— Não acredito no que acabei de ouvir! Como podes dizer uma coisa dessas sobre o pai da tua filha? — perguntou ela, intrigada, o rosto vincado pela indignação.
— Respeito a decisão dele — respondeu, beijando a minha testa carinhosamente.
Ao quinto dia do mês de abril, faria um ano que eu acordava para uma nova realidade. A maioria dos meus amigos e familiares não sabia como lidar com ela. Uns aceitavam, outros recusavam-se a pensar num desfecho que consideravam cruel. Ficaram chocados com a minha escolha, a escolha de um homem morto por dentro, que já nada podia fazer contra o tempo.
Em certos momentos da vida, somos obrigados a escolher uma das vias de um caminho bifurcado. Eu escolhi a minha. E tudo o que se escolhe carrega o seu peso. As consequências da minha decisão fizeram com que pessoas ligadas por uma vida inteira se afastassem. É nestes momentos tão difíceis para um ser humano, que comprovamos quem nos ama verdadeiramente.
A minha filha, ainda pequena, não tinha noção da revolta sentida naquele quarto de hospital. Mas cada vez que se enroscava nos meus braços, sentia-se uma ligação de amor nunca antes testemunhada entre pai e filha.
— Mãe, não vamos voltar a ter esta conversa, pois não? — soltei as palavras abafadas pelo cansaço, enquanto beijava a nuca da minha bebé.
— Este hospital, essa…
— Amor, está na hora de dar de mamar à nossa pequenina — interrompeu a minha mãe, desviando os olhos para a nossa filha.
A minha companheira retirou a pequenita dos meus braços e voltou a sentar-se no cadeirão castanho-escuro. Mãe e filha, um amor de predição, um laço que o tempo não ousará esquecer. Um raio de sol transbordava por uma palheta da persiana e iluminava aquele pequeno anjo.
Há momentos na vida em que não sabemos como acolher certos mandamentos. Continuamos, perdidos no escuro, a tentar perceber como haveremos de respeitar o silêncio de uma alma perdida.