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Escrever ao som de... 2007

 
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A nossa primeira proposta foi um sucesso, com textos de grande qualidade de agniceu, Benjamin Pó, LucianoSpagnol, Alpha, Alemtagus, FragmentosdeSonhos, MarySSantos, AlexandreCosta (com dois poemas!), Aline Lima, Rogério Beça e klopes. Esperamos que estes e outros poetas da nossa casa continuem a dar a sua voz a esta iniciativa de comemoração dos nossos 20 anos!

Vamos então ao ano de 2007.

A primeira canção que escolhemos chama-se "Caçada" e é interpretada por Bebel Gilberto. No entanto, a letra e a música são da autoria do "clássico" Chico Buarque, composta em 1972 especificamente para o filme "Quando o Carnaval Chegar".

A segunda canção é de Pedro Abrunhosa e intitula-se "Balada de Gisberta". Trata-se de uma homenagem a Gisberta Salce Junior, vítima da intolerância contra a diversidade de género, cujo homicídio, em 2006, inspirou filmes, poemas e livros. Esta canção também tem uma versão muito especial cantada por Maria Bethânia.

Bebel Gilberto – "Caçada"


Pedro Abrunhosa – "Balada de Gisberta"


O som está lançado. O poema, agora, é seu.

Nota: Caso não se identifique com nenhuma das canções sugeridas, pode inspirar-se numa outra, desde que seja do ano a que se refere o post.


 
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Luso-Poemas
 
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Enviado por Tópico
agniceu
Publicado: 16/02/2026 22:54  Atualizado: 16/02/2026 22:54
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 Re: Escrever ao som de... 2007
Cacheiros sem fechos de zíper



dançamos como cordeiros
no meio dos lobos,
e trememos de medo
das sombras e dos cabelos.

desenhamos no céu
um barco com asas,
e nadamos num beijo,
ultrapassando as nuvens
mais altas.

caímos desamparados
quando soubemos
que a língua era estrangeira
nos calabouços dos lábios.

saímos da casca
e ficamos
estrelados.

Enviado por Tópico
Benjamin Pó
Publicado: 18/02/2026 08:27  Atualizado: 18/02/2026 08:27
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 Re: Escrever ao som de... 2007
.
gisberta

sobrou o sotaque agridoce
da pitanga importada
com moeda gasta de batom
que nos beija como paga
ao tique-taque do nada
marcado nas mãos e no cimento
como murmúrio de sangue
que se despeja da balaustrada
para uma prega de esquecimento

Enviado por Tópico
Rogério Beça
Publicado: 18/02/2026 20:51  Atualizado: 18/02/2026 20:51
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 Re: Escrever ao som de... 2007
Abalada


Há um fogo
que só se acende
quando estás.

Por trás das coisas,
entre o musgo,
no bolor dos azulejos
há um fogo.

Aqui e ali,
fuga
e cimento.

Chamas e mais chamas,
labaredas de nomes
só da tua pessoa

em mim.

Enviado por Tópico
Aline Lima
Publicado: 19/02/2026 02:58  Atualizado: 19/02/2026 02:58
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 Re: Escrever ao som de... 2007
..

Flanco


Senti antes de ver.

Não te segui.
Fui seguida
pelo que
não espera.

O passo acelera
quando reconhece o risco.
O dente pensa.
A carne responde.

Te dou o flanco
e me espanto
quando morde.

Não sei mais
quem chama,
quem foge,
quem sangra primeiro.

O chão some.
O fôlego falha.

Há algo
que não avança
e, mesmo assim,
te cerca.

Se paro,
me alcanças.

Se corro,
te perco em mim.

Não te aproximes pedindo.
Não te afastes fingindo.

Não me venças.
Não me salves.

Hoje, amor,
ninguém dorme inteiro.

Enviado por Tópico
AlexandreCosta
Publicado: 19/02/2026 09:23  Atualizado: 19/02/2026 09:23
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 Re: Escrever ao som de... 2007
"Caçada" - Bebel Gilberto


Carne passada


a besta arredonda
não sabe de nada
quadrada
a cama parada
já vai de onda
a carne passada
caçada
em fome que come
entrelaçada
a pele, a ronda
a monda cruzada
entalhada
a fera que some
na presa apertada
na pressa coada
uniforme
redonda
cansada
a besta apanhada
caça que dorme
acamada


19-02-2025

Enviado por Tópico
Alpha
Publicado: 19/02/2026 13:52  Atualizado: 19/02/2026 13:52
Membro de honra
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 Re: Escrever ao som de... 2007
E o céu não espera

Às vezes o dia trava
na beira da manhã

Encarando a própria sombra
sem armadura
com sonhos amassados no peito

Dúvidas rasgam baixo
Medo de não dar conta
Medo de ser visto tentando
Ele ensaia coragem
Mas o céu já clareia

A luz não hesita
O alto não recua

E ele vai
não porque esteja pronto
mas porque ficar dói mais

O amanhecer acontece

E o céu
não espera!

Enviado por Tópico
klopes
Publicado: 19/02/2026 15:53  Atualizado: 19/02/2026 15:57
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 Re: Escrever ao som de... 2007 - Bebel Gilberto "Caçada"
Sem Pavor

O passeio treme sob o peso do dia,
sem licença.
Não procuro o brilho, o aço na cinta,
nem o gume.
Trago os punhos. Carne e têmpera.
Músculo vivo.

Sou o corpo. Recuso-me à sombra,
passo firme.
Invento a fraqueza ao contrário —
faço dela impulso,
faço dela salto.
Sem espadas. Rasgo o silêncio
Sou caçador.

Caço as razões que os pneus trituram,
as incertezas que vestem neblina,
a mentira que muda de pele
à luz fria das vitrines.
Caço a violência —
a que estala no vidro,
a que aprende o meu nome.

Mas a caça também me habita.
Espera o meu cansaço.
Afia o meu medo.
Respira no mesmo peito.

Ser é o rosto que acorda a sombra,
é entrar na rua sem couro,
desarmado —
e não ceder o chão.

Sou o caçador e a caça.
O pulso e o alvo.
A ferida e o passo.
Sem pavor.

Enviado por Tópico
Alemtagus
Publicado: 19/02/2026 20:31  Atualizado: 19/02/2026 20:31
Moderador
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Localidade: Montemor-o-Novo
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 Re: Escrever ao som de... 2007
Loucos que somos os tão puros
Sem a nua cor de pele no olhar
Nó górdio por humana condição
Descalços nuns caminhos duros
Que se ignoravam num tal amar
Suicida do teu verbo ainda órfão

Doce música a derreter na alma
Silêncios pobres deitados ao rio
Que vos navegaram sem rumos
O vento escrevia de mão calma
Um verso negro vestido de brio
Qual os nossos em desaprumos

Enviado por Tópico
Liliana Jardim
Publicado: 20/02/2026 21:44  Atualizado: 24/02/2026 15:48
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 Re: Escrever ao som de... 2007
O ano em que entrei na Lusos e por cá fiquei 2007

Dissipo-me na penumbra do dia

Dissipo-me na penumbra do dia
e renovo-me numa espiral
de sentires ao amanhecer
troncos nus deitados, observam-se
folhagens outonais acariciam
os ramos híbridos do corpo
trilhos e abismos entrelaçam-se
no passado e no presente
e a claridade penetra
nas ramagens primaveris
de que somos feitos
mais um dia que me transforma
em muitas partículas invisíveis
evaporando-se no vento existencial
e tu amor, permaneces eternizado
nas copas baloiçantes das arvores
distante de mim

Escrito a 20/2/2026


Enviado por Tópico
AlexandreCosta
Publicado: 23/02/2026 16:17  Atualizado: 23/02/2026 16:21
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 Re: Escrever ao som de... 2007
"Balada de Gisberta" - Pedro Abrunhosa


A estrada de Giz(a)berta


pariu-te a vida na forma estranha
de quem via só do dentro
quem dentro eras
até escancarares a porta do armário
e fazer-te estrada de ir à vida
qual Marilyn
a enfrentar o microfone
em baton rouge
num palco de brilhar

depois não era giz
mas era pó para Gis
um pó qualquer de matar aos poucos
e os loucos
pagaram-te, deficientemente
uma imunidade
que mais matava adquirida
caíste à rua
à estrada de arrastar a morte aos poucos
já deus não te existia

não bastasse
ainda nasceria uma curiosidade
a impregnar mesóclises
adolescência com cão danado
bestas cruéis de bater no chão
até bateres no fundo
no fundo de um poço fosso
de juiz que diz
morreu afogada
para perdoar criancinhas malévolas
coitadas

felizmente
os sinos exemplares
ainda ressoam, retrospectivos
pela estrada de lousa
o risco ténue
a Gis
a tua vida

e as bestas andam aí
por aí


23-02-2026

Enviado por Tópico
gillesdeferre
Publicado: 07/03/2026 20:12  Atualizado: 07/03/2026 20:12
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 Re: Escrever ao som de... 2007
Balada de Gisberta

No final desse poço
o chão rude doi-te a liberdade

o demónio das pequenas coisas

sempre esquecido

onde vais agora na tua noite de estrelas

como são as tuas noites triunfais

de que se tece o ardil da história

onde pairam os anjos nus

onde se esconde a raiva onde se dilaceram os corpos

diz diz diz como são agora as tuas noites

Enviado por Tópico
DCM_78
Publicado: 30/04/2026 01:36  Atualizado: 17/05/2026 00:34
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 Re: Escrever ao som de... Bebel Gilberto “Caçada”
Sonho

Mulher cabocla linda
Os olhos completamente destemidos
A voz mágica e hipnótica

Transportado para a selva amazónica
Estou no meio dos índios
Escuto o ritmo cadenciado

É perfeito e sensual
A poesia da letra da canção
Faz-me vibrar

Que bom estar aqui agora,
Será que tudo isto foi um sonho?

Inspirado por Laya Layá

Enviado por Tópico
DCM_78
Publicado: 04/05/2026 18:26  Atualizado: 04/05/2026 18:28
Muito Participativo
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 Re: Escrever ao som de... Pedro Abrunhosa “Balada de Gisberta”
Mateus

Homem baixo e de olhar astuto e profundo
Declama poesia como poucos
Canta com uma alegria juvenil
Bebe e fuma como se não houvesse amanhã

É um contador de histórias
Um artesão de mitos
Viveu toda uma vida na rua
Mete-se com as transeuntes

Diz que sou como um irmão
E que gosta da minha companhia
Chora quando declamo a minha poesia

Tem um bom coração,
O malandro do Mateus.

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