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| Pablo Neruda : A Essência da Poesia |
| em 20/06/2012 22:34:54 (1140 leituras) |
 Não aprendi nos livros qualquer receita para a composição de um poema; e não deixarei impresso, por meu turno, nem sequer um conselho, modo ou estilo para que os novos poetas recebam de mim alguma gota de suposta sabedoria. Se narrei neste discurso alguns sucessos do passado, se revivi um nunca esquecido relato nesta ocasião e neste lugar tão diferentes do sucedido, é porque durante a minha vida encontrei sempre em alguma parte a asseveração necessária, a fórmula que me aguardava, não para se endurecer nas minhas palavras, mas para me explicar a mim próprio. Encontrei, naquela longa jornada, as doses necessárias para a formação do poema. Ali me foram dadas as contribuições da terra e da alma. E penso que a poesia é uma acção passageira ou solene em que entram em doses medidas a solidão e solidariedade, o sentimento e a acção, a intimidade da própria pessoa, a intimidade do homem e a revelação secreta da Natureza. E penso com não menor fé que tudo se apoia - o homem e a sua sombra, o homem e a sua atitude, o homem e a sua poesia - numa comunidade cada vez mais extensa, num exercício que integrará para sempre em nós a realidade e os sonhos, pois assim os une e confunde. E digo igualmente que não sei, depois de tantos anos, se aquelas lições que recebi ao cruzar um rio vertiginoso, ao dançar em torno do crânio de uma vaca, ao banhar os pés na água purificadora das mais elevadas regiões, digo que não sei se aquilo saía de mim mesmo para se comunicar depois a muitos outros seres ou era a mensagem que os outros homens me enviavam como exigência ou embrazamento. Não sei se aquilo o vivi ou escrevi, não sei se foram verdade ou poesia, transição ou eternidade, os versos que experimentei naquele momento, as experiências que cantei mais tarde. De tudo aquilo, amigos, surge um ensinamento que o poeta deve aprender dos outros homens. Não há solidão inexpugnável. Todos os caminhos conduzem ao mesmo ponto: à comunicação do que somos. E é necessário atravessar a solidão e aspereza, a incomunicação e o silêncio para chegar ao recinto mágico em que podemos dançar com hesitação ou cantar com melancolia, mas nessa dança ou nessa canção acham-se consumados os mais antigos ritos da consciência; da consciência de serem homens e de acreditarem num destino comum.
Pablo Neruda, in "Nasci para Nascer" (Discurso na entrega do Prémio Nobel) |
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Os comentários são de propriedade de seus respectivos autores. Não somos responsáveis pelo seu conteúdo.
| Enviado por |
Tópico |
| CarlosTeixeiraLuis |
Publicado: 22/06/2012 09:12 Atualizado: 22/06/2012 09:12 |
Colaborador   Usuário desde: 02/06/2008 Localidade: Lisboa (arredores) Mensagens: 1044 |
 Re: A Essência da Poesia Belíssimo texto. Não conhecia. Fiquei mais enriquecido e a saber menos de poesia do que sabia antes. Vamos sempre tomando consciência cada vez mais da nossa pequenez.
Grato por esta pesquisa, Helen.
Um abraço.
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| Enviado por |
Tópico |
| HelenDeRose |
Publicado: 25/06/2012 00:02 Atualizado: 25/06/2012 00:02 |
Colaborador   Usuário desde: 06/08/2009 Localidade: Sorocaba - SP - Brasil Mensagens: 1831 |
 Re: A Essência da Poesia Agradeço por ter vindo, Carlos.
Pesquisando, parece que os textos nos encontram.
Até mais ler...
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