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À Tia Nico

 
Há pessoas que atravessam o tempo como quem atravessa um jardim ao entardecer. Sem pressa, sem ruído, deixando atrás de si o perfume discreto das rosas antigas e o rumor distante das fontes. Pessoas profundas, intensas, poderosas...
É assim a Tia Nico, pertence a esse raro aroma dos incensos que, de baixo, se elevam ao alto nos turíbulos das horas sagradas...
Nos seus gestos habita a memória dos salões iluminados por eternos candelabros, as conversas demoradas dos verões suspensos sobre as varandas de pedra, onde o chá arrefece lentamente e as andorinhas desenham o céu com o seu voar...
A idade pousou-lhe nos ombros como um xaile de seda, como ornamento de rendas, um bordado de experiências, de perdas silenciosas, de alegrias guardadas entre páginas de livros esquecidas mas não menos guardadas no coração.
Há nos seus olhos uma claridade de mares antigos, uma espécie de melancolia serena que só conhecem aqueles que aprenderam a amar o mundo mesmo depois de lhe conhecerem as sombras. E, no entanto, permanece firme, como a Dama de Ferro mas não menos frágil como a simples magnólia que floresce quando o verão já se despede.
Quem a ouve reconhece-lhe frontalidade nas palavras, quem a vê nota-lhe delicadeza nas mãos, na maneira subtil como acolhe os dias e lhes imprime a Alma.
A Tia Nico traz nos dedos aquela graça quase invisível de quem soube passar pelo tempo sem envelhecer, de quem conserva no coração um jardim secreto, onde ainda florescem as glicínias da infância, os amores impossíveis e a música distante vinda de um diáfano piano ao cair da tarde.
É assim que a vimos, que a sentimos, entre a luz dourada das tardes caiadas de solidão e o silêncio azul das horas tardias. Com a nobreza tranquila das coisas belas que o tempo, por mais que passe, jamais conseguirá apagar...

Ricardo Maria Louro
Évora, 22 de Setembro do ano 2026
do ano Nosso Senhor Jesus Cristo





Ricardo Maria Louro

 
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Ricky
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