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Carta 23

 
Do canto escuro do meu quarto de leitura, com a alma sofrida e o coração partido, por não ter a ti comigo,

Jolie,

Eu não sei como essas linhas minhas de agora chegarão ao teu peito quando as leres. Estas, Ma Jolie de sempre, serão as últimas linhas minhas dirigidas a ti. Não te penses antecipadamente, que essas minhas derradeiras alíneas de agora, se devem a algum desaponto ou desagrado de nosso encontro. Encontrar-me contigo, assim, como o teu Secret Passionné, foi um dos momentos que guardarei comigo como sendo um dos mais importantes e significantes de toda minha vida. Só não te digo ter sido este o mais importante, pois outros momentos contigo me foram igualmente significantes e dignos de menção e lembrança por mim.

Fico cá a imaginar a inquietude dos teus olhos perpassados a desespero e não mais a entrega, por essas minhas palavras de agora, e, confesso a ti, com o mais intenso e casto clamor que há em meu peito, que escrevo cada palavra a gosto de fel, e, a lágrimas de sangue. Não desejaria nunca traçar-te tais vocábulos; eu derramaria sobre as nuvens, os mais lindos e angelicais acordes que pudessem agora, acalmar-te em tuas lágrimas compassivas. Não penses, nem por um só segundo, que eu não te amo. Não duvides do meu amor por ti. Não te sintas também enganada, nem tão pouco usada, pois aqui, neste mundo, só nosso, não há espaços para tais dolências mundanas, desumanas. Mas, nas imperfeições dos áridos terrenos deste mundo subversivo, uma singela e arraigada flor da terra despojou os mais sublimes sentimentos que poderiam fazer surgir em nossos corações. Jolie, eu a amo. Amo-a loucamente, amo-a com a insanidade do poeta a se descobrir diante os primeiros versos que compõem um soneto. Amo-te tanto, que nunca me dei conta do que tudo isso fazia em mim. Não me dei, até sentir-te inteiramente minha, entregue aos meus braços, a estremecer sob cada sussurro que fiz vibrar aos teus ouvidos.

“Da segunda, serei a lettre a ser jogada ao vento pela tua boca, nessas tardes de minhas mais infindas emoções.” Esta foi a primeira pista que lhe dei, ma Jolie, na tentativa imensurada de te fazer descobrir a torpe verdade que existe sobre mim, e, te afastares em definitivo, quando eu já não mais podia fazer. Mas, confesso que ainda era muito primitivo, apenas uma letra, e, com isso muito pouco para te fazer suspeitar de minhas reais e inseguras intenções. Não vistes na fragilidade da letra “V”, o desenrolar fatal que havíamos de ter em nossos corações.

“Da oitava, seremos juntos as palavras e as letras, contadas nesse idílio meu.” Veio então com imenso pesar a segunda pista, que deveria abrir os teus olhos para o perigo a que corríamos. Minha mão febril descompassada esboçou incontáveis vezes esta singela sentença. Que não fosse ela a sentença definitiva ao nosso amor, assim, subjugado a incredulidade humana e ao anti-ético olhar da sociedade. O mártir de meus sentimentos mais pueris estava na tua sapiência da existência de uma letra “I”. E já com isso, tu tinhas lá em tua frondosa mente, uma sílaba que poderia fazer-me a máscara cair.

“Dimunindo la raison da humanidade, ficam em teus lábios a mais sucrerie saudade, da certeza deste amor meu.” E assim, dei por encerrada todas as pistas que um dia imaginei fornecer aos teus lindos olhos perolados. Imaginei ser esta a derradeira pista que a fizesse conduzir a quem eu realmente sou. Sim, ma Jolie, tu me conheces. Tu me conheces não de agora, dessas linhas. Mas, de outras, que tu me traças freqüentemente sem ao menos suspeitar que chegam aos meus olhos. Aos olhos do teu Secret Passionné. A derradeira letra, um “C”, que fez custoso de escrever. Ali, tive, então, a certeza de que nossos destinos haviam sido traçados. E não tinham sido as minhas mãos a traçá-los. Nem tão pouco as tuas.

Tu caíste doente, e, eu padeci contigo cada dia de tua ausência. Tuas cartas, com tuas escritas lânguidas, consumidas pela febre e fragilidade do corpo foram um bálsamo ao meu coração desgarrado do teu às brutas intempestividades. Não desejei nem por um só segundo, que te sentisses sozinha, abandonada de mim. Por isso, deixei-te não só o meu perfume, como também meu precioso camafeu. Espero que tu ainda o tenhas. Eu ainda guardo aqui as lembranças daquele dia. Dei-te algo meu. Algo que tem em mim intensa simbologia. Não é nada de grande apreço, ou, de valor aos olhos de outrem. Mas, eu sabia, tinha cá a mais indefinível certeza, de que a ti faria bem ter-me por perto. Mais do que meu exalo. Meu camafeu.

Então, veio o nosso encontro. E com ele toda a magia e entrega por nós esperadas. Fui teu assim como tu foste minha. Naquele tempo a nós pertencente, não me acordei dos problemas de outrora, dos mártires da vida que me faziam tão longe de ti, por razões tão fúteis ao meu coração. Necessitava sentir-me teu, necessitava entregar-me a ti, por inteiro, por completo, e, não somente por linhas traçadas e entregues a refugo. E assim me foi. Assim, senti-me completo. Pela primeira vez em toda a minha vida.

Então, eis que recebo aquele maldito telegrama. Estava eu em minha sala quando te vi passar de longe, vaporosa e alegre como a borboleta em plena primavera. Sorri-me de expor os molares, e, nem mais me lembrava que aquele frio papel estava em minhas mãos. Tu já ias para sala, mas estavas diferente. Eu ao menos te sentia assim. Não era mais a Jolie triste e cabisbaixa das outras aulas. Tu estavas ali, e, teus olhos, teu jeito, teu corpo desmitificavam toda a falta de vida que muitos pensavam não existir ali. Tu estavas ainda mais bela do que nunca. Estava linda. Estava simplesmente Jolie.

Acabei-me esquecendo do maldito telegrama. Guardei-o no livro de Sartre, e, fui mais uma vez ter contigo. Mas, agora eu já não mais era Secret Passionné. Ou, pelo menos, não poderia ser. Eu era apenas Pierre, como todos me conheciam. Victorio Pierre, teu professor de Literatura. Mal dos ensinos tradicionais. Afastam os alunos dos seus mestres, fazendo com que aqueles os chamem pelo sobrenome e nunca pelo nome de batismo. Muito não me espantou que tu não entendesses as pistas que deixei a ti. Afinal, as pistas levavam a “VIC”, de “Victorio” e não havia nada de Pierre ali. Interroguei-te com os olhos a aula inteira, e, tu alheia a quaisquer de minhas incertas indagações, continuou a suspirar pelos versos que te fiz ler em voz alta. Os mais lindos versos que já ouvi em toda a minha vida.

A aula terminara e tu já te recolheste à biblioteca. Tinhas de terminar o trabalho. Era o que lhe garantiria o título máximo de conclusão de curso. Eu não pude acompanhá-la nisso, mas sei que ficaste, desta vez, pouco tempo na biblioteca. Talvez, somente o tempo necessário, para te certificares de que nada havia meu naquele nosso livro secreto. Eu passei a tarde inteira numa daquelas intermináveis e inúteis reuniões de coordenadores de áreas. E lá pelas 17 horas, minha cabeça doía tanto, que o mínimo ruflar do virar de uma página, incomodava-me inteiramente. Dei-me por mim, enfim, no carro, dirigindo em direção a minha casa, onde eu pudesse ter um pouco de paz e muitas lembranças de ti.

Tomei um banho e me recolhi ao quarto. Peguei do livro de Sartre instintivamente, apenas para ter ainda mais motivos para me lembrar de ti. Foi então que aquele telegrama caiu ao chão. Eu já não me recordava dele. Tanto tinha ocorrido que eu, um homem de 34 anos não tinha parado um só segundo para me recordar daquele telegrama. Abri aquela mensagem, e, brevemente empalideci.

Deixei meu corpo cair sobre a cama. Por instantes delongados, retive aquela folha de papel em minhas mãos, e, a levei incontáveis vezes aos olhos, para me certificar de que de fato havia lido corretamente. Sim, estava tudo claro. Categórico. Não havia nada a ser esclarecido, nenhum erro. Tudo estava ali, escrito em palavras firmes e sucintas. E eu já nem podia fazer nada por hora. Nada.

Há algum tempo o reitor de nossa universidade havia me selecionado entre os diversos mestres para representar a nossa universidade numa instituição equiparada na França. Na ocasião, questionou-me por diversas vezes se era de fato do meu interesse, pois haveria grandes chances de eu ter o meu doutorado lá, além de uma bolsa de incentivos a que eu poderia receber. O fato de eu ser o único professor solteiro e com total desprendimento familiar, levou o meu nome ao topo da lista. O restante se deu pelas minhas próprias habilidades. Fui inquirido por incontáveis vezes ainda este ano, a ratificar a minha inteira aprovação quanto a minha ida, que deveria ser feita no cabo de 6 meses, para ficar em terras francesas por um período de quatro anos. Tu ainda não tinhas aparecido em minhas aulas, não era minha aluna, e, creio que o teu nome foi um dos últimos a serem, por fim, agregados a lista de meus alunos. Não havia razões para eu ficar. Até tu apareceres e me dominares por completo.

Antes de escrever-te essas minhas linhas de agora, tentei demover o reitor da idéia de mandar-me a França. Mas, já nada poderia ser feito. O meu nome já havia sido aprovado em todas as instâncias, e, eles não poderiam surgir com um novo nome a tempo. Sim, a tempo. Isso porque a minha partida está confirmada para amanhã, bem cedo. Nem mesmo terei tempo de ir a Universidade. Por isso, deixo-te essa carta, a mais dolorosa de todas embaixo de tua porta. O reitor me deu créditos que iria tentar uma substituição, um novo nome, ao cabo de 2 anos. Meu amor será eternamente teu. Mas, não tens de ficar presa a mim.

Saibas que tu foste o que de melhor aconteceu em minha vida. E que levo comigo o teu amor, que ficará aqui, eternamente registrado por essas minhas e tão nossas escritas.

Eu te amo muito, Jolie.

Do teu eterno Secret Passionné,

Victorio Pierre.


rody

 
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rody
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Enviado por Tópico
sandrafuentes
Publicado: 01/09/2009 02:05  Atualizado: 01/09/2009 02:05
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