aquilo que és.
Não há olhos atrás dos teus olhos,
nem vozes a perseguir
a tua voz.

Olhou-me com distância
e desprezo,
como se eu fosse
mais um outro,
e seguiu caminho,
levando uma alface debaixo do braço
e, na mão, uma pequena gaiola de plástico
com dois grilos,
um deles morto.

Perto dali,
outros Pedros Chagas Freitas
olhavam inquietos,
cada um levando uma alface
debaixo do braço
e, na mão, uma pequena gaiola
com dois grilos,
um deles morto.

Segui caminho,
levando uma alface debaixo do braço
e, na mão, uma pequena gaiola
com dois grilos,

um deles morto.

 
Autor
Levant
Autor
 
Texto
Data
Leituras
262
Favoritos
1
Licença
Esta obra está protegida pela licença Creative Commons
16 pontos
4
2
1
Os comentários são de propriedade de seus respectivos autores. Não somos responsáveis pelo seu conteúdo.

Enviado por Tópico
Benjamin Pó
Publicado: 24/07/2026 16:40  Atualizado: 24/07/2026 16:40
Administrador
Usuário desde: 02/10/2021
Localidade:
Mensagens: 969
 Re: Pedro Chagas Freitas p/ Levant
.
No Brasil dos anos 1970, "grilado" era sinónimo de "preocupado".
Boa imagem para Chaga Freitas, o “gajo que escreve cenas”, com uma hipersensibilidade que comove multidões e rende milhões.


Enviado por Tópico
DCM_1978
Publicado: 06/08/2026 13:45  Atualizado: 06/08/2026 13:45
Da casa!
Usuário desde: 05/01/2026
Localidade: Lisboa
Mensagens: 325
 Re: Pedro Chagas Freitas
Fez-me lembrar o triunfo dos porcos de Orwell, abraço poético

Links patrocinados