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Poemas : 

Confissões

 
Esse tipo de poesia que as pessoas insistem em não reconhecer
É o que mais alegra minha vida
É o que mais me salva de afogar-me em lágrimas e rotinas
E é quando fumo por entre os prédios escuros da cidade
Cidade iluminada pelo meu cigarro e pelo neon dos anjos
Que mais sentido eu invento para os meus dias que passam tal qual teus beijos em minha boca

Já provei gostos estranhos
Senti toda a angústia de pensar no futuro e no infinito
E o que me sobrou foi apenas a possibilidade de escrever versos para que quando alguém os leia
Sinta na pele como construo a sintaxe plebeia e rude da minha vida
Vida que apesar de triste e muitas vezes melodramática
Fez-me provar todo o sabor do orgasmo divino e da pena eterna

Tenho saudade dos teus fios de cabelo donde podia imaginar teias belas para o nosso texto
Agora restaram-me dores e silêncios de um timbre ainda inédito
Desses que raramente provamos
(Do tipo que só sentimos quando estamos cara a cara com a morte)
Sobraram-me também textos incompletos
Poemas e rascunhos que fazem todo sentido apesar de possíveis anacronismos e utopias

Sou imperfeito em tudo que faço
E de toda essa imperfeição tiro reflexões e parábolas para o mistério profundo que me grita cada pôr-do-sol
Invento Odisséias místicas para mim mesmo em cada chuva e tempestade que enfrento

Tenho memórias que não cabem na minha vida e nas minhas lembranças
Tenho mais eternidades do que as que o relógio e o calendário juram-lhe que posso ter
Cada pessoa com que cruzo na rua me pertence de um jeito estranho demais para definir
Garanto que não sou indiferente a menor criatura que encontro pelo caminho
Estou atento a todos os detalhes

Só a minha desatenção me garante um pouco de esperança
Apesar de saber que tudo que as pessoas valorizam é vazio e efêmero
E que a verdadeira felicidade é aquela que mais nos engana e maltrata
Que a dor e o conhecimento são sim formas de se alcançar o inatingível
E só enfrentando o lado escuro e pobre do mundo
Podemos entender todo o encanto das estrelas no céu
Da luz do cigarro por entre meus dentes solitário
Do temor de ser limitado por minha própria vontade
De não saber como terminar vidas e frases
Misturando com o vinho de minhas lágrimas versos períodos orações xingamentos estrofes sintagmas rimas saudades


 
Autor
ferlumbras
 
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