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Álvares de Azevedo : NAMORO A CAVALO
em 17/07/2008 17:10:00 (11833 leituras)
Álvares de Azevedo

Eu moro em Catumbi. Mas a desgraça
Que rege minha vida malfadada
Pôs lá no fim da rua do Catete
A minha Dulcinéia namorada.

Alugo ( três mil reis) por uma tarde
Um cavalo de trote ( que esparrela!)
Só para erguer meus olhos suspirando
À minha namorada na janela...

Todo o meu ordenado vai-se em flores
E em lindas folhas de papel bordado
Onde eu escrevo trêmulo, amoroso,
Algum verso bonito...mas furtado.

Morro pela menina, junto dela
Nem ouso suspirar de acanhamento...
Se ela quisesse eu acabava a história
Como toda Comédia – em casamento...

Ontem tinha chovido...Que desgraça!
Eu ia a trote inglês ardendo em chama
Mas lá vai senão quando uma carroça
Minhas roupas tafuis encheu de lama.

Eu não desanimei. Se Dom Quixote
No Rocinante erguendo a larga espada
Nunca voltou de medo, eu, mais valente,
Fui mesmo sujo ver a namorada...

Mas eis que no passar pelo sobrado,
Onde habita nas lojas minha bela,
Por ver-me todo lodoso ela irritada
Bateu-me sobre as ventas a janela...

O cavalo ignorante de namoros
Entre os dentes tomou a bofetada,
Arrepia-se, pula, e dá-me um tombo
Com as pernas para o ar, sobre a calçada...

Dei ao diabo os namoros. Escovando
Meu chapéu que sofrera no pagode,
Dei de pernas corrido e cabisbaixo
E berrando de raiva como um bode.

Circunstância agravante. A calça inglesa
Rasgou-se no cair de meio a meio,
O sangue pelas ventas me corria
Em paga do amoroso devaneio!...


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Enviado por Tópico
Henrique Pedro
Publicado: 17/07/2008 22:19  Atualizado: 17/07/2008 22:19
Colaborador
Usuário desde: 28/07/2007
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Mensagens: 3821
 Re: NAMORO A CAVALO
Um mestre! Abraço

Enviado por Tópico
_karins
Publicado: 30/03/2015 01:59  Atualizado: 30/03/2015 01:59
Novo Membro
Usuário desde: 30/03/2015
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Mensagens: 1
 Re: NAMORO A CAVALO
Olá. O verso "Por ver-me todo lodoso ela irritada", na sétima estrofe, está errado. A palavra correta é "tão", ao invés de "todo". Embora seja uma diferença boba, que não altera a semântica do verso, muda a versificação, pois com a palavra "todo" o verso passa a ser hendecassílabo, contrastando com os outros versos do poema, que são decassílabos.

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