Por que raio queres tu ser poeta
Dono duns verbos enxovalhados
Ou de meia dúzia de impropérios
Por que queres tal arte inquieta
Ser saco de retalhos do teu fado
Que aqui ia pintado de mistérios
Ser poeta não é só ser mais alto
Brotar da palavra como bela flor
Ao sol e à chuva em cor de rima
É'screver o amor em sobressalto
Como quem dorme longe da dor
Ao frio sem graça de obra-prima
Ser amor sem sequer crer amar
Bater asas no céu azul-marinho
Que se espalhou por tanto chão
Declamar numa paixão devagar
Os seus sabores de mel e vinho
E tamborilar os ecos do coração
Por que raio queres tu ser louco
Dono de verbos nunca cantados
Ou d'meia dúzia de sentimentos
Ou esse tanto que sabe a pouco
Que te liberta de versos calados
A língua viperina dos jumentos