Sabado, 18
Meio da tarde – balançando-me na rede e chove torrencialmente sobre a Vila Embratel desde o começo da tarde – Relampejou que clareou a pensão como um velho flash das antigas e obsoletas maquinas de fotografar. Quebrei o jejum alcoólico, entornei pesadamente umas doses de vodka no Lasierra em companhia do patrão Juvan ( deu-lhe um vale de vinte reais e adiantou o irmão Zeno) e o velho mestre Samuca.
- Fecha a janela, minha irmã – suplicou a sr. Vince ao ver o clarão do relâmpago e depois o estrondo rascante sobre nossas cabeças. A goteira nos baldes na sala do computador.
- Ai meu Deus ou meu Pai! – lastima-se a sra. Vince ao ouvir o rimbombar do trovão.
O velho pedreiro Samuca passou a manhã toda na oficina, tinha um bico para fazer no Piancó, mas não estava indisposto e as ferramentas guardadas na farmácia do PM Beto.
- Santa Barbara, nos proteja ! – gritou a sra. Vince ao ouvir o trovão – Meu Deus é muita chuva.
O Tanduou@ as cinco horas da tarde, meia-hora depois do almoço assim que acordou. E a chuva caindo sem piedade, a janela fechada. O sra. Vince nervosa gritando com os felinos inquietos – Te a sossega diabo!
A panela de arroz cozinhando sob a observação da Pequenina e os trovões e os pingos da chuva martelando as telhas – a tv da sala desligada e coberta. O casalzinho encorujado no quarto da Pequenina e seu Castro impassível, desliga e cobre também o computador. Seu Vince deu uma quebra de asa e escapuliu para a rua dos Cabarés.
- É chuva, menino! – exclama a temerosa sra. Vince na penumbra da sala de estar as escuras.
Oh! Meu Deus! – supliciou agoniada a sra. Vince quando o clarão do relâmpago clareou a pensão de cabo a rabo – Oh! Meu Deus, oh! Meu Pai!
Joyce também tinha horror a trovões e a cães.
Deixa isso ai , mamãe – disse a filha mais velha. O dor de café. A sra. Vince e suas previsões de coisas ruins – agua vai cair na tomada do computador é uma delas
- É um temporal, o jornal tá prevendo muita chuva desde ontem. Mas não tá chovendo como antigamente, que era a semana todinha.
O sr. Com aproveitou um hiato e foi comprar meia cartela de ovos no Hermogenes, dentro do mercado e uma dose no finado Bispo que bebeu no compadre e o acompanhou até fechar. O mesmo deu-lhe um real, a Lasierra ainda aberto, um copo quase cheio e o retorno para pensão. Botou quatro ovos para cozinhar enquanto digitava e ouvindo Sistem of the down e depois o filme com Richard Gere – “ Time out of minds” ´. E chuvisca sobre a silenciosa Vila Embratel.
- Bora sai dai, vai te aquietar, que droga, que tentação – a boa e velha senhora Vince e seus felinos – Cadê o meu cipó?
Ava Gardner e Tyrone Power dançando em “O Sol também se levanta” na Paris de 1922 – ele interpretando o jornalista Jack Barnes um dos alter-egos do mestre de Oak Park, Ilinois, o grande Hemingway e a belíssima Ava na flor da idade e da beleza estonteantemente sensual como Brett ou Lady Ashley – ainda assisto em doses homeopática, o mestre Gere, como George, o sem teto em Nova York em “Mind out of minds” (2014) – os abrigos assépticos e a dificuldade ao acesso aos programas sociais básicos que o governo oferta – sem nenhum documento, perdido de si mesmo, rejeitado pela única filha – caminhando aboiado pela anônima multidão.
Manhã de domingo cinzento e enferrujado
As seis o poeta lavava os seus andrajos, deixados de molho desde ontem a noite, depois do ultimo banho relaxante no quintal as escuras. Jantara quatro sandubas com ovos cozidos e sardinha do almoço de anteontem. E ontem quebrou o jejum etílico de quase duas semanas, influenciado pelos parceiros Old Sam e Juvan – quem ficou feliz foi o comandante Lasierra, um amigo de Old Sam fez-lhe um pix de dez reais e Juvan pagou no cash vivo e adiantou um vale de vinte reais para o poeta e combinaram que amanhã começarão as grades -os ferros estão na oficina, ontem desabou um pedaço do reboco.
Choveu e choveu ‘mas não como antigamente” enfatizou sabiamente a sra. Vince – diluvio não foram 40 dias e 40 noites. Interessante a lenda da arca de Noé, esses judeus e seus prodígios, se acham ‘filhos de Deus’ – santa ignorância, por isso sacrificaram o filho do pai deles.
Ontem quando o tempo amainou na boca banguela da noite, caiu no campo e rumou para o mercado deserto, apoitando no box do mestre Hermogenes.
- Quanto é meia cartela de ovos? – perguntou ao pixixitinho que atendia um freguês no outro balcão.
- Oito e cinquenta – respondeu sem olhar e entregando o troco para o cliente.
- Não – repreendeu o poeta assustado – Anteontem eu comprei na mão da senhora e foi apenas oito reais.
- Tá – afirmou apanhando a cédula de dez depois de deixar a cartela sobre o balcão azulejado de branco.
Voltou trazendo dois reais. -Obrigado! Agradeceu Sr. Com. Catou uma solitária moeda de um real que dormia no porta moeda da carteira e desceu rumo ao finado Bispo e chuviscando, passando em frente ao frigorifico de Zé branquinho, o barão dos barões do mercado, pecuarista e odeia ferozmente Papai Lula e seus seguidores.
- Esses caras que apoiam Lula, nenhum vale nada, tudo vagabundo – disse certa vez ao ver Sr. Com passar humildemente.
O mestre não disse nada. Comprou a dose de vodka – a filha do finado Bispo o atendeu e é generosa na dosagem, quase meio copo que foi beber no cumpadre que arrumava para encerrar o expediente e no final deu-lhe um real que comprou no Lasierra, mais de meio copo e foi bebe-la na pensão.
Hoje não ouviu o seu programa de musica sertaneja de raiz na Radio Senado, não conseguiu sintoniza-la – antes de pegar os pães na Padaria Renascer da Praça Sete Palmeiras, Vila Embratel, saudou o Seu Evaristo, o senhor dos porcos, a banca armada improvisadamente em frente a garagem inativa do finado Seu Eriberto na rua 16. Seu Zé Grandleão auxiliando-o abrindo a boca da sacola e o mestre habilmente inseriu uma bela posta da carne fresquinha do leitãozinho saudável, criado e abatido artesanalmente no fundo do quintal no Residencial Resende.
Juvan comprou a potrinha serelepe do irmão Zeno, que ontem dançava despreocupadamente na calçada em frente ao bar de Seu Raimundo defronte ao Lasierra – e a sensual Pauline, a morena farta de carnes deixou o celular carregando no Comandante Lasierra – o poeta viajava em leva-la para uma temporada no bairro Red Light em Amsterdam, Holanda e expô-la em peças intimas naquelas vitrines – endoidaria os tarados locais, que adoram uma morena caliente dos trópicos. Ela volta ao bar de Charmille e senta ao lado da parceira, a velha Noca de guerra e o amigo do Old Sam a empapuça de cerva.
O ex-agente da CIA, Agree designado para se imiscuir nas Olimpiadas da cidade do Mexico em 1966, vigiar e aliciar membros das delegações dos países comunistas. Começa a cogitar a sua demissão por discordar dos meios e métodos sujos que a CIA utiliza nos países que almejam a esquerda – Subornos, tortura (por intermédio dos órgãos de segurança locais, a soldo deles) – Loucos para encontrarem e eliminar o mestre Guevara, distribuíram seu retrato sem bigodes por todos aeroportos da America Central.
Uma irmãzinha boa samaritana guia o nosso vizinho Marciobomba de volta a casa, ele é quase um deficiente visual, sofre de um progressivo glaucoma. Cumprida a missão, ela passa correndo.
O comandante Lasierra feliz vai entrevistar a esposa de um amigo nosso – a mulher dele é assessora dela num órgão qualquer social. No seu programa “A Voz Vicentina” na Radio Educadora FM as dozes horas. Prometeu ouvi-lo.