
Hoje
Hoje estamos cobertos de fumaça,
uma névoa densa e sem sentido;
é a farsa medonha dos pervertidos,
e não é a verdade que se disfarça.
Hoje apenas a mentira extravasa
em cada esquina, beco ou praça;
homens que decantam, sem coração,
sem a menor graça, a própria desgraça.
Hoje nem é o destempero que impera:
é a dor que vem antes do próprio grito.
Estamos em um vale de fatos aflitivos,
estamos cobertos de estrume e terra,
e a palavra é calada pelo não dito.
Hoje tudo no mundo é cor-de-rosa,
pintado com o sangue da embromação;
em cada cartaz, uma cara amassada,
voz embolada, sem verdade ou paixão.
E hoje só não se percebe a espera,
e até o verbo, que é ação, se desespera;
quase tudo é oco ou feito de vento,
e não se encontra sentido no nosso tempo.
Alexandre Montalvan
Os comentários são de propriedade de seus respectivos autores. Não somos responsáveis pelo seu conteúdo.