Poemas : 

Escrever ao Som de… 2006

 
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Escreve ao Som de… é uma nova rubrica do Luso-Poemas, que propõe um encontro entre música e palavra, que se irá converter num novo livro digital.

Para comemorar o ano de 2006, sugerimos as seguintes canções, compostas por dois cantores que dispensam apresentações:

Caetano Veloso – "Não me arrependo"


Sérgio Godinho – "Às vezes o amor"


O som está lançado. O poema, agora, é seu.

Nota: Caso não se identifique com nenhuma das canções sugeridas, pode inspirar-se numa outra, desde que seja do ano a que se refere o post.

 
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Luso-Poemas
 
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Enviado por Tópico
agniceu
Publicado: 09/02/2026 10:32  Atualizado: 09/02/2026 10:35
Colaborador
Usuário desde: 08/07/2010
Localidade:
Mensagens: 771
 Re: Escreve ao Som de…Sérgio Godinho – "Às vezes o amor"
O “Te” deslocado


às vezes o amor
é ditado
com erros
ortográficos,
escrito no sítio certo,
no tempo errado.

é carta
com data
rasurada,
pronta para
emocionar
o coração,
longe do espaço
torácico.

amar-te é um erro
que não se pode apagar
com borracha
de plástico.

mas será que posso
mudar
o “te”
de lugar,
com sotaque,
antes de amar?

Enviado por Tópico
Benjamin Pó
Publicado: 09/02/2026 15:06  Atualizado: 09/02/2026 15:06
Administrador
Usuário desde: 02/10/2021
Localidade:
Mensagens: 912
 Escreve ao Som de…
.
Esta atividade não poderia ter começado de melhor maneira, com o belíssimo poema do Agniceu.
Esperamos que venham muitos mais, para confirmar novamente que os nossos poetas gostam de desafios criativos.
Fica aqui o meu contributo para o ebook:

a luz começou em frestas

estes braços nus
descendem de asas
e sobem por setas
de serena luz
que começa em frestas
e se abre em aluviões
de águas rasas e quietas
que escondem brasas
onde se enche a taça
de um risco irracional

como piões sem baraça
à espera do momento
em que os largará a mão
num chão de cristal
que se estilhaça
ao primeiro movimento

Enviado por Tópico
LucianoSpagnol
Publicado: 09/02/2026 18:30  Atualizado: 09/02/2026 18:30
Membro de honra
Usuário desde: 17/08/2023
Localidade:
Mensagens: 560
 Re: Escreve ao Som de… Sérgio Godinho
PERDI-ME

Perdi-me na caução dos teus abraços
Entre promessas
Medos
Laços
Mas descobri-te ali
Tão perto
Vivo em mim
Teu riso aberto

Ah!
Como é bom contigo estar
Onde a paixão não foge
Fica
Entende
Amor
És tu
A mais feliz das alegrias
Se é ilusão
Se é lenda antiga
Que seja eterna
Que seja cativa
No teu olhar
Meu dia
Na tua voz
O meu lugar

Na escolha do querer
Teu nome insiste
Coração arqueja
Nunca desiste
Há mais que avançar
Há tropeço e riso
Intensidade que deseja
Toque
Arrepio preciso

Teu brilho manso faz histórias
Solta meus sonhos, areja
Cria memórias
Se o mundo duvida
Deixa duvidar
Tua mão na minha já sabe onde ficar.

© Luciano Spagnol – poeta do cerrado
09/02/2026

Enviado por Tópico
Alpha
Publicado: 10/02/2026 17:50  Atualizado: 10/02/2026 17:50
Membro de honra
Usuário desde: 14/04/2015
Localidade:
Mensagens: 2300
 Re: Escreve ao Som de…
Por te querer.

Por te querer o tempo se curva
Silencioso o dia amadurece
as horas aprendem a tocar de leve
o mundo passa a respirar estreito
a espera encontra sentido

O risco vira travessia sem gráfico
descalço, o medo atravessa a luz
novas dimensões surgem no peito
o futuro solta as direções
mas permanece aceso

A privação já não soa vazia
o mar cabe inteiro numa concha
a chama se protege do vento
a dor reconhece o caminho
e permanece.

Enviado por Tópico
Alemtagus
Publicado: 10/02/2026 21:34  Atualizado: 10/02/2026 21:34
Moderador
Usuário desde: 24/12/2006
Localidade: Montemor-o-Novo
Mensagens: 3920
 Re: Escreve ao Som de…
Ser
Por louco sabor
Ver
Que sabe a pouco
A dor
A cor
Amor
Ardor
Calor
Que quer ver
Beijar sem saber
O tamanho do mundo
O tamanho de um abraço
Dos teus braços nos meus
Dos teus lábios nos meus
De dedos entrelaçados
De olhares cruzados
De tudo e nada
Deixar-te ir
E ser


Enviado por Tópico
FragmentosdeSonhos
Publicado: 11/02/2026 02:23  Atualizado: 11/02/2026 02:23
Super Participativo
Usuário desde: 03/07/2025
Localidade:
Mensagens: 142
 Re: Escreve ao Som de…
Sérgio Godinho
"Às vezes o amor"




Carta-poema
Oi, amor,
escrevo porque o silêncio virou o único lugar
onde ainda posso te tocar.
O tempo passou
e o nosso encontro não aconteceu
não por falta de desejo,
mas porque éramos grandes demais
para caber no mundo real.
Cada verso foi um risco.
Cada poesia, um mergulho sem volta.
Você entrava nos meus olhos
como quem reconhece um lar antigo,
e o seu coração sabia,
sem que eu dissesse,
o som exato do meu nome batendo dentro de você.
Não houve pele,
mas houve vertigem.
Não houve abraço,
mas houve um incêndio inteiro
que queimava só de existir.
Nós nos amamos no limite.
No impossível.
No espaço onde a alma se despe
e o corpo nunca chega.
Talvez, se tivéssemos nos encontrado,
teríamos nos perdido.
Porque alguns amores
não sobrevivem ao toque
eles nascem para doer bonito,
para existir apenas onde ninguém alcança.
Eu te vivi em pensamento,
em verso,
em noites que não pediam manhã.
Te amei sem defesa,
sem futuro,
sem permissão.
E ainda amo.
Não como quem espera,
mas como quem aceita
que certos amores não passam
apenas se transformam
em eternidade silenciosa.
Se algum dia você sentir
um aperto sem nome no peito,saiba:
sou eu te lendo por dentro,
como sempre foi.

Enviado por Tópico
MarySSantos
Publicado: 12/02/2026 00:28  Atualizado: 12/02/2026 00:32
Colaborador
Usuário desde: 06/06/2012
Localidade:
Mensagens: 6048
 Re: Escreve ao Som de…
Não me arrependo - Caetano Veloso

até que arde

arde o tempo,
arde o beco,
arde o que fui.

entro como vento,
saio como labareda

incendiando o que me tenta
abrindo fendas no escuro
queimando o que insiste
em me conter.

a chama que se espalha

dança cinza
dança rubor
dança rosa

transforma o que toca

e nos becos do tempo


onde antes eu me perdia
ficou rastros de fogo
para que nenhuma versão minha
se esqueça de arder.

Enviado por Tópico
AlexandreCosta
Publicado: 12/02/2026 12:54  Atualizado: 16/02/2026 12:17
Administrador
Usuário desde: 06/05/2024
Localidade: Braga
Mensagens: 1395
 Re: Escreve ao Som de…
"Às vezes o amor" - Sérgio Godinho


Às vezes acontece o amor

às vezes o amor
vem pela porta dos fundos
e fica um mundo todo, no olhar
que não sabe o que aí vem
às vezes traz calor
logo nos primeiros segundos
e fica o peito a estalar
em fogo já de alguém

às vezes o amor
vem em passadas mansinhas
com chispas nos olhos vidrados
a rebrilhar de janelas
às vezes parece dor
enquanto não lê entrelinhas
até que os olhos cruzados
se fundem com as costelas

às vezes o amor
vem no primeiro clarão
e ficam os olhos perdidos
e perde-se o coração

às vezes o amor está diante
de quem não sabe que o sente
às vezes o amor acontece
e outras morre na gente


12-02-2026

Enviado por Tópico
Aline Lima
Publicado: 14/02/2026 03:21  Atualizado: 14/02/2026 03:26
Administrador
Usuário desde: 02/04/2012
Localidade: Brasília- Brasil
Mensagens: 1115
 Re: Escreve ao Som de…
..

Porta Aberta

O amor não chega.
desloca.

Uma casa cede um milímetro.

Nada pede licença
ao corpo
quando a maré decide.

A porta aprende sozinha
o gesto de não resistir.
Sal nos dedos.
No chão,
um resto de sol
que ninguém recolhe.

Fico diante dessa invasão de luz
como se a madeira respirasse.
Como se o teu rosto
deixasse
um risco
na espessura do escuro.

Nada faz ruído
e, no entanto,
o mundo é diferente.

O pão demora na boca.
A colher pesa
O espelho falha
em devolver
o que eu era.

Há um passo que avança
sem sair do lugar.
Outro que recua
já dentro.

O que passa
não se perde.
Permanece
como forma alterada

Amar
é consentir na própria fome
até que ela diga
o nome do que falta.

E quando o outro atravessa
e parte,
não somos inteiros,
nem menores,

somos
o que ficou depois
do medo.

Enviado por Tópico
Rogério Beça
Publicado: 14/02/2026 12:11  Atualizado: 15/02/2026 01:48
Colaborador
Usuário desde: 06/11/2007
Localidade:
Mensagens: 2295
 Re: Escreve ao Som de…
A tinta-da-china ("Não me arrependo" de Caetano Veloso)

Foi
a tinta-da-china
que escreveste no meu peito
a tua ira.
Disseste ser poema, luto, mentira,
que eu aceito
que se imagina
quando dói.

Arranquei do couro,
da carne, do osso,
mas ainda tinta
o aparo.
Esse tom claro
que talvez só eu sinta
no fundo do poço,
é tesouro.

Foi a morte certa
porque na minha terra
o arrependimento mata

e berra.

Enviado por Tópico
klopes
Publicado: 15/02/2026 19:48  Atualizado: 19/02/2026 16:08
Participativo
Usuário desde: 15/02/2026
Localidade: Lisboa
Mensagens: 13
 Re: Escreve ao Som de… Sérgio Godinho - Às Vezes o Amor
Acerto de Passos

A luz rasga as frestas,
agride o ar parado da sala,
acorda o pó.
Sem aviso — ardeu.

A paixão é um fósforo no corredor
onde o escuro era hábito.
A chama demora-se nos dedos,
e eu deixo.

Tropeçamos no mesmo degrau,
desaprendemos o equilíbrio.
Acerto o passo contigo
quando o chão vacila,
quando o ritmo falha.

Alargamos as paredes,
comemos o mofo das esperas.
Forçamos o encaixe:
pele contra cal,
até que o quarto aprenda
a pulsação do nosso sangue.

Se o amor não é eterno,
porque insisto em polir a pedra,
em atiçar o lume?
Porque te deixo as chaves
daquilo que sempre tranquei?

Construo o telhado sabendo
que a telha estala,
que o bicho rói a viga,
que a chuva há de entrar.

Ainda assim, levanto paredes.
Ainda assim, invento janelas.
Que venha o vento.

Enviado por Tópico
AlexandreCosta
Publicado: 16/02/2026 12:16  Atualizado: 16/02/2026 12:16
Administrador
Usuário desde: 06/05/2024
Localidade: Braga
Mensagens: 1395
 Re: Escreve ao Som de…
"Não me arrependo" - Caetano Veloso

Contr(ad)ição

se arrependimento matasse
diria das mãos
mais vivas
a contrição descontraída
o nunca é tarde
que poderia ter sido mais cedo
que a morte que me deste
era mais vida que viver
que só morreu quem não sabia
quem não tinha ainda o gosto do fogo
a queimar como quem refresca
e uns olhos teus olhos a vibrar
nas pétalas do beijo orvalhado de sóis
sóis de girar no mesmo eixo
um eixo um mundo um amor
se arrependimento matasse
viveríamos o calor precoce
como quem nasceu ali
no instante de começarmos
só me mataria o arrependimento
se as mãos não soubessem dizer
quão vivo sou
quão vivos somos


16-02-2025

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