Textos : 

Terça-feira, 03 de março de 26

 
Terça-feira, 03
Manhã cinzenta – Depois de apanhar os pães na praça das sete palmeiras e descendo a avenida Sarney Filho inquiria-se como encontraria o atelier. Será que o reboco da viga desabou? A agua do balde da goteira transbordou e inundou a oficina? E outros pensamentos nefastos atomizavam seu cérebro.
No meio da ladeira, Nha Pu sentado no batente da porta degustava alguma coisa e no meio da calçada, em pé e sem camisa e sua enorme pança seu Jô:
- Seu Constantino, queria lhe fazer uma pergunta. Tem uma musica antiga que diz: “Depois de comer, vamos fisolofar”. O que é fisolofar?
- Conversar, expor suas ideias.
- Ah! Entendi, primeiro comer e depois conversar – concluiu sabiamente seu Jô comum largo sorriso.
- Isso mesmo – concordou Sr. Com e continuou a descida para seu calvário.
Abriu cautelosamente a oficina, suspendendo bem devagar a porta de rolo e pronto para o pior -mas o que viu o tranquilizou, apenas uns fragmentos menores espalhados no chão, que tratou logo de varrer. O balde cheio, o esgotou rapidamente, mudou de roupa e foi ao Little Fat pegar um genérico de Coca-Cola da Psiu.
E a manhã sem sol escureceu e uma chuvinha caiu sobre a cidade e aos poucos fora engrossando, algumas pessoas abrigaram-se no alpendre da mercearia de Pai Cardozo. Um cão branco vadio atravessou poeticamente a pista debaixo dos pingos que se estatelavam-se no asfalto úmido. Os meteorologistas avisaram que é chuva até amanhã e bem volumosa.
Sr. Com mudou de lugar, empurrando a mesinha improvisada sobre um banco de madeira para o fundo, assim com a cadeira abacial de macarrão, ficando de frente para o crime e longe. O asfalto coberto de agua e enxurrada, um convite para ser molhado pelos carros em alta velocidade. E recomeçou a ler o joven escritor húngaro Dragoman – “O Rei Branco”
A chuva amainou, mas não cessou de chuviscar. O computador do mestre Salomão deu tilt e vai leva-lo ao especialista. O compadre cantando “Bom dia amigo / Não tenha medo de abrir comigo” ao entrar no atelier e contemplar o quadro da filha de Juvan. De volta ao seu lugar e senti-se incomodado com a barriga pesada e inchada, mas descarregou um leve barro de manhã cedo e sentia-se cheio de merda.
O carroceiro maneta Marinovoski correu para pegar o carrinho (lotação), chuviscava e com sua única mão, a direita abriu a porta traseira e entrou fechando-a em seguida. Juvan no possante buzinou duas vezes, mas não parou, apressado dia de bater o ponto no posto medico da Vila Embratel – Joel correndo descalço, talvez com umas doses de conhaque São João da Barra no gorgomilo, também funcionário da saúde, assina o ponto só no final do mês e o resto é flautear. Eric faz o sinal de positivo, no passado presenteou o poeta com “A Guerra dos tronos” de Martin. Ainda pouco a bonitona e cinquentona da rua23 passou e nem lhe cumprimentou. Seu Raimundo numa vistosa capa de oleado amarela encarapitado equilibradamente na sua idosa Monarck. De manhã cedo gritou dela:
- Eh! Bandido! -sem parar.
Uma carregada caçamba Fiat vermelha resfolegando e soltando uma fumaça negra sobe pesadamente a ladeira deixando um rastro de cheiro de óleo queimado.
- É aqui que conserta carro de mão? Perguntou um sinhorzinho, uma figura típica da baixada, chapeuzinho de palha na cabeça, óculos remendados, umas sacolas debaixo de uma sombrinha em pé nomeio da porta. É a segunda vez que faz essa mesma pergunta – Não é aqui, não?
- Não, senhor é mais em frente, o senhor já passou por ela.
- Ah tá. E o senhor de que lugar da baixada é?
- Eu sou da baixada do Desterro, da rua Afonso Pena -respondeu orgulhosamente o s. Com.
- Ah! Eu o conheço, trabalhei no mercado com seu Claudionor. – Mas não é aqui que conserta carro de mão?
Sr. Com sorriu, será que o tiozinho sofria do mal de Alzheimer, com a resposta negativa foi embora com seu passinho miúdo.
- Chiu, égua! -gritou o baixinho carroceiro Pininga para sua mula encardida que andou para frente, para pastejar uns tufos de capim que vicejavam na beira da calçada da viúva, enquanto ele ensacava umas palhas de milho que ganhara do dono do sacolão recentemente instalado ali. O mestre Cad, seu agente cultural e provedor não apareceu, tudo bem a vida continuava.
Fechou a oficina e subiu para molhar a garganta no Comercial Vila, do nosso futuro senador Jose Eusebio Lacerda do PSOL – tomou três doses de vodka batizada, deixando cinco risco na bíblia branca.




 
Autor
efemero25
Autor
 
Texto
Data
Leituras
20
Favoritos
0
Licença
Esta obra está protegida pela licença Creative Commons
0 pontos
0
0
0
Os comentários são de propriedade de seus respectivos autores. Não somos responsáveis pelo seu conteúdo.

Links patrocinados