Contos : 

Contos do Adeus

 
Nunca ninguém lhe mostrou como é lindo um pôr do sol. Ela foi a única a penetrar na couraça amarga que o detinha. Ela... Dormindo sonhou com ela, o sono pesado da embriaguez foi sendo devassado por ela, linda, quase etérea. Que sorriso! Ela sorria-lhe de longe, braços estendidos, dizendo:
- Vem amor, espero-te na ponte das barcas velhas. - acordou sobressaltado, a saliva escorrendo pela boca azeda. Pensou no sonho, parecia tão real, tão próximo de si. Seria uma premonição?
Sentiu-se idiota por pensar em tal coisa, mas no seu íntimo algo lhe dizia que estava na hora de sair de casa e descobrir aquele mistério.
Tomou um banho, vestiu-se e saiu. Só quando chegou à rua é que se apercebeu que não sabia onde ficava a ponte das barcas velhas. Correu para a praça e perguntou a quantos encontrou e ninguém sabia, olhavam-no como louco e era mesmo assim que se sentia, desatinado, enlouquecido. Sentou-se à beira da fonte e fechou os olhos, deixando a imagem do sonho materializar-se na sua mente, viu-a novamente, tremeluzindo contra a luz. Bela... Olhou através dela e descortinou a ponte, e as barcas. Abriu os olhos e riu da sua estupidez. Sabia onde ficava a ponte, mas o nome pelo qual a conhecia era diferente... A Ponte dos Lamentos...
Correu até lá chegar e quando as suas mão tocaram a ponte a noite já caía, lançando as suas teias de veludo nas sombras. Andou até ao meio da ponte e olhou as águas pseudo-calmas por baixo dela. Foi então que a escutou, uma voz doce e quente:
- Por que esperas? Estou aqui... Vem abraçar-me, vem! - ele reclinou-se mais na ponte, procurando a voz. Mais e mais até subir para as travessas de madeira pútrida. As rachas da madeira pareciam crepitar com o peso.Deu impulso e saltou, logo sentindo a água gélida na pele. Mergulhou até onde pôde, sentindo os pulmões quase a rebentar...e viu-a! Mas teve de voltar à superfície antes que perdesse todo o fôlego. Quedou-se ali por segundos, boiando e pensando no que vira. Ela estava ali, depois de tanto tempo, depois de tantas buscas...reconhecia o vestido branco, agitando-se no fundo da água revolta. A sua noiva estava no fundo do rio, esperando por ele, finalmente poderia ficar juntos. Não mais teria de beber até entorpecer os sentidos, não mais existiriam dúvidas na sua mente...ela não tinha fugido com outro, não o tinha abandonado...ela estava Morta!


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Autor
Maroska
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1806
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