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João Cabral de Melo Neto : Retrato de escritor
em 05/05/2011 14:20:00 (3915 leituras)
João Cabral de Melo Neto

Insolúvel: na água quente e na fria;
nas de furar a pedra ou nas langues;
nas águas lavadeiras; até nos alcoóis
que dissolvem o desdém mais diamante.
Insolúvel: por muito o dissolvente;
igual, nas gotas dum pranto ao lado,
e nas águas do banho que o submerge,
em beatitude, e de que emerge ingasto.

Solúvel: em toda tinta de escrever,
o mais simples de seus dissolventes;
primeiramente, na da caneta-tinteiro
com que ele se escreve dele, sempre
(manuscrito, até em carta se abranda,
em pedra-sabão, seu diamante primo);
solúvel, mais tarde ele se passa a limpo
o que ele se escreveu da dor indonésia
lida no Rio, num telegrama do Egito
(datiloscrito, já se acaramela muito
seu diamante em pessoa, pré-escrito).

Solúvel, todo: na tinta, embora sólida,
da rotativa, manando seu auto-escrito
(impresso, e tanto em livro-cisterna
ou jornal-rio, seu diamante é líquido).



João Cabral de Melo Neto, in; ‘A educação pela pedra’


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Enviado por Tópico
visitante
Publicado: 05/05/2011 21:47  Atualizado: 05/05/2011 21:48
 Re: Retrato de escritor
é inegável que João Cabral é consagrado pelas suas obras, como autor fundamental da literatura brasileira, a partir da publicação de 'O cão sem plumas', 1950, 'O rio', 1953 e 'Morte e vida severina, 1956, atinge assim toda sua maturidade criadora.
enfim; aqui tento remedá-lo:
http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=185183

zésilveira

Enviado por Tópico
Henrique Pedro
Publicado: 07/05/2011 19:49  Atualizado: 07/05/2011 19:49
Colaborador
Usuário desde: 28/07/2007
Localidade:
Mensagens: 3821
 Re: Retrato de escritor
Não conhecia! Não é por acaso que se trata dum imortal, pois nada falta na sua poesia, designadamente a sublime longevidade que alastra em universalidade.

Fez bem em trazê-lo aqui, irmão poeta José.

Abraço

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