Clarice Lispector : O Primeiro Beijo
em 10/09/2011 22:48:40 (7162 leituras)
Clarice Lispector



Os dois mais murmuravam que conversavam: havia pouco iniciara-se o namoro e ambos andavam tontos, era o amor. Amor com o que vem junto: ciúme.
- Está bem, acredito que sou a sua primeira namorada, fico feliz com isso. Mas me diga a verdade, só a verdade: você nunca beijou uma mulher antes de me beijar? Ele foi simples:

- Sim, já beijei antes uma mulher.

- Quem era ela? perguntou com dor.

Ele tentou contar toscamente, não sabia como dizer.

O ônibus da excursão subia lentamente a serra. Ele, um dos garotos no meio da garotada em algazarra, deixava a brisa fresca bater-lhe no rosto e entrar-lhe pelos cabelos com dedos longos, finos e sem peso como os de uma mãe. Ficar às vezes quieto, sem quase pensar, e apenas sentir - era tão bom. A concentração no sentir era difícil no meio da balbúrdia dos companheiros.

E mesmo a sede começara: brincar com a turma, falar bem alto, mais alto que o barulho do motor, rir, gritar, pensar, sentir, puxa vida! como deixava a garganta seca.

E nem sombra de água. O jeito era juntar saliva, e foi o que fez. Depois de reunida na boca ardente engulia-a lentamente, outra vez e mais outra. Era morna, porém, a saliva, e não tirava a sede. Uma sede enorme maior do que ele próprio, que lhe tomava agora o corpo todo.

A brisa fina, antes tão boa, agora ao sol do meio dia tornara-se quente e árida e ao penetrar pelo nariz secava ainda mais a pouca saliva que pacientemente juntava.

E se fechasse as narinas e respirasse um pouco menos daquele vento de deserto? Tentou por instantes mas logo sufocava. O jeito era mesmo esperar, esperar. Talvez minutos apenas, enquanto sua sede era de anos.

Não sabia como e por que mas agora se sentia mais perto da água, pressentia-a mais próxima, e seus olhos saltavam para fora da janela procurando a estrada, penetrando entre os arbustos, espreitando, farejando.

O instinto animal dentro dele não errara: na curva inesperada da estrada, entre arbustos estava... o chafariz de onde brotava num filete a água sonhada. O ônibus parou, todos estavam com sede mas ele conseguiu ser o primeiro a chegar ao chafariz de pedra, antes de todos.

De olhos fechados entreabriu os lábios e colou-os ferozmente ao orifício de onde jorrava a água. O primeiro gole fresco desceu, escorrendo pelo peito até a barriga. Era a vida voltando, e com esta encharcou todo o seu interior arenoso até se saciar. Agora podia abrir os olhos.

Abriu-os e viu bem junto de sua cara dois olhos de estátua fitando-o e viu que era a estátua de uma mulher e que era da boca da mulher que saía a água. Lembrou-se de que realmente ao primeiro gole sentira nos lábios um contato gélido, mais frio do que a água.

E soube então que havia colado sua boca na boca da estátua da mulher de pedra. A vida havia jorrado dessa boca, de uma boca para outra.

Intuitivamente, confuso na sua inocência, sentia intrigado: mas não é de uma mulher que sai o líquido vivificador, o líquido germinador da vida... Olhou a estátua nua.

Ele a havia beijado.

Sofreu um tremor que não se via por fora e que se iniciou bem dentro dele e tomou-lhe o corpo todo estourando pelo rosto em brasa viva. Deu um passo para trás ou para frente, nem sabia mais o que fazia. Perturbado, atônito, percebeu que uma parte de seu corpo, sempre antes relaxada, estava agora com uma tensão agressiva, e isso nunca lhe tinha acontecido.

Estava de pé, docemente agressivo, sozinho no meio dos outros, de coração batendo fundo, espaçado, sentindo o mundo se transformar. A vida era inteiramente nova, era outra, descoberta com sobressalto. Perplexo, num equilíbrio frágil.

Até que, vinda da profundeza de seu ser, jorrou de uma fonte oculta nele a verdade. Que logo o encheu de susto e logo também de um orgulho antes jamais sentido: ele...

Ele se tornara homem.

(In "Felicidade Clandestina" - Ed. Rocco - Rio de Janeiro, 1998)


Imprimir este poema Enviar este poema a um amigo Salvar este poema como PDF
Os comentários são de propriedade de seus respectivos autores. Não somos responsáveis pelo seu conteúdo.

Enviado por Tópico
HelenDeRose
Publicado: 11/09/2011 21:10  Atualizado: 11/09/2011 21:10
Administradora
Usuário desde: 06/08/2009
Localidade: Sorocaba - SP - Brasil
Mensagens: 2085
 Re: O Primeiro Beijo
Muito bom reler este texto, Caito. Ainda bem que o meu primeiro beijo não foi numa estátua. *rs


Até mais ler...

Helen.

Enviado por Tópico
cristhal
Publicado: 12/09/2011 18:09  Atualizado: 12/09/2011 18:09
Colaborador
Usuário desde: 04/09/2009
Localidade:
Mensagens: 869
 Re: O Primeiro Beijo
O primeiro beijo nunca se esquece!
Jamais sairá da minha memória esse momento inesquecível... o do meu primeiro beijo!

Obrigada Caito, por partilhar este belo texto.


Abraço.
Maria Valadas

Enviado por Tópico
Ramgad
Publicado: 12/09/2011 20:19  Atualizado: 12/09/2011 20:19
Colaborador
Usuário desde: 13/04/2007
Localidade:
Mensagens: 944
 Re: O Primeiro Beijo
Gostei mto de relembrar este texto e o primeiro beijo.

Abs
Ramgad

Enviado por Tópico
Doriana
Publicado: 08/10/2011 02:26  Atualizado: 08/10/2011 02:26
Da casa!
Usuário desde: 05/01/2008
Localidade: Rio de Janeiro
Mensagens: 353
 Re: O Primeiro Beijo
Lindo esse texto da Clarice, que fala de uma época linda e de descobertas. A juventude traz consigo a descoberta não apenas do amor, mas também da sexualidade. As duas coisas se misturam e, de uma forma ou de outra, afloram quando menos se espera.


Adorei!Obrigada por postar =)

Links patrocinados

Visite também...