Poemas, frases e mensagens de domol

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de domol

NÃO DEIXEM MORRER O NATAL

 
NÃO DEIXEM O NATAL MORRER
(Acróstico)

Neste mundo conturbado, original,
Anarquizado pelos ciosos do poder,
Omitimos a nossa ação principal

De fazer em cada dia o dever
Elevar o significado “NATAL”.
Injustiças estão a acontecer
Xeque-mate será preciso, afinal?
Ergam-se vozes, há fome a combater
Mostremos um coração fraternal.

O mundo está doente, impera o mal.

Naquela manjedoura nasceu o Rei
Acobertado pelo calor de animais
Tesouro que só aplicou uma lei:
Amai-vos como Eu também amei”
Laurel que nos torna sempre iguais.

Mudar neste mundo conturbado
O sentir que devemos ter em conta,
Radicando ações de grande monta,
Reparando erros do passado:
Engendrar um Natal todos os dias
Real sempre; sem fingidas fantasias.
 
NÃO DEIXEM MORRER O NATAL

LENDA DA LAGOA DAS SETE CIDADES

 
LENDA DA LAGOA DAS SETE CIDADES
S. MIGUEL – AÇORES

Era Antília, a princesa,
Filha de um rei feroz;
Dotada de tal beleza,
Mas sem assumir nobreza
Nem pensar na vil dureza,
Aos jardins ia veloz.

Enquanto o pai dormia,
A sesta que não perdia,
Lá saía a passear;
Montes e vales corria
Com a fé que possuía
P’ ra seu pastor vislumbrar.

Escondida, mas incauta,
Semanas o ouviu tocar
Som da maviosa flauta,
Composições de embalar.

Um dia foi descoberta
Por seu amável pastor,
E de coração aberto
Logo juraram amor.

O rei o mandou expulsar
Quando a filha foi pedir
E tendo de abdicar,
Lágrimas os viram carpir.

E com tanto amargor
Que as lagoas surgiram,
A azul é do pastor,
Seus olhos a construíram.

A verde é da princesa,
Seus olhos da mesma cor,
Estão lá com tal beleza,
São o símbolo do amor.
 
LENDA DA LAGOA DAS SETE CIDADES

AO SABOR DO VENTO

 
Pluma que vi cair
Junto ao cais, no embarque
Por ali ficou no parque
Sem ninguém p’ra lhe acudir

Vi a gaivota a olhar
O mar que agora deixava,
A pena que muito amava,
Mas tinha de se afastar.

Fugindo da massa vil
O vento levou a pena
E na terra de encantos mil

Viu algo que lhe acena.
A pluma que vi cair
Da mãe não queria sair.
 
AO SABOR DO VENTO

A NATUREZA

 
A NATUREZA

Ao olhar com amor a Natureza
E a certeza que tudo dá sem receber,
O prazer da espera, que amanheça,
A beleza do quente sol que vai nascer,

O gorjeio de andorinhas a chegar,
P’ra adoçar a primavera, doce e bela,
Janela que abre ao sol p’ra abençoar
E amar todo o mundo, toda a Terra.

Cuidemos com amor do nosso chão,
Saibamos adorná-lo com carinho,
Cultivando com amor o nosso pão

Respeitêmo-lo, retirando o que é daninho
Troquemos o que for aberração
Por flores e por trabalho; é o caminho.
 
A NATUREZA

NATAL 2011

 
NÃO HÁ MAGOS P’RA BELÉM
Uma voz profunda, penetrante,
Numa noite de trevas me assaltou
Em sonho de cariz apavorante,
De terror insidioso e assim falou:

“Já não há estrelas no Céu
Nem há magos p’ra Belém
Há um negro e denso véu
Que se olha com desdém”.

É o mundo enfermo, agonizante,
Enlodado pelo monstro que criou
Desemprego… e a fome causticante
Miséria que “ algum poder” aceitou.

Protestos estridentes se levantam
Também vozes maviosas em coral
É desespero dos que ainda se agigantam
São crianças a pedir um Bom Natal.

E no dia de tão grande esplendor
Que a paz enche o nosso coração
Demos fora ao tal monstro agressor
Enxotemo-lo deste mundo de aflição.

Pela fé, pela esperança que nos guia
Irmanados devemos dar as mãos
Não ficar por retórica de nostalgia
Ajudando com amor e elevação.
 
NATAL 2011

BOAS FESTAS DE NATAL E ANO NOVO A TODOS OS INTERVENIENTES DE "LUSO POEMAS"

 
AMA, SORRI E VIVE, É NATAL (acróstico)

A vante ó gente enjeitada,
M ártir de crueza infernal,
A legra-te, mesmo arrastada,

S ob o espírito do Natal.
O lhas o Mundo com desdém;
R edime-te dessa tristeza -
R enasce, como em Belém
I gualou a maior pobreza -

E nfrentando-o com grandeza.

V encerás mais uma vez
I ndiferente à tragédia,
V iverás com honradez
E squecendo tal miséria
É s pensante, és lucidez.

N asceu pobre, humilde e puro,
A mou muito é Santo e Rei
T u que estás tão inseguro
A feiçoa-te à Sua Lei,
L etificando-te, pela Grei.
 
BOAS FESTAS DE NATAL E ANO NOVO A TODOS OS INTERVENIENTES DE "LUSO POEMAS"

O PARAÍSO NA MONTANHA

 
Aquela serra já ‘stá verde, delirante,
E da cabana, com nobreza de senhor,
Vê-se o melro em concerto inebriante,
Que entoa trinos a chamar o beija-flor.

A neve já passou, é primavera,
Os esquilos saltam fora, no jardim,
Tudo é real, palpável, não quimera,
No piano alguém lembra Antonin.

O poeta evoca a musa adormecida
E nos recantos os eflúvios do seu eu
Ouvem Bach, Valentini, em despedida
Para voltar aos doces braços de Morfeu.
[center][/center]
 
O PARAÍSO NA MONTANHA

ECO DE NATAL

 
Eco de natal

Num sonho, de que não quero acordar,
Extasiado, por julgá-lo bem real,
Senti na alma que o mundo estava a amar,
Tomando à letra o espírito de Natal,
E dava ao homem o sentido fraternal.

Nascia, bem cuidado outro universo,
Abandeirado! Milhentos pavilhões!
Talismã de um novo manifesto).
Alegrava-se e bendizia as multidões,
Levantando o respeito das nações.

Demonstrando que nascemos para amar,
Extirpava a ideia de matar.

Excluem-se as guerras, a tirania,
Sobressai a paz, o direito igual,
Primavera sempre! Sem xenofobia.
Erradica-se o vício, o conceito do mal,
Reina a humildade, eco de Natal.
Andam de mãos dadas o velho e o novo,
Nega-se a pobreza, a vaidade, a ira,
Calam-se as bocarras, antro da mentira,
Aviva-se o amor, eleva-se o povo.
 
ECO DE NATAL

LÁGRIMAS

 
LÁGRIMAS

Chora a Natureza! Lágrimas sentidas
Envolvidas em ténue manto de sanceno,
Aceno para as que por nós foram vividas
Pelas caídas folhas dum Inverno.

Folhas caídas por nós vividas
Atingidas pela morte natural,
Abissal, por mistério escondida
Na fantasia dum pobre ser, mas imortal.

Deixai de escorrer, lágrimas sentidas,
Uma aragem sopra, as nuvens saem,
Volta a alegria! É assim a vida,
Um sorriso aflora, nasceu alguém.

No rodopio desta singela vivência
Prudência! Luz peçamos para amar,
O Poder não é mais do que indigência
Nos dois dias de que dispomos p’ra acordar.

2010-02-12
 
LÁGRIMAS

NO MUDAR DO ANO

 
NO MUDAR DO ANO

Alquebrado, indeciso, moribundo,
Aí vais, de passo lento, extenuado,
A caminho, quiçá, dum outro mundo,
Vencido, abjecto, indesejado.

Assim diria o menos avisado
Pelas guerras e fome que deixou,
Esquecendo que nada é destinado…
O Homem é que a desgraça inventou.

Outro, outro, e mais outro virão,
Para o bem e o mal da Humanidade,
Mas todos, conseguindo dar as mãos,
Nova Luz vencerá a ambiguidade.

Comecemos na passagem meus amigos,
A amarmos com verdade e com respeito,
Façamos do Novo Ano digno abrigo,
Vos apelo com amor e sem despeito.
 
NO MUDAR DO ANO

E ASSIM VAMOS CANTANDO E RINDO…

 
E ASSIM VAMOS CANTANDO E RINDO…
(TRÁGICO-CÓMICO)

Andavam vozes no ar
Em surdina ou a cantar
Que mostravam desespero
Num país, que ao acordar,
Moribundo e a agonizar
Descobrira o vil segredo.

Mentia o seu Governo,
Desde o chefe ao subalterno,
Com ousadia sagaz:
“Portugueses nada temam,
Não mudamos, não alterno,
Não há melhor, aliás”.

“É mentira, é invenção,
Direi mesmo aberração!
Eles só querem o Poder.
Não pedimos um tostão,
Nem peço a demissão
Serei eu a resolver.”

E o País a cair
Com o sangue a esvair
Recupera a sensatez.
Desse coma quer sair,
Começa a reflectir
E vota mais uma vez…

Desses votos nasce a esperança
De ver ao longe a bonança
(Por agora é só aperto)
E com fé na “aliança”
Renasceu a confiança
De poder ficar liberto.

A dívida é de milhões
Mesmo sem mais adições,
(Que por vezes está oculta,)
Esperemos que estes “barões”
Tenham as afinações
P'ra amainar a catadupa.

Resta agora ao Zé-povinho
Engolir, mas de mansinho,
O espaço temporal.
Que não fique cansadinho,
Depois de tanto bailinho,
E não veja o arraial…
 
E ASSIM VAMOS CANTANDO E RINDO…

A RUA DO BREJO ALEGRE - BROOKLIN (S.PAULO)

 
BROOKLIN - S. PAULO

A RUA DO BREJO ALEGRE

Naquela rua onde vejo os aviões
Sem haver lugar p’r’a nostalgia,
Vive-se o medo e até as aflições
Mas a fé de surgirem melhores dias.

É o caos do barulho infernal:
Carros, motos, gente em agonia,
A correria para as compras de Natal,
Os assaltos, mesmo ali, à luz do dia.

É parte da S. Paulo, de acolhimento,
Na grandeza da paixão e sem vaidade
A que põe de lado o sofrimento
Aquela que me obriga a ter saudade.

É a “Brejo” desprovida de tristezas
É “Alegre”, e assim é conhecida
É a gente boa, de amor e gentilezas
Que no-la faz amar como a vida.
 
A RUA DO BREJO ALEGRE - BROOKLIN (S.PAULO)

ASSIM HÁ NATAL

 
Auscultei o coração duma criança
Sorria! Disse-lhe que era Natal.
Sabia! E num gesto de aliança,
Imperativo e com toda a confiança,
Me disse em doce voz fraternal:

Há Natal porque vejo perseverança
Acções que me levam a ter esperança

Nada disse! Calei o meu torpor
Ainda que co'o meu cheio de dor.
Também quero "Natais" duma criança
Alicerçados na fé, na paz e esperança,
Libertados do caos pelo AMOR.
 
ASSIM HÁ NATAL

SONHO DA ÍNDIA

 
SONHO DA ÍNDIA

Em sonho de fantasia,
Em velas que o vento impelia
Sobre o mar pacificador
Eu cheguei à Oceania,
Sempre em grande euforia
Para ver um outro amor.

Vi o pôr-do-sol no horizonte
Mesmo ali, quase defronte
Da areia ao meu redor.
Na Índia subi um monte,
Tendo Vedas como fonte
Inspirei-me com fervor.

Ramayana me levou
Como o príncipe noutras eras
Venci escolhos e mares
Pus o Ravana em terra.

Kalidasa me mostrou
Sakuntala e seu actos,
Que Goethe admirou
Como romântico intacto.

Pedi às nuvens também,
Tal Meghaduta um dia,
Que me levassem além
P’r’a Ilha da Fantasia.

Queria ver o tal yaksha
E a corte do seu deus
Mas logo termina a marcha
Por trovão me chama Zeus.
 
 SONHO DA ÍNDIA

APELO AO ALCAIDE - por Joaquim Monteiro Filho

 
Origem deste apelo: "A Lusitana" Empresa de Mudanças, Transportes e Guarda-Móveis, fundada em 1921 pelo com. Joaquim Monteiro, cidadão português, na capital do Estado de S.Paulo, pelo descortino empresarial e a índole pioneira que sempre sobraçou, aliada a uma inteligência ávida por aprender e inovar, instalou os escritórios centrais em imponente prédio no coração da megalópolis paulista. A configuração era local ideal para abrigadouro de numeroso grupo de criaturas sem lar que se serviam do local guarnecido por enormes pilastras cobertas por lage. Ao amanhecer o cenário era constrangedor e repugnante. Sujidade por toda a fachada e sobretudo no acesso às instalações; eram dejetos alimentares, produtos de necessidades fisiológicas, escombros de barracas de papelão...Em meio a este descalabro um odor fétido que afastava os peões para o outro lado da via pública. Diante de tanta imundície restava-nos a obrigação sanitária de colaborar com a saúde pública e com a boa aparência do sítio. Para tanto incumbiu-se uma faxineita para que procedesse a higienização necessária, dando ela início aos trabalhos às 06,30 horas da manhã poupando transtornos aos passantes e usuários dos nossos serviços. Eis quando fomos apanhados de surpresa por um fiscal da Câmara em meio da faxina, lançando-nos uma coima de todo injusta e impertinente. Diante do "flagrante" de que estávamos a poluir a calçada com água servida, flagrante inverdade, resolvi dirigir-me poeticamente ao prefeito, à altura o Dr. Jânio da Silva Quadros.

ROGO AO ALCAIDE JUSTO

Doutor Jânio, bom prefeito
Desta cidade-nação
Bem árdua sua missão:
Que tudo vingue perfeito.

Vénia peço ao que lhe digo
Nesta história que maldigo:
"Dia radiante, propício
Não prometia estropício.

A zelosa faxineira
Desta firma, tão ligeira,
Prestimosa foi limpar
Do meu passeio a sujeira.

Com água, boa vassoura
Mais o gosto pelo asseio
Foi à luta sem receio
Com a garra d'uma moura.

De ver que limpa, inteira
Ficou brilhando a passagem:
Veja o que fez a lavagem
Deixa a visão mais faceira.

Eis que do burgo um vistor
Se insurge com a limpeza
E zás, com louca presteza
Lança da multa o valor.

A mim causou-me tristeza
Ver minha firma apenada
Por fato que não é nada
Por ato são, é certeza.

Faça justiça eu lhe rogo
P'ra não perder minha crença
Mate essa fera sentença
Que a grande mágoa eu afogo".

Respeitosamente
Joaquim Monteiro Filho
Diretor
 
APELO AO ALCAIDE - por Joaquim Monteiro Filho

ESPERANÇA DE NATAL

 
ESPERANÇA DE NATAL

Noite de Natal! Mais uma. Chegou e vai!
Sempre como fugaz luz de encantamento,
Reúne amigos, mas como o mar se espraia
No areal vazio do nosso pensamento.

Noite de Natal! Mais uma. Chegou e vai!
Inerte, dócil, pobrezinha, sem alento…
Amarguras que carrega sempre aos ais,
Por ver lágrimas neste mar de sofrimento.

Palavras vãs encerram em si este momento;
De oca retórica o mundo inteiro está,
Nunca é, porém, demais gritar nossos lamentos,

Quem sabe? Nova geração mais Sol trará.
É esperança p’ra alegrar nossa plangência.
É confiança ímpar no Homem de amanhã.
 
ESPERANÇA DE NATAL

O VELHO NEGRILHO

 
O VELHO NEGRILHO

Ó velho e portentoso negrilho,
Carcomido pelo tempo que passou,
Guardião de tão nobres pecadilhos
Sussurrados pela voz de quem amou.

Ulmeiro onde os pássaros fazem ninho
Com o carinho que a Natureza dotou,
Também dás sombra ao cansado andarilho,
Que do árduo trabalho retornou.

Do alto da praça, imponente,
Dás conta dos mexericos,
Vês uma estrela cadente
Numa noite de fuxicos.

E logo ao romper da aurora
A teus pés se vai sentar
Aquela gente censora
Que a turba quer acirrar.

Ouves o bem e o mal
Nessa aldeia de Formil,
Poderia ser em Rabal,
Ambas são de encantos mil.
 
O VELHO NEGRILHO

O CONVERTIDO

 
(Pum!...)

“Fui atingido”.

Continuou a andar resguardado pelo capim seco e cortante.

“Devo ter-me afastado do grupo quando rebentou a primeira granada. Há quantas horas isto começou?”

(Pum!...)

“Os gajos não param a morteirada”...

Mal conseguia deslocar-se.O camuflado transformara-se numa couraça penosa pela aderência da terra, ora barrenta ora negra, ao lago vagueante em que o seu corpo se convertera. O quépi há muito havia desaparecido da cabeça e agora sentia as ferroadas dos milhentos insectos que povoavam a atmosfera. O calor, dum céu encoberto e pesado, e a humidade visível e percuciente, asfixiavam; as forças começavam a faltar-lhe.

(Pum!...)

Cada vez mais perto ouvia o ribombar dos petardos do inimigo, conhecia-o bem, e não entendia a falta de réplica dos seus camaradas.

“Será que foram todos dizimados? Não pode ser”.

O medo apoderava-se de si, não obstante ufanar-se de ser um “comando” experiente com um baptismo de fogo perdido no tempo. Alistara-se como voluntário. Não tanto pela sua índole beligerante, mais pelas dificuldades em conseguir empregar-se na pequena aldeia onde nascera. Afinal antecipara em dois anos o seu ingresso no exército. Ninguém escapava ao serviço militar e com o curso do liceu concluído não vislumbrou outra alternativa para se iniciar na vida como independente. Sabia do sacrifício dos pais, pequenos lavradores caseiros, para o manterem nos estudos. Concorrera a copista da Câmara do concelho, mas à pergunta sacramental sobre a situação militar, viu de imediato fechar-se-lhe a porta sem quaisquer explicações.

Tentou descansar, sentiu, porém, o restolho de algo que deslizava atrás. Desviou-se um pouco, não podia arriscar. O denso capim impedia-o de identificar o que quer que fosse. Poderia tratar-se do inimigo na sua peugada. As forças estavam a abandoná-lo irremediavelmente. Já não pensava; apenas um instinto de sobrevivência o animava. A razão fugia-lhe.

“Mais um esforço”, parecia ouvir.

E aquela massa pícea arrastando-se agora na bolanha que dava continuidade ao capinzal, estagnou. O lamaçal que se seguia era aterrador, mas um certo frescor de humidade sob o corpo devolveu-lhe algum alento. Escorregou para o arrozal e chafurdou-se no húmus. Tinha sede! Já com as mãos em forma de concha para beber aquele pestilento líquido lembrou-se pela primeira vez do cantil. Apalpou-se. Ali estava, decomposto na sua forma, mas intacto no conteúdo. Virou-se de costas e tentou soerguer a cabeça. O pescoço não correspondia; achava-se hirto.

“Estou estropiado, devem ter-me atingido na coluna”.

Num esforço desesperante alcançou-o com a mão direita e o que encontrou fê-lo entreabir os lábios numa espécie de sorriso, amargo como o fel, um esgar de dor e confusão, contudo indelével atenuante ao atroz sofrimento que o envolvia. A barrenta terra havia aderido ao suor em camadas sucessivas e juntamente com a lama em contacto com o quente ar tropical formara-se um grotesco colar cervical que lhe paralisava os movimentos da parte superior do corpo. Ciente da situação enterrou a seu lado, de pé, a coronha da “G-3” e encetou alguns movimentos laterais contra o cano da arma, que logo fragmentou a matéria.

Então bebeu! Não sofregamente, de acordo com os conhecimentos adquiridos, mas com a possível parcimónia duma ressequida garganta à beira da sufocação. Deixou-se ficar uns instantes naquela posição de descanso, todavia...

(Pum!...)

“Mas isto não tem mais fim?”

Preparou-se para iniciar um penoso engatinhar, joelhos e cotovelos na lama, a “G-3” à deriva numa e noutra mãos, o cantil, até ali incógnito, começava a estorvar-lhe o já de si caricato deslocamento. Olhou à sua frente mais uma vez, mas naquela peculiar postura de quadrúpede desalentado, via-se unicamente como um ser abjecto, entregue ao seu próprio destino. Circundavam-no gigantescos caules amarelecidos à espera de foice ou catana e rematados por frondosas espigas de arroz, espessa cortina a desorientar a mais ténue estimativa sobre o caminho que o levasse a porto seguro. Fixou-se naquelas gramíneas e deixou deambular o seu pensamento pelas origens, pelos campos abundantes do seu Ribatejo. E pensou nos pais, nos irmãos, nos amigos; no seu amigo “Barca”, companheiro e confidente de tropa, destacado como ele em terras da Guiné, um melancólico que lhe falava tanto na terra e lha descrevia com tais pormenores que ele próprio já a conhecia sem nunca ali ter assomado. Depois de se deliciar com uns dias na sua aldeia e extasiar-se com a convivência da família e amigos a primeira visita seria para o “Barca”, já lho havia prometido, e para a irmã deste, a Tocas, sua madrinha de guerra por apresentação do irmão. Escolheria a altura das festas, que o amigo lhe dizia serem das mais bonitas do Minho. Mas isso ainda demoraria. A comissão, a segunda, estava a meio. Pensou... pensou... Pensou naquela maldita guerra, que já lhe levara alguns amigos, e invectivou a decisão do seu voluntariado.

“Estou a ficar maluco”...

Nunca lhe acudiram tantas reflexões e o seu depauperado intelecto era agora albergue das mais estapafúrdias fantasias. Tentou desprezá-las, mas sobreveio-lhe, para maior infortúnio, uma certeza por demais evidente: Sentia fome! O cérebro, manhoso como só ele, consegue maneira de esquivar-se a pressões externas, mas o hipotálamo não lhe dava hipóteses. Há muito que o estômago reclamava e agora passava a constituir permanente obsessão. Havia perdido a noção do tempo, todavia há largas horas que sobrevivia à fatal emboscada. A ração de combate desaparecera na sofreguidão dos primeiros tiros, quando foi necessário abandonar a mochila e ainda supunha que, como de costume, eram favas contadas o rápido controle das operações. Só que desta vez as forças inimigas, além de numerosas, foram demasiado velozes na tomada de posições deixando-lhe, e aos seus homens, providencialmente, apenas uma nesga de terreno com alguma segurança. Gritara ordens para abrigo e a partir daí nunca mais ouvira o metralhar das suas armas. Era a batalha mãe da sua vida, com o inimigo poderosamente armado e técnica de guerrilha avançada.

Voltou a sentir o mesmo rastejo a seu lado, a uns dez metros de distância. Por não correr a mais leve brisa facilmente se apercebia do cuidadoso deslocamento do ser que lhe pedia meças.

“Querem apanhar-me vivo”...

Lembrou-se então dos horrores passados por outros camaradas capturados pelo inimigo e mais uma vez se arrependeu não ter seguido o caminho dos que se negaram, fugindo, ao cumprimento do serviço nas fileiras.

“Parar será o meu fim”.

Prestes a desmaiar arrastou-se mais uns metros bolanha adentro, até que encontrou terreno seco. Começava a floresta; densa, misteriosa, intransponível, contudo paradigma de oásis para a sua recuperação. Conhecia toda a espécie de raízes e frutos silvestres capazes de o revigorar. A noite aproximava-se.

“Que é o que vejo? Estou perdido, nada me salvará”.

A escassos vinte metros, em posição de investida, entre o tronco e o galho mais baixo de um copioso ébano, a temível onça-preta preparava-se para uma lauta refeição. Acompanhara-o em todo o percurso; paciente, traiçoeira. O perspicaz e velhaco felídeo conhecia o terreno que pisava. Estava no seu habitat. Não deixaria escapar a sua presa.

Completamente abandonado, sem forças, a mente confusa, o miliciano Abecassis, num primeiro impulso, levou a mão à “G-3” e preparou-se para apontar.

“Não faças isso! Não vês que logo serás descoberto?”, gritou-lhe o subconsciente.

Recordou a última carta da madrinha de guerra, que considerava há muito a sua namorada, não obstante pretender formalizar essa situação numa visita pessoal a terras do Minho se conseguisse voltar a Portugal; a ternura com que lhe falava nas últimas festas da sua vila, verdadeiro manancial literário de narrativa, quais figuras impressas na celulóide dos grandes realizadores. Como devia ser bonita a terra do “Barca”. A ênfase que a Tocas colocava na “majestosa” , como ela dizia, procissão em honra de Santo...

“Santo Quê?”...

Não conseguia recordar. Salvo o nome dos santos mais populares, o Abecassis não conhecia nada de Igreja.

“Mas é a esse Santo sem nome que eu peço a sua intercepção para me salvar, com a promessa de me converter”.

E pediu com fé, ajoelhando-se num supremo esforço, acto que praticava pela primeira vez na sua vida.

(Pum!...)

Estávamos em Agosto. O despertador tocou! O Abecassis sobressaltou-se na cama da pensão onde se hospedara na noite anterior. Meio estremunhado passou as mãos pelo rosto, coberto de suores frios.

“Maldito pesadelo, que voltou a apoquentar-me”.

Tinha chegado da Guiné há cinco dias e depois duma passagem pelo Ribatejo ali estava na terra do “Barca” para pedir a mão da Tocas e agradecer a S.Bartolomeu.

(Pum!...)

Era o último foguete da salva anunciadora da romaria.
 
O CONVERTIDO

natal...sempre

 
NATAL… SEMPRE!

Quero abraçar o Mundo,
Do fundo
Do meu coração,
Irmão;
Rasgar a terra,
Que medra,
Para a fome saciar,
A amar;
Quero perdoar
E honrar,
Enaltecer os homens bons,
Com dons;
Retirar a dor,
Com amor;
Perdoar aos incautos,
Infaustos,
E esquecer o mal
Como sinal
De que o Homem é feliz
Com bis,
Fazendo do seu peregrinar,
NATAL!
 
natal...sempre

NÃO HÁ MAGOS P’RA BELÉM

 
Uma voz profunda, penetrante,
Numa noite de trevas me assaltou
Em sonho de cariz apavorante,
De terror insidioso e assim falou:

“Já não há estrelas no Céu
Nem há magos p’ra Belém
Há um negro e denso véu
Que se olha com desdém”.

É o mundo enfermo, agonizante,
Enlodado pelo monstro que criou
Desemprego… e a fome causticante
Miséria que “ algum poder” aceitou.

Protestos estridentes se levantam
Também vozes maviosas em coral
É desespero dos que ainda se agigantam
São crianças a pedir um Bom Natal.

E no dia de tão grande esplendor
Que a paz enche o nosso coração
Demos fora ao tal monstro agressor
Enxotemo-lo deste mundo de aflição.

Pela fé, pela esperança que nos guia
Irmanados devemos dar as mãos
Não ficar por retórica de nostalgia
Ajudando com amor e elevação.
Braga, Natal de 2011
J. D. Lima Oliveira
 
                                  NÃO HÁ MAGOS P’RA BELÉM