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Jorge de Lima : Inverno
em 23/05/2011 22:17:57 (4118 leituras)
Jorge de Lima


Zefa, chegou o inverno!
Formigas de asas e tanajuras!
Chegou o inverno!
Lama e mais lama
chuva e mais chuva, Zefa!
Vai nascer tudo, Zefa,
Vai haver verde,
verde do bom,
verde nos galhos,
verde na terra,
verde em ti, Zefa,
que eu quero bem!
Formigas de asas e tanajuras!
O rio cheio,
barrigas cheias,
mulheres cheias, Zefa!
Águas nas locas,
pitus gostosos,
carás, cabojés,
e chuva e mais chuva!
Vai nascer tudo
milho, feijão,
até de novo
teu coração, Zefa!
Formigas de asas e tanajuras!
Chegou o inverno!
Chuva e mais chuva!
Vai casar, tudo,
moça e viúva!
Chegou o inverno
Covas bem fundas
pra enterrar cana:
cana caiana e flor de Cuba!
Terra tão mole
que as enxadas
nelas se afundam
com olho e tudo!
Leite e mais leite
pra requeijões!
Cargas de imbu!
Em junho o milho,
milho e canjica
pra São João!
E tudo isto, Zefa...
E mais gostoso
que tudo isso:
noites de frio,
lá fora o escuro,
lá fora a chuva,
trovão, corisco,
terras caídas,
córgos gemendo,
os caborés gemendo,
os caborés piando, Zefa!
Os cururus cantando, Zefa!
Dentro da nossa
casa de palha:
carne de sol
chia nas brasas,
farinha d'água,
café, cigarro,
cachaça, Zefa...
...rede gemendo...
Tempo gostoso!
Vai nascer tudo!
Lá fora a chuva,
chuva e mais chuva,
trovão, corisco,
terras caídas
e vento e chuva,
chuva e mais chuva!
Mas tudo isso, Zefa,
vamos dizer,
só com os poderes
de Jesus Cristo!


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Enviado por Tópico
Transversal
Publicado: 23/05/2011 22:48  Atualizado: 23/05/2011 22:48
Colaborador
Usuário desde: 02/01/2011
Localidade: Fortaleza - Lisboa
Mensagens: 3687
 Re: Inverno
Homem de uma cultura vasta, enorme, diversificada, médico e professor de Literatura Brasileira tudo ao mesmo tempo. Um poeta por vezes esquecido, mas de uma linguagem, de um vocabulário riquíssimos, basta ler o poema enviado pela Helen. Há quem diga que este foi o seu último texto, será (?)
Um Poeta maior a ser relido, revisitado, sempre

Anjo daltônico

Tempo da infância, cinza de borralho,
tempo esfumado sobre vila e rio
e tumba e cal e coisas que eu não valho,
cobre isso tudo em que me denuncio.


Há também essa face que sumiu
e o espelho triste e o rei desse baralho.
Ponho as cartas na mesa. Jogo frio.
Veste esse rei um manto de espantalho.


Era daltônico o anjo que o coseu,
e se era anjo, senhores, não se sabe,
que muita coisa a um anjo se assemelha.


Esses trapos azuis, olhai, sou eu.
Se vós não os vedes, culpa não me cabe
de andar vestido em túnica vermelha.

Enviado por Tópico
Ramgad
Publicado: 24/05/2011 17:09  Atualizado: 24/05/2011 17:09
Colaborador
Usuário desde: 13/04/2007
Localidade:
Mensagens: 944
 Re: Inverno
Elen obrigada por nos enviar tamanha riqueza.

Abs

ramgad

Enviado por Tópico
jamaveira
Publicado: 25/05/2011 14:43  Atualizado: 25/05/2011 14:43
Da casa!
Usuário desde: 23/07/2006
Localidade: João Pessoa - PB
Mensagens: 343
 Re: Inverno
Fazem-nos seguir com orgulho o dom da poesia, existe algo mais completo que escrever versos? Uma riqueza da alma! Abç. Jamaveira

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