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A Vingança de Coxo-Zarolho

 
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A Vingança de Coxo-Zarolho
(Ficção. Com excepção de alguns topónimos, todos os componentes são fictícios.)


Contarei ao meu bem meu mal profundo
E que vivo, sem ela, absorto, errante,
Perdido, amargurado, e só no mundo.
-- Bocage –

1. AUGUSTO SILVANO (COXO-ZAROLHO)
Augusto Silvano é uma daquelas pessoas que pode ser considerada como tendo nascido sob má estrela. Filho de pai incógnito, foi o “causador” da morte da mãe pois esta faleceu ao dar-lhe à luz. Amparado no berço por uma tia, foi por esta criado até aos sete anos, altura em que ela também faleceu. Sem quaisquer outros familiares conhecidos que o amparassem, Augusto Silvano viu-se, assim, aos sete anos, perdido, sem eira nem beira, no grande emaranhado da cidade de Luanda.
A agravar estas adversas circunstâncias, acresce o facto de ele ter nascido zarolho (a sua vista esquerda nasceu fechada) e coxo (nasceu com a perna esquerda mais curta que a direita), o que o obrigava a coxear. Este facto valeu-lhe a alcunha de “Coxo-Zarolho”.
Assim, Augusto Silvano, ou Coxo-Zarolho, conforme queiram, (nós, ao longo do conto, tratá-lo-emos ora por Augusto Silvano ora por Coxo-Zarolho), passou a engrossar as fileiras dos chamados “meninos de rua”. Os chamados “meninos de rua”, para quem não esteja familiarizado com o termo, eram crianças cujas idades variavam, regra geral, entre os sete e os catorze anos e que, pelas mais diversas razões, abandonavam as casas dos pais ou dos familiares onde residiam e passavam a viver na rua (debaixo de prédios, em carcaças de carros abandonados, em jardins públicos, em valas de drenagem, etc.). Para sobreviver, executavam pequenos trabalhos como, por exemplo, tarefas domésticas em mercados e residências, lavagem de viaturas, etc.). Este fenómeno teve lugar em meados e finais da década de 80 e princípios da década de 90.
Pois o Coxo-Zarolho viveu como “menino de rua” até aos 12 anos. A sua “especialidade” era lavagem de viaturas. E foi nesse trabalho que conheceu um senhor electricista de automóveis, seu cliente regular, que um dia lhe disse:
-- Ó Coxo-Zarolho, olha que essa coisa de lavar carros, não é futuro para ti. Eu já vi que és inteligente e que tens vontade de aprender. Porque é que não estudas ou aprendes uma profissão?
-- Senhor Afonso – respondeu, hesitante, o Coxo-Zarolho – eu, por acaso, já pensei nisso. Eu já estudei até à 4ª classe. Costumo ir estudar na Escola nº 320 e já fiz a 4ª classe. Agora o problema é que o dinheiro que eu ganho aqui na lavagem dos caros já não vai dar para continuar a estudar.
-- Olha – disse-lhe o Sr. Afonso – deixa a lavagem dos carros e vai para a minha oficina aprender a profissão de electricista de viaturas. Depois, com o dinheiro que ganhares na tua profissão, já poderás continuar a estudar.
-- Muito obrigado, Senhor Afonso. Amanhã mesmo vou apresentar-me na oficina para começar a aprender -- disse, sinceramente agradecido, o Coxo-Zarolho.
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E, assim, Augusto Silvano deixou de ser lavador de carros e passou a frequentar, todos os dias, de manhã e à tarde, a oficina do Sr. Afonso onde, no decorrer dos seis anos seguintes, aprendeu todos os segredos da electricidade de automóveis, bem como alguns de mecânica, ao mesmo tempo que prosseguia os seus estudos.
Aos dezoito anos de idade, Coxo-Zarolho deixou, por conseguinte, de ser aprendiz para passar a ser um profissional competente. Por outro lado, ele havia agora concluído todo o ensino secundário. Pouco a pouco, Coxo-Zarolho ia avançando na vida profissional e nos estudos e ia-se sentindo um homem realizado. Começava, porém, a sentir falta de uma coisa de que qualquer jovem de 18 anos sente falta: uma namorada.
Eram imensos, porém, os obstáculos neste campo. De facto, devido aos defeitos físicos que ele apresentava, não havia moça que o aceitasse para namorado. Já se havia declarado várias vezes a algumas colegas do ensino secundário mas elas respondiam-lhe que não queriam namorar ainda, que eram ainda muito novas, enfim, desculpas. Passado algum tempo, Coxo-Zarolho via-as a namorar com outros. Isto começou a criar nele um complexo de inferioridade, o que veio agravar ainda mais as coisas. E assim, pouco a pouco, Coxo-Zarolho foi-se deixando ficar, como se costuma dizer, “com um pé atrás”, isto é, sem coragem de se dirigir a uma moça para dizer que gostava dela. A princípio, ele não deu muita importância ao facto e aceitou a situação com resignação. Que importa? – pensava ele. – Se não me querem, paciência. Se não gostam de mim por ser coxo e zarolho, o que é que eu hei-de fazer? Fico assim, sozinho, com os meus defeitos físicos.
Porém, essa resignação, digamos, involuntária, seria efémera porque o verdadeiro amor ainda não tinha batido à porta do seu coração. Com efeito, quando já no Ensino Médio Industrial, onde ele estudava agora, conheceu a moça que, para ele, seria a moça mais bela e mais maravilhosa que alguma vez ele viu na vida, toda essa resignação tremeu e desmoronou-se como se desmoronam casas e pontes quando a terra treme sob os efeitos de um intenso terramoto. O amor havia chegado daqueles olhos negros que ele, quando os fitou pela primeira vez, teve de fazer um esforço enorme para vencer a atracção que eles exerciam sobre si, atracção essa tão forte como a atracção que a terrível serpente “anaconda” exerce sobre o inofensivo passarinho que, impotente, avança sem vacilar, indefeso, para a boca aberta da terrível serpente que, inexorável, o espera.
O amor havia chegado, daquela voz melodiosa que lhe fazia recordar todas as suas canções favoritas e todos os poemas que ele mais gostava.
O amor havia chegado, daqueles gestos elegantes, daquelas formas sinuosas, daquele olhar de pantera, daquele sorriso acolhedor, daquela pose cativante e daqueles lábios carnudos que ele sonhava saborear.
O amor havia chegado daquele nome melodioso que ele, a partir daquele momento, não mais, nunca mais, deixaria de pronunciar: Luísa. Luísa Esperança. Ou Luisinha, como ele passou, carinhosamente, a tratá-la.
Coxo-Zarolho ficou completamente louco pela Luísa. E, à medida que os dias iam passando, essa atracção tornava-se cada vez mais forte, mais irresistível. Quando a via, o seu corpo vibrava, o seu coração batia mais forte. Quando ouvia a sua voz, era como se ouvisse a melodia mais terna e cadenciada que alguma vez os seus ouvidos tiveram ocasião de ouvir. Quando a via conversar com algum colega sentia um mal-estar incontrolável, uma aversão a roçar as raias do ciúme.
Ele debatia-se, agora, com um dilema que o massacrava. Iria ele ter com ela e dizer-lhe que gostava dela, que a amava? Ou deixar-se-ia estar, sem lhe dizer nada, com receio de que ela, como todas as outras a quem havia pedido namoro, olhasse desdenhosa para os seus defeitos físicos e lhe dissesse que não, que não podia namorar com ele, enchendo-lhe os ouvidos de desculpas para tentar justificar, com uma amabilidade hipócrita, a sua recusa?
Coxo-Zarolho não sabia o que fazer. Uma coisa era certa para ele. Ele não aguentava mais. Quase que já não comia, estava a emagrecer. Só queria a Luísa, só ela lhe interessava. Tinha de a conquistar. Tinha de lhe dizer que a amava acima de tudo e de todos. Mas como? Como conquistá-la? Como dizer-lhe que, sem ela, a sua vida não tinha sentido?
Então uma ideia lhe veio à cabeça. Como ela era a melhor aluna de Matemática no ano que ele frequentava, iria pedir-lhe para que o ajudasse a solucionar um problema. E, quem sabe? Talvez arranjasse coragem para lhe dizer qualquer coisa, então.
Luísa — disse ele no intervalo de uma aula, ao vê-la passar.
— Sim?! — Respondeu ela fitando-o com um olhar interrogador.
Desculpa incomodar-te, Luísa, mas queria pedir-te que me ajudasses a resolver um problema de matemática que eu não estou a conseguir solucionar — disse Coxo-Zarolho, meio hesitante e com o coração a bater-lhe desordenadamente.
— Ah, olha, vamos para aquela sala que está vazia, disse ela, apontando para uma das salas cuja porta estava aberta.
Foram para a sala indicada e sentaram-se. Lado a lado.
Qual é então o problema que não consegues resolver, Augusto? — Perguntou Luísa, com uma voz terna.
Coxo Zarolho levantou a cara para ela e fitou-a meio surpreso.
— O que é que se passa? — Perguntou ela ao vê-lo olhá-la daquela maneira.
— Não sabia que sabias o meu nome verdadeiro. Aqui todos os colegas me chamam Coxo-Zarolho.
— Quando simpatizo com uma pessoa, gosto de tratá-la pelo seu verdadeiro nome. — Disse a Luísa com um sorriso.
O coração de Coxo-Zarolho pulou-lhe no peito. Estava alvoroçado. Então a Luísa simpatizava com ele?!
E antes que Coxo-Zarolho pudesse dizer alguma coisa, Luísa prosseguiu:
— Eu tenho notado, Augusto, que me tens fitado muito. Eu finjo que não vejo nada mas sinto os teus olhos constantemente em cima de mim.
Coxo-Zarolho vibrava a cada palavra de Luísa como vibram as cordas de uma viola a cada toque do tocador.
Eu sei — prosseguiu ela — que este teu pedido de ajuda para solucionar um problema de matemática não passou de um pretexto para poderes estar um bocadinho ao meu lado.
Coxo-Zarolho endireitou-se na cadeira, baixou os olhos, enfiou uma mão na outra e apertou-as. Seria nervosismo? Timidez? Excitação? Alegria? Ansiedade? Mau pressentimento? Euforia?
— E também sei que me queres dizer alguma coisa. Aproveita agora. — Disse Luísa fitando-o com ansiedade.
— Oh, Luísa! — Exclamou Coxo-Zarolho segurando e beijando a mão de Luísa, ao mesmo tempo que dizia: — Gosto muito de ti, Luísa! — Amo-te muito! Quero que sejas só minha. Para sempre!
— Eu adivinhava — respondeu Luísa carinhosamente, afagando o rosto de Coxo-Zarolho. E acrescentou:
— O meu coração dizia-me que eras tu que o fazia palpitar mais depressa. A partir de agora sou tua, Augusto. Só tua.
E os seus lábios selaram-se num beijo quente e doce.
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A partir do momento em que Luísa correspondeu ao seu afecto, Coxo-Zarolho passou os dias mais belos da sua vida. Tudo para ele era a sua Luisinha. Só tinha olhos para ela. Só ela preenchia todos os seus momentos. Levava-a ao cinema, a festas, aos parques, à praia, enfim...

Foram de passeio a Benguela, ao Namibe, ao Lubango, ao Huambo… E Luísa delirava de felicidade ao lado do homem que amava. Assim decorreram três meses de intensa e contínua felicidade para Coxo-Zarolho e Luísa. Então, ao anoitecer de um quente domingo de Dezembro, toda aquela felicidade foi, de forma trágica, insensível e cruel, abruptamente ceifada.
2. ASSASSINATO DE LUISA
Tudo aconteceu quando Luísa regressava da casa de uma tia, na Sagrada Família, e se dirigia para o Bairro Alfa onde, conforme haviam combinado, se iria encontrar com o Coxo-Zarolho às 20 horas. Por volta das 19h30m, quando Luísa ia a passar pela Zona Verde do Bairro Alfa, viu surgir de entre umas árvores e arbustos um grupo de pessoas que a agarraram e arrastaram para trás de um contentor abandonado onde, depois de a terem violado, a assassinaram.
Entretanto, Coxo-Zarolho esperava, impaciente, pela Luísa, no local combinado para o encontro. Eram já 21 horas e ela não aparecia. Ligou para o seu telemóvel e recebeu o sinal de que o mesmo estava desligado. Resolveu, então, ir ao seu encontro, já pesaroso de que alguma coisa má pudesse ter acontecido pois a Luísa costumava ser sempre pontual. Seguiu a pé em direcção à Sagrada Família, passando pala Zona Verde do Bairro Alfa. Ele não sabe por que razão, mas sentiu um calafrio ao entrar na Zona Verde. Seria um mau pressentimento? Continuou e, mais ou menos a meio caminho, viu um grupo de pessoas do lado esquerdo. Aproximou-se e… lá estava ela! A sua Luisinha! Estendida no chão. Violada. Morta.
— Foram os “Morcegos” — dizia um homem de meia-idade — escreveram o nome nesse papel que eles puseram em cima do corpo da moça.
Coxo-Zarolho olhou para o papel e leu o que lá estava escrito em letras gordas:
“Fomos nós, os “MORCEGOS”. Ela foi morta porque resistiu. Nunca se deve resistir ao “Morcegos”.
Coxo-Zarolho ajoelhou-se junto do corpo da amada e verteu as lágrimas mais amargas da sua vida. E jurou vingança. Pegou no rosto de Luísa com as duas mãos, levantou-o um pouco, olhou-a nos olhos e, encostando a sua boca ao ouvido dela para que ninguém ouvisse o que ele dizia, disse, com lágrimas nos olhos:
— Luisinha, vingar-te-ei. Hei-de matar todos os que te fizeram isto. E hei-de matá-los ao domingo, o dia em que eles te mataram. E antes de os matar, hei-de avisá-los que os vou matar para tornar mais dolorosa a sua morte.
E, acabando de dizer estas palavras, Coxo-Zarolho poisou a cabeça de Luísa, beijou-lhe, levantou-se e, virando-se para os presentes (para que ninguém desconfiasse que ele era o namorado dela pois tal poderia vir a prejudicar os seus planos de vingança), disse:
— Coitada da moça. Quem será? Por acaso já alguém telefonou para a Ango-Crime*?
— Sim, eu já telefonei — disse uma senhora idosa — eles já devem estar aí a chegar para removerem o corpo.
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Coxo-Zarolho afastou-se lentamente do local, caminhando incerto como num longo deserto sem fim. Para ele, a vida tinha partido com a Luísa e sem a Luísa já nada existia senão tristeza, solidão, dor e trevas. À sua memória chegou uma passagem de um famoso poema de Bocage: “... CONTAREI AO MEU BEM MEU MAL PROFUNDO; E QUE SEM ELA VIVO ABSORTO, ERRANTE, PERDIDO, AMARGURADO E SÓ NO MUNDO.”

Uma única coisa agora lhe preencheria a existência, que seria a vingança da morte da sua amada. Mais nada, absolutamente mais nada lhe interessaria, enquanto não vingasse a morte da sua Luisinha.
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Os “Morcegos” -- o grupo que violou e assassinou a Luísa Esperança, a amada de Coxo-Zarolho -- era um grupo de criminosos que vinha a praticar crimes em Luanda já há mais de três anos sem que, nem a Polícia nem ninguém, conseguisse identificar qualquer dos elementos que o compunham. Chegou-se mesmo até a pensar, a determinada altura, que os seus elementos teriam a protecção de elementos das forças de segurança e que seria, talvez por isso, que a sua identificação e captura não se efectivava. Outros, mais supersticiosos, chegaram a aventar que os elementos que compunham esse grupo não eram identificados nem capturados porque tinham sido “curados” ou “amarrados” por um quimbanda (feiticeiro). Regra geral, depois de terem cometido um crime, deixavam uma nota (como aconteceu no caso de Luísa) a indicar que haviam sido eles os autores do mesmo. O referido grupo praticava crimes de diversa natureza, como assaltos à mão armada a residências e bancos, roubos de viaturas, violações sexuais, assassinatos, chantagem, extorsão, tráfico de influências, etc. etc. Algumas vezes, aterrorizavam os residentes dos bairros distribuindo panfletos ameaçadores num determinado bairro como, por exemplo, o seguinte:
“Os “Morcegos” vão passar por este bairro às 2 horas da manhã.”
E, assim, obrigavam os moradores desse bairro a passarem a noite em claro, refugiando-se, os idosos, noutros bairros e montando guarda os mais jovens à espera do grupo que, entretanto, geralmente não aparecia, indo então fazer assaltos num outro bairro.
Ninguém sabia quantos elementos constituíam o grupo e absolutamente nada sobre o grupo para além do nome e da natureza dos crimes que praticava.
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Eram, pois, os elementos deste grupo que Coxo-Zarolho teria de identificar para dar início à vingança que prometera sobre o corpo de Luísa. E ele estava determinado a isso, a ir até ao fim, nem que isso fosse a última coisa que fizesse na vida.
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Os doze meses que se seguiram ao assassinato de Luísa, Coxo-Zarolho dedicou-os, inteiramente, à identificação dos elementos que compunham os “Morcegos”. E, no fim de doze meses de trabalho árduo, arriscado, em que muitas vezes esteve em perigo de vida, ao fim de doze meses em que por diversas vezes teve de se infiltrar em outros grupos de marginais e fazer-se passar por delinquente, para assim poder obter as informações que procurava; em que se fez passar por mendigo, sacerdote, médico, advogado, curandeiro, feiticeiro, vendedor ambulante, mulher prostituta, traficante de armas, falsificador de documentos, passador de droga, guarda de segurança, mudo, cego, pescador, motorista de táxi, barbeiro, sapateiro, relojoeiro, vendedor de jornais, grande empresário, estivador, etc., etc.; ao fim de 12 meses em que muitas vezes dormiu ao relento e apanhou chuva; em que foi internado em hospitais queixando-se de doenças que não tinha; em que penetrou nos bairros disfarçado de fiscal (de águas, de electricidade, de obras anárquicas, de saneamento); em que dançou sem querer dançar, em que chorou sem querer chorar, e riu sem querer rir; em que as noites para ele eram dias e em que os dias, por vezes, se transformavam em noites; ao fim de doze meses em que, enfim, Coxo-Zarolho viveu cada segundo, cada minuto, cada hora, cada dia da sua vida inteiramente dedicados a uma causa. Ao fim desses doze meses ele tinha, finalmente, em sua posse, todos os nomes dos elementos que formavam o grupo “Morcegos”, bem como outras informações relevantes respeitantes aos mesmos, como idades, profissões, locais de trabalho ou de residência, estado civil, hábitos, etc. Estavam, assim, agora reunidas as condições para que ele desse início à sua vingança. A vingança da morte da sua Luisinha.
3. IDENTIFICAÇÃO, POR COXO-ZAROLHO, DE TODOS OS ELEMENTOS DOS “MORCEGOS”
Depois de ter identificado o último elemento do grupo e de se ter certificado de que aquele era, efectivamente, o último, Coxo-Zarolho anotou os seus dados na lista, dobrou a folha de papel, meteu-a no bolso e foi para casa. Eram já 20 horas. Estava estoirado. Precisava de um bom jantar e de uma boa noite de sono. Passou por um “Take-Away”, comprou uma boa refeição e seguiu o seu caminho. Chegou a casa por volta das 21 horas. Tomou um banho, jantou e deitou-se. Antes de adormecer, porém, pegou na folha de papel onde havia anotado os nomes dos elementos dos “Morcegos” e leu-a. Devagar. Saboreando cada nome com um ódio viperino.

OS “MORCEGOS”
1) MARCIAL TIMÓTEO (Chefe do grupo), mais conhecido por “Cara de Pau”. 42 anos, marido de Felismina Timóteo, residente na Samba, proprietário de uma frota de táxis.
2) GUSTAVO SACRAMENTO (Sub-chefe do grupo), 40 anos, marido de Joana Sacramento, residente no Kilamba-Kiaxi, dono de uma oficina de automóveis.
3) PAULINO DAMIÃO, mais conhecido por Paulão, (Chefe de reconhecimento), 52 anos, sem mulher, residente na Maianga, comerciante, dono de duas lojas e de um restaurante.
4) CARLOS GONÇALVES, 35 anos, sem mulher, residente no Maculusso, empregado de escritório numa agência de seguros.
5) MARTA VITORIANA, mais conhecida por “Pomba Azul”, 25 anos, sem marido, residente na Vila Alice, farmacêutica de profissão e trabalhadora na Farmácia “Saúde 3000”.
6) FRANCO VIDRAL, mais conhecido por “Duralex”, 48 anos, marido de Lúcia Vidral, residente nas Ingombotas, Sub-gerente do Banco “InterTransfer”.
4. COXO-ZAROLHO DÁ INÍCIO À SUA VINGANÇA
Ao acabar de ler a lista, Coxo-Zarolho dobrou-a cuidadosamente e guardou-a. Em seguida, pegou num marcador de tinta vermelha e escreveu o seguinte numa folha branca:
NOTA MORTÍFERA
Tu, Marcial Timóteo, (Cara de Pau)!
Tu serás o primeiro a morrer...
Morrerás ao domingo,
o dia da semana em que ela foi morta.

Seguidamente, dobrou a folha de papel e, ao mesmo tempo que a metia num envelope, murmurava:
— Hoje é quinta-feira. No próximo domingo, começo a matança.
E, minutos depois, adormeceu.
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Marcial Timóteo, (Cara de Pau), o Chefe dos “Morcegos”, acordou bem disposto no domingo. Estava um dia lindo, pelo que disse à mulher e aos filhos que se preparassem para um dia “em cheio” na praia. Depois dirigiu-se para a porta da frente para sair e ir preparar a viatura. Ao chegar junto à porta, viu um envelope no soalho. — Alguém deve tê-lo metido pela parte de baixo da porta. — pensou ele. “Cara de Pau” apanhou o envelope e abriu-o. Tirou a folha de papel que estava dentro e leu o que nela estava escrito:
Tu, Marcial Timóteo (Cara de Pau)!
Tu serás o primeiro a morrer...

— Ó Felismina — chamou ele pela mulher, que se encontrava na cozinha. — Chega aqui.
A mulher aproximou-se.
— Olha aqui isto. O que será isto?! — perguntou ele à mulher mostrando-lhe a nota.
A mulher leu a nota, olhou para ele com preocupação, tornou a olhar para a folha de papel, tornou a olhar para ele e, por fim, disse:
— Meu Deus! Será alguma brincadeira?!
— Se é uma brincadeira, é uma brincadeira de muito mau gosto. — Respondeu “Cara de Pau” olhando para a porta e para o soalho como que a tentar descobrir alguma coisa.
— Olha, disse ele resolutamente à mulher, guarda isso aí dentro e logo se verá o que será. Não deve ser coisa séria. Deve ser alguém conhecido que dormiu numa festa, bebeu uns “copos” e agora quer brincar. Eu vou preparar o carro para irmos à praia.
E, acabando de dizer estas palavras, abriu a porta da frente, dirigiu-se ao portão e abriu-o. Foi a última coisa que fez na vida. Um disparo, provavelmente de revólver, soou aos ouvidos de quem se encontrava nas imediações. O corpo de “Cara de Pau” rodopiou e tombou pesadamente no solo, no meio de um charco de sangue.
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Coxo Zarolho chegou a casa com a consciência do dever cumprido. Antes que fizesse outra coisa, pegou no seu marcador de tinta vermelha e escreveu o seguinte numa folha de papel:
NOTA MORTÍFERA
Tu, Gustavo Sacramento!
Tu serás o segundo a morrer...
Morrerás ao domingo,
o dia da semana em que ela foi morta.
E, ao mesmo tempo que colocava a folha de papel num envelope, murmurava:
— No próximo domingo, a minha vingança prosseguirá.
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A morte de Marcial Timóteo (Cara de Pau), causou inquietação nos outros membros dos “Morcegos”, não só porque ele era o chefe do grupo mas, sobretudo, pelo facto de ele ter recebido aquela sinistra “nota mortífera” antes de morrer e, mais sobretudo ainda, pela linguagem da mesma: ”Tu serás o primeiro a morrer… morrerás ao domingo, o dia da semana em que ela foi morta…” O que quereria dizer aquilo? Que depois do “Cara de Pau” outros se seguiriam? E quem seriam esses outros? E quem teria ele morto ao domingo?
Estas mesmas inquietações, teve a AngoCrime (Agência de Investigação e Notificação de Crimes). Seguir-se-iam outros assassinatos? Pelo menos da “nota mortífera” transparecia isso. “Tu serás o primeiro…”
— Bem, accionem-se todos os mecanismos para a investigação deste crime — disse o Inspector Juvenal da AngoCrime a dois dos seus investigadores. — Temos de identificar o assassino antes que outras mortes se sigam.
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Gustavo Sacramento, o sub-chefe dos “Morcegos”, entrou em casa por volta das 17 horas, depois de um sábado cheio de trabalho na sua oficina. Passados alguns minutos, a mulher disse-lhe:
— Ah, ia-me esquecendo. Olha, vê aí em cima da mesinha do televisor, pus aí uma carta para ti, parece que é daquele senhor a quem vendeste o gerador.
— Ah, do Joaquim? Vou já ver isso.
Gustavo Sacramento foi à geleira, tirou um sumo de laranja, bebeu um copo com sofreguidão e depois foi ver a carta. Descolou o envelope e puxou a folha de papel. Desdobrou-a. O seu coração pulou-lhe no peito, as mãos tremeram-lhe, os lábios secaram-lhe. Os olhos ficaram presos àquelas palavras, ao mesmo tempo que pela memória mil pensamentos se lhe cruzavam.
“Tu, Gustavo Sacramento,
Tu serás o segundo a morrer…”

— Então, é do Joaquim? — Perguntou-lhe a mulher, vendo-o pálido e a transpirar.
— Não, não é. Deve ser de algum amigo que talvez me quis pregar um susto. — Respondeu ele, tentando disfarçar o seu estado de espírito.
— Um susto?! — Surpreendeu-se a mulher, aproximando-se.
— É… lê! — Disse Gustavo Sacramento mostrando a folha de papel à mulher.
Depois de ler a nota, a mulher olhou admirada e temerosa para o marido. Este perguntou:
— Quem trouxe a carta?
— Foi um desses rapazitos vendedores ambulantes. Nem reparei bem na cara dele.
— Bem — disse ele com ares de quem não dava muita importância ao facto para não alarmar a esposa — por hoje vou esperar aqui a ver se alguém aparece para dizer alguma coisa. Amanhã de manhã vou até ao meu irmão pedir-lhe uns conselhos sobre o que devo fazer.
— Não discutiste com ninguém? Não será melhor mostrares essa carta à Polícia? — Perguntou e sugeriu a mulher que, entretanto, não sabia que o marido pertencia aos “Morcegos” e nem tinha chegado ao seu conhecimento que o chefe desse grupo havia sido assassinado e que uma nota idêntica lhe havia sido enviada, a avisá-lo que ia ser morto.
— Não, por enquanto não se diz nada à Polícia, nem a ninguém. Guarda a carta. — Disse Gustavo Sacramento sentando-se numa cadeira em frente ao televisor.
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Nunca Gustavo Sacramento havia passado uma noite de sábado tão agitada. Não conseguiu pregar olho. Virava-se de um lado para o outro, tapava-se e destapava-se, olhava para o relógio, enfim. A mulher até pensou que ele estava com vontade de fazer sexo e avançou-lhe uns carinhos…
— Não, Joana. Hoje não me apetece nada. — Disse ele, virando-se para o outro lado.
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No dia seguinte, ainda eram 5 horas da manhã e já ele estava de pé a preparar-se para ir à casa do irmão. Por volta das seis, meteu-se na sua viatura e partiu. Ia amedrontado. Será que lhe ia acontecer o mesmo que aconteceu ao chefe do grupo? Precisava do conforto do irmão…
A sua viatura deslizava devagar no asfalto negro, levando-o ao encontro do irmão. Pouco era ainda o movimento de pessoas e viaturas. Ao passar por uma rua estreita, com pouco movimento, ouviu uma voz atrás de si que lhe ordenou:
— Encoste a viatura ao lado daquele muro e estacione.
O seu coração caiu-lhe aos pés e quase desmaiou. Abrandou a marcha e encostou a viatura ao muro. Logo que parou, sentiu duas garras a apertarem-lhe o pescoço, a apertarem...a apertarem… e foi a última coisa que sentiu na vida.
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O assassinato de Gustavo Sacramento agitou a AngoCrime (que agora tinha a certeza que mais crimes se seguiriam uma vez que, as duas “notas mortíferas” enviadas a Marcial Timóteo e a Gustavo Sacramento prenunciavam tal facto) e agitou igualmente os restantes elementos dos “Morcegos” pois começavam a ver agora que os alvos dessas terríveis notas mortíferas poderiam ser, efectivamente, todos eles.
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Coxo-Zarolho chegou a casa, satisfeito. Dois já tinham ido. Sentou-se, pegou no seu marcador vermelho e escreveu as seguintes palavras:
NOTA MORTÍFERA
Tu, Paulino Damião (Paulão)!
Tu serás o terceiro a morrer...
Morrerás ao domingo,
o dia da semana em que ela foi morta.
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Quando, naquele domingo de manhã, Paulino Damião desceu para a área da Mutamba, como aliás geralmente fazia todos os domingos de manhã, para comprar o Jornal e sentar-se um pouco num dos bancos ao ar livre, a gozar os raios ainda não muito quentes do Sol, ia pesaroso e ao mesmo tempo aliviado. Pesaroso, porque não lhe saía da cabeça os assassinatos do Chefe e do Subchefe do seu grupo. Seguir-se-ão outros? — Interrogava-se ele. Por outro lado sentia-se aliviado, por não ter recebido a “nota mortífera” a avisá-lo que havia chegado a sua vez e isso queria dizer que, pelo menos por enquanto, ele podia ficar descansado. Ou até mesmo, quem sabe? Talvez nunca chegasse a receber tal nota…
Ao chegar à Mutamba, dirigiu-se a um homem que estava a um canto a vender jornais e comprou um. Procurou um banco mesmo ali ao lado e sentou-se. O dia estava calmo e quase ninguém circulava, ainda, por ali. Abriu o jornal e… os seus olhos não acreditavam no que viam. A “nota mortífera!” Estava ali a nota!
Tu, Paulino Damião (Paulão)!
Tu serás o terceiro a morrer…

Ficou lívido. Sentiu o corpo molhado e as suas mãos tremiam-lhe incontrolavelmente. Olhou para um lado, olhou para o outro, completamente aterrorizado. Não sabia o que fazer. Levantou-se desnorteado. Deu dois passos em frente… e foi a última coisa que fez na vida. Um punhal “voou” pelos ares e veio cravar-se, cruel e insensível, no seu abdómen. Deu duas voltas sobre si mesmo, colou as mãos à barriga e caiu. Caiu no meio de uma poça de sangue, desfalecido, inerte, morto.
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Depois da morte de Paulino Damião (o chefe de reconhecimento dos “Morcegos” e conhecido naquele grupo por “Paulão”), a AngoCrime (Agência de Investigação e Notificação de Crimes) passou a designar os três assassinatos ocorridos ao domingo, em que “notas mortíferas” haviam sido enviadas às vítimas, por “O caso das mortes ao domingo com notas mortíferas”.
O caso estava a tornar-se famoso, não só em Luanda e em toda Angola, como até no estrangeiro. Não se falava noutra coisa. Até aquela altura não havia sido encontrada a menor pista que conduzisse ao autor dos assassinatos, pelo que a AngoCrime resolveu alargar o nível da investigação, solicitando a cooperação de um detective independente e muito competente, o detective AlfaZero.
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Para os restantes membros dos “Morcegos”, já não havia dúvida que os alvos dos assassinatos eram todos os elementos do grupo, pelo que o pânico se instalou entre eles. Não sabiam o que fazer. Não faziam a menor ideia de quem poderia estar por detrás dos assassinatos e porquê. O único ponto em comum que apareceu nas três notas mortíferas foi a referência ao domingo…
“… morrerás ao domingo, o dia da semana em que ela foi morta…”
Haviam cometido tantos assassinatos ao domingo… como iriam agora saber de quem se tratava?
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Coxo-Zarolho entrou em casa por volta da 10 horas. Sentou-se e, ao mesmo tempo que pegava no seu marcador vermelho, dizia para consigo próprio:
— Vamos ao quarto!
Numa folha de papel branco, escreveu:
NOTA MORTÍFERA
Tu, Carlos Gonçalves!
Tu serás o quarto a morrer...
Morrerás ao domingo,
o dia da semana em que ela foi morta.
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Entretanto o detective AlfaZero que, como dissemos, foi contratado pela AngoCrime para ajudar no caso, deu início às suas investigações fazendo uma análise às três “notas mortíferas” que haviam sido enviadas às três pessoas assassinadas. E uma coisa lhe saltou imediatamente à vista. Tratava-se, sem dúvida, de uma vingança. Alguém se estava a vingar da morte de uma pessoa do sexo feminino, que foi morta num domingo, por um grupo de pessoas que incluía as três que haviam sido assassinadas. E eram estes os únicos dados disponíveis. Várias interrogações ficavam no ar. Quem se estava a vingar? De quem se estava essa pessoa a vingar? Qual a relação existente entre as três pessoas assassinadas? Alfazero conversou com familiares, com amigos e com conhecidos das vítimas e ninguém, absolutamente ninguém, sabia de alguma relação entre elas. Alfazero decidiu, então, em cooperação com a AngoCrime, fazer passar um anúncio na Rádio, na Televisão e nos Jornais, avisando a toda a população que, caso alguém recebesse uma “nota mortífera” nas condições especificadas (e davam-se os detalhes da nota) deveria imediatamente correr para a esquadra policial mais próxima e dar conhecimento do facto. E o referido anúncio começou, de imediato, a ser divulgado.
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Aquele domingo nascera com um aspecto sombrio. O céu estava coberto de nuvens e, a qualquer momento, deveria cair uma grande chuvada. Para Carlos Gonçalves, além de sombrio, aquele domingo apresentava qualquer coisa de sinistro. Não se sentia bem. Parecia-lhe que havia no ar uma tristeza lúgubre, um cheiro de morte. Resolveu ir até à Baixa tomar qualquer coisa quente num restaurante. Entrou no restaurante e sentou-se numa das mesas. Pediu um café com leite e pão com manteiga.
O restaurante estava bastante cheio e muitas pessoas, de pé, movimentavam-se de um lado para o outro. No breve instante em que ele virou a cara para a porta de entrada para ver uma pessoa que entrava, uma folha de papel (a “nota mortífera”) caiu, como que por encanto, na sua mesa. Quando ele voltou a olhar para a mesa, e viu sobre ela a “nota mortífera”, quase desmaiou. Estava atrapalhado. Não sabia o que fazer. Fugir dali? Levar a nota consigo, ou deixá-la ficar em cima da mesa? Olhava para ela, trespassado de terror.
Tu, Carlos Gonçalves,
Tu serás o quarto a morrer...

Lembrou-se, então, do anúncio que ouvira na televisão, em que a Polícia pedia que se alguém recebesse a “nota mortífera” que corresse para a esquadra mais próxima… dobrou a nota rapidamente, a olhar para todos os lados completamente apavorado. Levantou-se precipitadamente, para sair. Mas antes, quase sem saber o que fazia, pegou no copo que continha o seu café com leite, levou-o à boca, deu alguns goles rápidos e… foi a última coisa que fez na vida. Faltou-lhe o ar, sentiu qualquer coisa a queimar-lhe por dentro, rodou sobre si mesmo, abriu muito os olhos e tombou, inerte, no soalho axadrezado do restaurante. Um poderoso veneno havia sido jogado no copo de café com leite na altura em que foi colocada a “nota mortífera” por cima da sua mesa.
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A morte de Carlos Gonçalves deixou os dois últimos elementos dos “Morcegos” (Marta Vitoriana (Pomba Azul) e Francisco Vidral (Duralex)) completamente em pânico. Para se confortarem e procurarem alguma solução, reuniram-se nesse mesmo domingo em que Carlos Gonçalves foi assassinado. Francisco Vidral, medroso por natureza, estava completamente aterrado.
— O melhor é irmo-nos apresentar à Polícia e pedir protecção. — Disse ele, com o medo estampado nos olhos.
— Ó “Duralex” — respondeu-lhe a “Pomba Azul”, chamando-o à realidade — estás a esquecer-te que és membro de um grupo de criminosos altamente perigosos e que estás a ser procurado pela Polícia há mais de três anos? Com que cara é que ias pedir protecção à Polícia?
— Então vamos fugir. — Disse ele olhando para todos os lados como se estivesse à procura de um esconderijo.
— Fugir?! — Perguntou a “Pomba Azul” olhando igualmente para todos os lados. — Fugir para onde? Se fugirmos, recairão suspeitas sobre nós e rapidamente seremos detidos pela polícia para interrogatórios. O melhor é continuarmos caladinhos e esperarmos … até pode acontecer que o assassino pare no Carlos Gonçalves e não nos procure e, se tal acontecer, escapamos dele e escapamos igualmente da polícia.
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Coxo– Zarolho deixou o restaurante onde havia acabado de assassinar Carlos Gonçalves e perdeu-se no emaranhado das pessoas que se movimentavam na Baixa de Luanda. Calmamente, seguiu para casa. Ao sentar-se na sua pequena salinha de estar, falou consigo próprio ao pegar no seu marcador de tinta vermelha:
— Só faltam dois…
E, pegando numa folha de papel, redigiu a nota fatídica.
NOTA MORTÍFERA
Tu, Marta Vitoriana, (Pomba Azul)!
Tu serás a quinta a morrer…
Morrerás ao domingo,
o dia da semana em que ela foi morta.
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O detective Alfazero confessou a si próprio que aquele era um dos casos mais difíceis que lhe havia surgido na sua carreira de detective. Naquele domingo sombrio e chuvoso, quando por volta das 11 horas da manhã ouviu na televisão a notícia do assassinato de Carlos Gonçalves, a quarta vítima do caso “Mortes ao domingo com notas mortíferas”, Alfazero sentiu-se completamente frustrado. Como prosseguir com a investigação? Quem seria esse terrível assassino que nunca deixava pistas para além das notas mortíferas que fazia chegar às suas vítimas antes de as matar? Alfazero levantou-se, desceu para a sua viatura e dirigiu-se para a AngoCrime (Agência de Investigação e Notificação de Crimes) nos Coqueiros. Ele iria fazer uma consulta aos registos de todas as pessoas assassinadas em Luanda, nos últimos 24 meses, para tentar seleccionar aquelas que foram assassinadas num domingo e ver, assim, a possibilidade de alguma relação entre as pessoas assassinadas.
Ao chegar à AngoCrime, foi recebido pelo Inspector Juvenal.
— Oh, detective AlfaZero, por aqui?! Acabei há pouco de ouvir a notícia da quarta vítima… — disse, à guisa de cumprimento, o Inspector Juvenal.
— Ah, sim, a quarta! Quantas mais se seguirão, Inspector Juvenal? — disse, com um suspiro de desânimo, o detective AlfaZero. E logo a seguir, pediu:
— Inspector Juvenal, preciso de consultar todos os Arquivos de todas as pessoas assassinadas em Luanda, nos últimos 24 meses.
— Com certeza! — respondeu, prontamente, o Inspector Juvenal. E, virando-se para uma pequena porta entreaberta, chamou:
— Marcos!
À chamada, surgiu um Inspector na porta entreaberta.
— Marcos, põe tudo o que o detective AlfaZero quiser à sua disposição. — Ordenou o Inspector Juvenal. — Prepara-lhe um Gabinete para ele trabalhar à vontade, com computador, telefone, Internet, etc. E, virando-se para o detective AlfaZero:
— Pronto, detective AlfaZero. Trabalhe à vontade. Eu vou até a casa ver se como qualquer coisa.
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5. O DETECTIVE ALFA-ZERO INICIA A SUA INVESTIGAÇÃO
Alfazero meteu mãos à obra. A busca não foi morosa pois a AngoCrime tinha todos os arquivos informatizados. E, assim, ao fim de duas horas de trabalho, Alfazero pôde elaborar a seguinte lista de pessoas assassinadas ao domingo, em Luanda, nos últimos 24 meses.

1. Marçano Magalhães, 45 anos, assassinado por M. Mabeza (Sobrinho da vítima)

2. Gustavo Andrade, 18 anos, assassinado pelo grupo “Morcegos”.

3. Maria Clotilde, 33 anos, assassinada por Mário Mariano (marido)

4. Francisco Marques, 23 anos, assassinado pelo grupo “Morcegos”.

5. Luísa Esperança, 20 anos, assassinada pelo grupo “Morcegos”.

6. Carlos Bragal, 48 anos, assassinado pelo grupo “Morcegos”.

7. Laureano Mavulo, 55 anos, assassinado pelo grupo “Sem Medo”.

8. Vasco Sapalo, 62 anos, assassinado pelo grupo “Morcegos”.

AlfaZero examinou a lista atentamente. Oito pessoas haviam sido assassinadas ao domingo: seis do sexo masculino e duas do sexo feminino. Pelo que se depreende das “notas mortíferas” enviadas às quatro pessoas assassinadas, o assassino está a vingar-se da morte de uma mulher pois a nota diz claramente, a dado passo:
“morrerás ao domingo,
o dia da semana em que ela foi morta…”

Posto isto, das duas mulheres da lista, só uma foi assassinada por um grupo (a Luísa Esperança), pois a outra, Maria Clotilde, foi morta pelo marido.
AlfaZero abriu imediatamente o Arquivo de Luísa Esperança (Arquivo Nº 134-F) e leu-o com atenção:
“Luísa Esperança, 20 anos, violada e assassinada na Zona Verde do Bairro Alfa, no dia xxx, do mês xxx do ano xxx. Por cima do seu corpo foi encontrada a nota em anexo:
AlfaZero leu a nota:
“Fomos nós os “Morcegos”. Ela foi morta porque resistiu. Nunca se deve resistir aos “Morcegos”.
Para AlfaZero já não havia dúvida. A pessoa que estava a ser vingada era Luísa Esperança e as pessoas que estavam a ser assassinadas eram os elementos do grupo de criminosos denominado “Morcegos”, pois foi este grupo que a assassinou.
Haveria, agora, a possibilidade de se saber quem eram os restantes membros do grupo para que fossem detidos antes de serem assassinados? Provavelmente que não, pois ninguém sabia quem eram esses restantes elementos.
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Entretanto, a fama do caso “Mortes ao Domingo com Notas Mortíferas” alargava-se além-fronteiras e já grandes emissoras radiofónicas e canais de televisão internacionais, falavam do mesmo. A “Interpol” e o “FBI”, bem como um grande número de detectives independentes de vários países, chegaram mesmo a oferecer a sua assistência à AngoCrime para ajudarem nas investigações. No país, o caso excitava as multidões que, em delírio, seguiam as notícias, os rumores e até mesmo os boatos que, nestes casos, parecem inevitáveis e cuja função parece ser inflamar ainda mais a euforia da população.
No domingo que se seguiu à morte da 4ª vítima (Carlos Gonçalves), não ocorreu qualquer assassinato pelo que a tensão nervosa dos dois restantes membros do grupo se desanuviou um pouco.
— Terão terminado os assassinatos?! — Interrogavam-se eles.
Não, não haviam terminado. No domingo seguinte, Coxo-Zarolho voltou à carga.
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Marta Vitoriana, a próxima vítima visada por Coxo-Zarolho, era a única mulher que integrava os “Morcegos”, e era conhecida no grupo por “Pomba Azul”. Era uma mulher independente. Com 25 anos de idade, bonita, elegante, sedutora, sem marido, usufruindo um salário considerado excelente como farmacêutica e com proventos mensais avultados provenientes das suas “operações” nos “Morcegos”, ela levava, efectivamente, uma vida sem sobressaltos. Gostava de gozar a vida, de ir a festas, de relacionar-se casualmente com parceiros sexuais, de viajar em férias, enfim!

Assim, quando naquela tarde de domingo, naquela festa de aniversário de uma colega amiga, aquele cavalheiro de ar aristocrático, com um bigode bem aparado, uma barba curta e elegante, bem vestido, lhe segredou palavras doces ao ouvido e lhe disse que queria passar aquela noite com ela, a “Pomba Azul” não teve forças para resistir ao som melodioso e romântico daquela voz quente e amorosa. E era disso que ela gostava. Variar. Variar os parceiros sexuais, variar a monotonia da vida e descobrir, em cada instante, uma nova surpresa, uma inovação.
E foi assim que, por volta das 22 horas ela saiu da festa de braço dado com o referido cavalheiro e, meia hora depois, estava dentro de uma confortável e acolhedora suite, na Ilha de Luanda, sonhando passar ali uma das noites mais maravilhosas da sua vida.
A dada altura saiu do quarto onde se encontravam já deitados e foi à casa de banho. Foi então que a viu. A “nota mortífera” estava ali. No lavatório, como se tivesse caído do céu. Leu-a, aterrada:
“Tu, Marta Vitoriana (Pomba Azul)!
Tu serás a quinta a morrer…”

Deu um grito abafado e agarrou-se ao lavatório para não cair. Tentou chamar o parceiro mas a voz prendeu-se-lhe na garganta. E logo em seguida, antes que pudesse fazer qualquer outra coisa, sentiu o que lhe pareceu ser um fio eléctrico em volta do seu pescoço a apertar… a apertar… e foi a última coisa que sentiu na vida.
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Coxo-Zarolho fechou a suite calmamente e colocou a chave, bem como o dinheiro do aluguer, no local onde lhe haviam dito para os deixar. (Ele havia alugado a suite por telefone, com uma identificação falsa e só para aquela noite). Em seguida, dirigiu-se para casa, gozando a frescura de uma brisa suave que soprava naquela noite quente de domingo.
Ao chegar a casa, tirou o bigode falso e a barba postiça que havia posto e, ao mesmo tempo que pegava no seu marcador de tinta vermelha, murmurava:
— Está quase completa a minha vingança, Luisinha. Só falta um. Depois de matar o último, já poderei descansar.
E, pegando numa folha de papel, escreveu:
NOTA MORTÍFERA
Tu, Franco Vidral (Duralex)!
Tu serás o sexto e último a morrer...
Morrerás ao domingo,
o dia da semana em que ela foi morta.
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Quando tomou conhecimento da morte de Marta Vitoriana (a “Pomba Azul”), Franco Vidral, o elemento dos “Morcegos” conhecido, no seio do grupo, por “Duralex” e que agora era o único membro do grupo ainda vivo, entrou num estado de terror febril e começou a sofrer de alucinações. Assustava-se com tudo, até com o barulho de uma esferográfica que caísse. Quando alguém se aproximava dele, refugiava-se num canto, completamente amedrontado. Em todas as folhas de papel “via” uma “nota mortífera”. Não raras vezes, no seu gabinete, no Banco onde trabalhava, rejeitou cartas importantes que a secretária lhe trazia, com receio de que alguma delas fosse a “nota mortífera”.
O gerente do Banco apercebendo-se do seu estado, dispensou-o do serviço, para tratamento médico, dizendo-lhe que ficasse em casa até que se sentisse melhor. Em casa, a Dona Lúcia Vidral, sua esposa, estava perplexa, não sabendo o que se passava com o marido.
— Mas ó Franco, — dizia ela — tu não me estás a esconder nada? Eu nunca te vi assim nesse estado!
Franco Vidral nem respondia. Encontrava-se sob um estado de ansiedade tal que sentia todo o seu sistema nervoso desordenado. E todo o seu desarranjado estado de espírito atingiu o auge quando, numa manhã de sexta-feira, a mulher, que se encontrava na parte da frente da casa a regar as flores, entrou, com um envelope na mão e, entregando-o ao marido, disse:
— É para ti. Foi um estafeta do Banco que trouxe.
Sem sequer pegar no envelope, Franco Vidral levou as mãos ao peito e começou a suspirar fundo, enquanto o seu corpo suava, os seus lábios secavam e o seu corpo tremia. A mulher assustou-se:
— Mas o que é que se passa, Franco? O que é que tem a carta?
— Ai Lúcia — dizia ele com voz trémula — estou perdido. Deve ser a “nota”. Deve ser ela.
— Mas que nota, valha-me Deus! — disse, já irritada e nervosa, a esposa. — Desembucha de uma vez, homem!
— Lúcia, abre o envelope e vê o que está lá. Eu não tenho coragem.
A Dona Lúcia Vidral abriu o envelope, tirou a folha de papel que se encontrava dentro e, ao ler o que nela estava escrito, o seu coração sobressaltou-se, o seu rosto contraiu-se, as mãos tremeram-lhe. Os seus olhos não acreditavam no que viam:
“Tu, Franco Vidral (Duralex)
Tu serás o sexto e último a morrer… morrerás ao domingo… “

— Hoje é sexta-feira… murmurou a Dona Lúcia com voz trémula. E logo a seguir, disse:
— Tens de fazer o que a Polícia pediu, Franco. Tens de te ir apresentar à Polícia com a nota. Mas, diz-me uma coisa. Tu já sabias que ias receber esta nota, não é?
— Não, Lúcia, eu não sabia de nada. — Disse, apressadamente, o “Duralex”.
— Sabias, Franco, tu sabias, sim senhor. Se não soubesses não andavas para aí nesse estado em que andas, que até estás sujeito a perder o emprego, por causa disso. E digo-te já que se não fores tu próprio à Polícia, vou eu informar o caso. Portanto, é melhor preparares-te para lá ires. Ou, se tens receio de sair, eu telefono agora mesmo à AngoCrime para eles te virem cá buscar.
— Sim, Lúcia, é melhor telefonares. Eu tenho medo de sair daqui agora.
— Mas Franco, hoje ainda é sexta-feira e se tiver de te acontecer alguma coisa, é só no domingo. Mas pronto, se preferes que eu telefone, eu telefono e vou já fazer isso.
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A AngoCrime recebeu o telefonema da Dona Lúcia Vidral, esposa de Franco Vidral, (Duralex), a informar da “nota mortífera” recebida pelo marido. Cerca de meia hora depois, uma viatura da Agência estacionou em frente à casa de Franco Vidral e levou-o. O detective AlfaZero foi informado do caso, tendo chegado à AngoCrime cerca de vinte minutos depois. Logo que chegou, a primeira coisa que quis ver foi a “nota mortífera” enviada a Franco Vidral. Depois de a ler, ele comentou para um dos sub-inspectores:
— Ah, então este é o último elemento dos “Morcegos”.
Alfazero não achou oportuno dizer a Franco Vidral, (Duralex), pelo menos, por enquanto, que era do seu conhecimento e da Polícia, que ele era um dos membros dos “Morcegos”, pois tal poderia pôr em causa a caça que se pretendia fazer ao assassino.
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O detective AlfaZero e o Inspector Juvenal, da AngoCrime, conversaram sobre a melhor forma de manterem a segurança de Franco Vidral, no domingo, o dia marcado para a sua morte. Acharam eles que, no domingo, para além de ser mantida a sua segurança ele iria, igualmente, servir de isca para a captura do assassino. Assim, depois de considerados os prós e os contras das ideias apresentadas, o detective AlfaZero e o Inspector Juvenal decidiram que o melhor seria que Franco Vidral passasse normalmente o domingo em casa, como se nada estivesse para acontecer. Entretanto, porém, o detective AlfaZero e mais outros dois investigadores da Agência, manter-se-iam escondidos em casa dele, durante todo o dia, prontos para, a qualquer momento, salvarem a sua vida e capturarem o assassino.
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6. O DETECTIVE ALFAZERO E DOIS INVESTIGADORES MONTAM GUARDA EM CASA DE FRANCO VIDRAL
E assim foi feito. Domingo, a partir da meia-noite, o detective AlfaZero e dois investigadores da AngoCrime estavam a postos em pontos estratégicos da casa de Franco Vidral, prontos para a qualquer momento salvarem a sua vida e prenderem o terrível assassino.
Da meia-noite aos primeiros raios do sol, nada aconteceu. O dia nasceu lindo, transparente, convidativo para um longo domingo na praia ou nos parques. A Dona Lúcia, esposa de Franco Vidral, ofereceu, logo de manhã cedo, chávenas de café bem quente ao detective Alfazero e aos dois investigadores da AngoCrime, que as saborearam com gosto. Entretanto, as horas passavam e nada vinha perturbar a calma que reinava naquela área.
Franco Vidral estava mais nervoso e impaciente do que nunca. Aquela espera torturava-o. Cada minuto parecia-lhe uma hora e cada hora um século. Eram agora cerca de 15 horas. Franco Vidral fechou o televisor, saiu da sala de estar e foi sentar-se na varanda da frente. Pôs-se a apreciar as pessoas que passavam na rua, em frente. Mas com medo de alguma bala que pudesse vir da rua, sentou-se atrás da porta de ferro da varanda e espreitava, para a rua, por um buraquinho que nela havia.
E o dia decorria igual e monótono. Franco Vidral, como uma criança assustada à espera do pai que chegaria para a castigar, continuava a espreitar pelo buraquinho da porta, à espera que alguma coisa acontecesse.
Viu uma velha quitandeira na rua com uma bacia na cabeça, que dizia, em voz sumida:
— Uvas docinhas e baratas! Uvas docinhas e baratas!
Franco Vidral era maluco por uvas. Muitas vezes as havia comprado, ali mesmo, naquela varanda. Chamou-a. Ela entrou e poisou a bacia no chão à sua frente. Ele baixou-se para escolher as uvas. E foi então que tudo aconteceu. Subitamente. Inesperadamente. Num relâmpago. Da bacia das uvas “saltou”, como que por magia, uma mini-lança e, antes que Franco Vidral pudesse fazer alguma coisa, a mini-lança cravou-se, impiedosa e cruel, silenciosa e certeira, no seu peito perfurando-o e enterrando-se, insensível e mortífera, no seu coração…
Esbugalhou os olhos e tombou, pesadamente, sobre a bacia das uvas. Estava morto.
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Quando AlfaZero e os dois investigadores da AngoCrime se aperceberam do que havia acontecido, já Franco Vidral estava morto e já a quitandeira estava a atravessar, rapidamente, o portão.
AlfaZero encetou uma corrida desenfreada em direcção ao portão, atravessou a rua e pôs-se no encalço da quitandeira. Notou que ela, ao correr, coxeava, pelo que não deveria ser difícil alcançá-la. Ela correu em direcção a um prédio desocupado, em construção.
AlfaZero, seguido dos dois investigadores da AngoCrime, correram para o referido prédio.
Então, distribuíram-se pelos vários compartimentos, numa busca frenética até que, num dos compartimentos do 3º andar, AlfaZero encontrou a “velha quitandeira” já despida das roupas com que se havia disfarçado. Com efeito, aquela “quitandeira” não era uma “quitandeira” verdadeira mas alguém que se havia disfarçado de quitandeira. Era, nem mais nem menos, Coxo-Zarolho.
7. O DETECTIVE ALFAZERO, FRENTE A FRENTE COM COXO-ZAROLHO
O detective AlfaZero olhou para ele, identificou-se mostrando-lhe o cartão de detective e perguntou:
— Quem é você?!
Coxo-Zarolho olhou para o detective AlfaZero e para os dois investigadores da AngoCrime e, com um sorriso de triunfo e de humildade, de orgulho e de satisfação, respondeu:
— Alguém que acaba de se vingar da morte da sua namorada.
— A Luísa Esperança! — disse AlfaZero, olhando para Coxo-Zarolho com um misto de incredulidade e admiração.
— Sim, a minha Luisinha! -- Confessou Coxo-Zarolho com um suspiro de saudade. E acrescentou:
— Há cerca de um ano, a minha namorada foi violada e assassinada pelos “Morcegos”, um tenebroso grupo de criminosos. Jurei, então, sobre o corpo dela que iria vingar a sua morte. E, hoje, cumpri a minha promessa.
— Compreendo a sua situação — disse, com comiseração, AlfaZero — e lamento, sinceramente, o que aconteceu à sua namorada. Mas sabe que, no nosso país, a justiça por mãos próprias não é permitida...
— Eu sei — respondeu, com firmeza, Coxo-Zarolho — por isso é que estou pronto para vos acompanhar e responder pelos crimes que cometi. Se eu os não tivesse cometido, se não tivesse morto todos os que a mataram, nunca a minha consciência seria merecedora da memória de Luísa.
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8. COXO-ZAROLHO É JULGADO E CONDENADO PELOS CRIMES QUE COMETEU
Coxo Zarolho foi julgado e condenado pelos crimes que cometeu. Contudo, a sua pena foi amplamente reduzida pelo facto de ele ter aniquilado um grupo de criminosos altamente perigosos há muito procurado pela Justiça.
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Dois casos foram, assim, encerrados, ao mesmo tempo, na AngoCrime: O caso “Os Morcegos” e o caso “Mortes ao Domingo com Notas Mortíferas”.
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NB: *AngoCrime (Agência de Investigação e Notificação de Crimes).
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Escrito por:
Helder Oliveira
(Helder de Jesus Ferreira de Oliveira)

Do livro, (não publicado)
(Detective AlfaZero em acção)



-- Helder Oliveira --
(Helder de Jesus Ferreira de Oliveira)


 
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HelderOliveira
 
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