Lisboa, 19 de junho de 2026
Querida Amália,
Ao chegar a casa arrasto o meu corpo cansado, depois de um dia sem folga. Deixo-me cair no sofá. Desejo fechar os olhos, dormir e acordar somente no dia seguinte. Quando estou prestes a fechar os olhos, eles decidem focar a caixa de cor castanha que está pousada na mesa de vidro no centro da sala.
- “Não vale a pena recordar o passado” - dita a minha mente, no esforço de me proteger.
- Por que nunca damos razão ao racional? - murmuro entre dentes.
Desencosto-me, inclino-me em direção à mesa, seguro na caixa. Endireito-me como um tronco de árvore secular. Abro a caixa e pego na primeira fotografia, somos nós dois sentados no areal, a ver o por do sol na praia da Figueirinha, em Setúbal. As fotografias seguintes são uma viagem no tempo. Recordações. Vidas passadas. Ao terminar de ler estes versos escondidos, sinto o peso do passado a queimar o meu peito. As minhas mãos trémulas e suadas espalham as fotografias pela mesa, fazendo que algumas caiam no chão.
Levanto-me do sofá. Caminho até à cozinha, abro a janela e sinto a brisa do final do dia no meu rosto. Teimo em caminhar por becos sem saída. Apoio as mãos no parapeito da janela e deixo a cabeça pender. O metal está frio contra a minha pele, mas o meu peito continua a arder.
- Por que raio fui abrir aquela caixa hoje? - Bufei.
Olho para a rua deserta lá em baixo. Um gato esgueira-se por entre os carros estacionados, livre, sem passados para carregar. Invejo-o.
Volto para a sala, ajoelho-me no chão de madeira para apanhar as fotografias que caíram e os meus olhos fixam-se no verso de uma delas. Há uma data escrita à mão. A tua letra. Fico ali, ajoelhado. Olho em redor, para o chão da sala cheio de memórias esquecidas, e percebo o erro que cometi ao remexer no que estava esquecido. O passado não se arruma, fica sempre à espreita, à espera de uma fraqueza para nos invadir.
Sinto os olhos pesados, mas o sono já não mora na minha morada. Levanto-me devagar, com a fotografia na minha mão esquerda, e caminho até à minha secretária, sento-me. Pego numa folha em branco e na minha caneta. Se a tua letra ficou presa no verso da minha vida, a minha precisa de sair do peito urgentemente.
Olho para o papel em branco. Respiro fundo e começo, finalmente, a desenhar as palavras da carta que nunca te escrevi.
Aquele beijo.
do teu Dante Belmonte