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Escrever ao som de... 2026

 
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Caros amigos, chegámos à última etapa da nossa jornada. O nosso obrigado ao Alemtagus, ao AlexandreCosta, à Liliana Jardim, ao Benjamin Pó, ao Alpha e à Aline Lima, que na semana passada voltaram a participar. Convidamos todos os nossos companheiros do Luso a ajudarem a escrever as últimas páginas do ebook, para encerrarmos a atividade em beleza.

Vamos agora comemorar o ano de 2026.

A primeira canção é “Emaranhada”, da cantora brasileira Juliana Linhares, que puxa o fio das próprias contradições e faz dele canto. Originalmente composta por Juliano Holanda, a canção integra o novo álbum "Até Cansar o Cansaço", título que sugere a exaustão do nosso tempo, marcada pelo excesso tecnológico, que a cantora tenta que se transforme em força criativa. Esta nova versão ganha novas camadas na produção delicada de Elísio Freitas, também ao violão. O resultado é uma canção íntima e afirmativa, quase como um manifesto.

A nossa segunda proposta é “Aurora”, de Líquen, nome artístico de Constança Ochoa, que ficou mais conhecida depois de ter vencido em 2025 o festival-concurso Termómetro, que desde os anos 1990 se tem afirmado como plataforma de divulgação de novos artistas em Portugal. Líquen tem uma preocupação: estabelecer pontes entre a eletrónica contemporânea e o cancioneiro popular português, naquilo a que alguns chamam "neo-trad". Nesta canção, o mote é um sample da Brigada Víctor Jara, banda de referência da tradição musical portuguesa.

Juliana Linhares – "Emaranhada"


Líquen – "Aurora"


O som está lançado. O poema, agora, é seu.

Nota: Caso não se identifique com nenhuma das canções sugeridas, pode inspirar-se numa outra, desde que seja do ano a que se refere o post.


 
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Luso-Poemas
 
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Enviado por Tópico
Alemtagus
Publicado: 29/06/2026 20:09  Atualizado: 29/06/2026 20:09
Moderador
Usuário desde: 24/12/2006
Localidade: Montemor-o-Novo
Mensagens: 4389
 Re: Escrever ao som de... 2026
Não quero ser-te saudades
Ou tampouco viver-t'assim
Sem dar música ao poema
E dessas doutas divindades
Ser só esta miragem no fim
D'um velho sol de Ipanema

Lá tão longe voo eu contigo
Nas asas de tantos mundos
Nos braços vazios de gente
Que choram de cada amigo
Alguns abraços vagabundos
A fazer um amor diferente

Não quero ser-te mais nada
Que não fosse pedaço de ti
Ou pequeno verso cantado
Na minha vida amarrotada
Sonho do último dia que vi
Brilho de teus olhos chorado

Enviado por Tópico
Luxena
Publicado: 30/06/2026 02:31  Atualizado: 30/06/2026 02:31
Da casa!
Usuário desde: 07/03/2025
Localidade: Brasília
Mensagens: 257
 Re: Escrever ao som de... 2026
Câmera, Ação

um par de olhos direto para mim
só um pisca e...
você sorri!
não dá mais para sair

essa tela listrada
fitada por camadas de desprezo
e um pouquinho de água
ficou claro, não é um conto de fadas

e como eu queria
que isso fosse um sonho
o meu pior pesadelo
tem, sim, muito cabelo

mas depois eu sinto
pesados os olhares
vigiando minha vida, do quinto
andar

não é para os fracos
já passei do meio da rua
e ainda estou de pé
mancando

Enviado por Tópico
SergioOliveira
Publicado: 30/06/2026 23:32  Atualizado: 30/06/2026 23:32
Participativo
Usuário desde: 05/06/2026
Localidade:
Mensagens: 26
 Re: Escrever ao som de Emaranhada 2026
O VERSO PERDIDO

Sergio Oliveira

Um verso esquecido no aniversário,
Nem lido ou sentido em voz, em canção.
O adeus entre as páginas do diário,
Silêncio ouvido no seu coração

Andou, sem pedir, ao lado nas ruas,
Refez o brilho perdido do olhar,
Despertou ilusões minhas e suas
E esse desejo esquecido de amar.

Vai o vento, lembranças de uma idade,
Vai o tempo nas tranças da saudade.
Passado e presente em pedras na praia.

Futuro ausente antes que o dia caia,
Diz adeus no julho do calendário,
Mesmo ausente, feliz aniversário!

Enviado por Tópico
Liliana Jardim
Publicado: 02/07/2026 09:38  Atualizado: 02/07/2026 09:38
Colaborador
Usuário desde: 08/10/2007
Localidade: Caniço-Madeira
Mensagens: 4545
 Re: Escrever ao som de... 2026
Visto-me de flores, de giesta e de alecrim

Caminho descalça pela aspereza da calçada
busco o eco da voz que o vento outrora levou
na rocha basáltica escondo o desapontamento
e no mar o sussurro ardente, que em mim ficou.

A ilha palpita em mim como um segredo
um jardim suspenso onde o tempo é ébrio
quebra-se o momento que me fazia doer
e na sua paz efemera sinto-me renascer

Visto-me de flores, de giesta e de alecrim
sinto o tempo passar para além da memória
esta ilha de lava é o meu princípio e o meu fim
onde escrevo no verso, a minha breve história

Sou o eco de tudo o que guardo na alma
um ecossistema de silêncios e de pressas
procurando, no cerne profundo e calmo
o sentido eterno de todas as tuas promessas

Sou a ribeira que desliza, a pedra que sente
trajo-me de orgulho, de desejo e de mar
neste pedaço de terra que em mim se prende
onde no meu peito continuo a querer versejar.

Enviado por Tópico
Benjamin Pó
Publicado: 02/07/2026 11:42  Atualizado: 02/07/2026 11:42
Administrador
Usuário desde: 02/10/2021
Localidade:
Mensagens: 972
 Re: Escrever ao som de... 2026
.
poema número três

até me arderem os olhos
leio o poema número três
do guardador de rebanhos

não tenho janela
nem campos em frente
só páginas com tinta

não sou pensamento
sentimentos ou palavras
só olhar

faço um origami com a folha
e a flor de papel na minha mão
não pensa não sente não fala

mas não olha para mim

(inspirado em "Líquen", de Aurora)

Enviado por Tópico
AlexandreCosta
Publicado: 02/07/2026 12:05  Atualizado: 02/07/2026 12:05
Administrador
Usuário desde: 06/05/2024
Localidade: Braga
Mensagens: 1677
 Re: Escrever ao som de... 2026
.
"Emaranhanha" - Juliana Linhares


Emaranado


depois que nado
vivo
por nada nado
por tudo nado
tudo atrás
é mar nadado
e tudo à frente
é mar a nado


02-07-2026

Enviado por Tópico
Alpha
Publicado: 02/07/2026 18:12  Atualizado: 02/07/2026 18:12
Membro de honra
Usuário desde: 14/04/2015
Localidade:
Mensagens: 2362
 Re: Escrever ao som de... 2026
Notar cada tristeza no olhar

Há uma tristeza que não faz ruído.
Chega devagar como a luz que se despede
e escolhe os olhos para permanecer
quando já não encontra palavras.

Há quem lhe chame apenas cansaço
Há quem passe sem a reconhecer
Mas nenhuma dor nasce de repente
primeiro aprende a morar no silêncio

Poucos sabem ficar nesse instante
onde a alma fala sem levantar a voz
Há ausências escondidas num sorriso
e despedidas que ninguém vê partir

Talvez amar seja essa delicadeza
ver o que o mundo deixa passar
Permanecer junto de uma ferida
sem exigir que ela saiba explicar

E quando tudo em nós for memória
e até a saudade perder o caminho
que reste a mais humana das ternuras
ter sabido notar cada tristeza no olhar!

Enviado por Tópico
Aline Lima
Publicado: 05/07/2026 03:45  Atualizado: 05/07/2026 03:45
Administrador
Usuário desde: 02/04/2012
Localidade: Brasília- Brasil
Mensagens: 1200
 Re: Escrever ao som de... 2026
.
Agosto entre Colheres


o medo

é um cadeado

que também
tranca

quem segura
a chave

a saudade

desparafusa

o mês

da geladeira

até agosto

aparecer

entre
as colheres

e espera

que a gente

a chame

de lembrança

a água

aprende

devagar

a fervura

o contrário
do abrigo

não é
a chuva

é achar
que existe
um lugar

onde ela
não caia

Enviado por Tópico
Rogério Beça
Publicado: 05/07/2026 17:47  Atualizado: 05/07/2026 17:47
Colaborador
Usuário desde: 06/11/2007
Localidade:
Mensagens: 2325
 Re: Escrever ao som de... 2026
Indignação


Quem cala consente
e o que consinto eu?
Nesta fala sem gente
sinto que algo morreu.

Que é feito da minha coragem?
Só a consigo com os meus olhos,
que parecem cegos e não agem,
nada veem prá além de escolhos.

Que passo me falta dar, porque duvido?
A falha que em mim trabalha fundo fica.
E tudo o que faço é sentir-me perdido
a olhar, num mundo em que se abdica.

Quando dói mais,
Quando nos toca
é quando vais
abrir a boca.

A vez de correr
a vez de agir,
a vez de tudo fazer,
a vez de ir.


(Emaranhada)

Enviado por Tópico
klopes
Publicado: 05/07/2026 20:03  Atualizado: 05/07/2026 20:03
Muito Participativo
Usuário desde: 15/02/2026
Localidade: Lisboa
Mensagens: 78
 Re: Escrever ao som de... 2026
Riso Emaranhado

Pela berma desta rua,
A tristeza logo encosta,
Veste a pele toda nua,
Mas a gente não a atua,
Pois a vida traz resposta.

Neste asfalto duro e frio,
O serviço é bem urgente,
Contra o cinza mais sombrio,
Coze o riso em desafio
P’ra aquecer toda a gente.

Amassa a massa do dia
Com farinha de esperança,
Leveda a fome do dia.
E reparte em poesia
O calor da vizinhança.

Lavam todos o cansaço
Neste gozo de lavar,
Onde o peito, passo a passo,
Desata o nó do cansaço
Como roupa a pingar.

Mesmo o pobre sem moedas,
Leva a graça no avental,
Sobe o riso por veredas,
Pisa as dores mais azedas,
Faz do frio pão e sal.

Dizem vozes na calçada
Que o menino traz no bolso
Futuro em forma alada,
Pequena chama guardada
Contra o mundo mais revolto.

Mas o riso foi silenciado —
Calou-se a vizinhança,
Todo o brilho amordaçado
Sob o peso acumulado
Desta gente sem esperança.

(inspirado em "Emaranhada", de Juliana Linhares)

Enviado por Tópico
AlexandreCosta
Publicado: 06/07/2026 09:58  Atualizado: 06/07/2026 09:59
Administrador
Usuário desde: 06/05/2024
Localidade: Braga
Mensagens: 1677
 Re: Escrever ao som de... 2026
.
"Aurora" - Líquen


Gosto de quem escreve e tudo o mais

gosto de quem escreve bem
mesmo sem letra bonita
aquilo que a alma tem
e tudo o mais que ela grita

gosto de quem escreve o sonho
e tudo o mais que dum poço
olhos viram, não só suponho
além da carne e do osso

gosto de quem escreve a luz
arrancada da escuridão
e tudo o mais que da cruz
ilumina o extremo da mão

gosto de quem escreve e ama
quem mais ama que escreve
e tudo o mais dessa chama
é mais palavra que ferve

gosto de quem escreve a vida
e tudo o mais que lhe sente
quanto mais for sentida
mais o poema é presente
e tudo o mais é mais vida
e tudo o mais mais se sente
e tudo o mais é mais vida
a todo aquele que o sente


06-07-2026

Enviado por Tópico
Liliana Jardim
Publicado: 06/07/2026 14:43  Atualizado: 06/07/2026 14:43
Colaborador
Usuário desde: 08/10/2007
Localidade: Caniço-Madeira
Mensagens: 4545
 Re: Escrever ao som de... 2026
O meu corpo é o mundo

O meu corpo é o mundo
onde a chuva bate primeiro
nas entranhas dos ossos escrevo
como quem desenterra raízes antigas
linhas duras que sustentam
o peso de todas as estações.

A minha pele nada esconde
é um oásis exposto pelo mapa do tempo
cicatrizes e rugas visíveis
circunscrevem rios vivos
por aonde ainda desliza o teu nome.

Já não há dureza nestes músculos
mas sim um cansaço visceral
afundando os pés na terra barrenta
pois sabem que esse é o seu lugar
enquanto o peito sobe e desce
num compasso eterno e poético.

E o sangue corre sem pedir licença
carregando os silêncios que a boca calou

Enviado por Tópico
agniceu
Publicado: 07/07/2026 22:07  Atualizado: 07/07/2026 22:26
Colaborador
Usuário desde: 08/07/2010
Localidade:
Mensagens: 818
 Re: Escrever ao som de... Juliana Linhares – "Emaranhada" 2026

A sede desfeita pela chuva


Deixar o lume sem respirar
mata o calor.
Deixar o jejum à sede,
desidrata a fome
mais cedo.

Que o diga o sem-abrigo,
que desfalece com o frio
e adormece como a chama,
desardendo,
parindo a cinza,
noiva de luto.

Mas nem tudo é mau:
o seu teto nunca teve uma goteira,
ao contrário dos seus olhos,
paridos.
No entanto,
nunca se engravidou
de um sonho
olhando o céu.

Enviado por Tópico
gillesdeferre
Publicado: 10/07/2026 17:20  Atualizado: 10/07/2026 17:20
Colaborador
Usuário desde: 14/06/2024
Localidade:
Mensagens: 576
 Re: Escrever ao som de... 2026
Líquen - Aurora


Princípio

como se fosse para sempre
este poema desvalido

assinatura grotesca
de eternidade

chamando de tempo
o que não tem nome

gravar as horas todas
na pedra de um desenho antigo

no dia primeiro e horizontal.

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