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O sumiço do Santo casamenteiro

 
 
O sumiço do Santo casamenteiro
 
O sumiço do Santo casamenteiro.

Elen de Moraes Kochman

Procuro impaciente a foto do meu Santinho casamenteiro. Desde o divórcio – faz tempo! – minha Advogada colocou-a na minha carteira. Reviro bolsas, gavetas e não a encontro. Sumiu! O Santo se escondeu, talvez, exausto de interceder pelos solitários. Embora não creia que me vá arranjar marido, não quero sair de casa sem ele, logo hoje no seu dia – dos namorados – mas vejo que é o jeito!

Com o tempo, a gente se apega às manias: sempre ando duas quadras antes de entrar num táxi. Não gosto que saibam onde moro. O motorista, um senhor simpático, muito perfumado àquela hora da manhã, fala mais do que dirige, embora sua conversa seja agradável. Enquanto fala, olha-me pelo retrovisor e acho aqueles olhos os mais azuis que já vi. Azuis ou verdes? Não confiro, porque o homem pode pensar que correspondo ao seu flerte. Que palavra antiga! Será que os jovens usam-na quando olham para alguém, com interesse, insistentemente, tantas vezes, até que tenham certeza de serem correspondidos?

Paramos em frente a um centro comercial. Pago a corrida. O motorista estende a mão com um cartão. Comenta que é seu telefone, se precisar de um táxi. Pego, agradeço e ele diz que é para o caso, também, se precisar de um amigo para tomar um vinho. Grande namorador! Olho para sua aliança e jogo o cartão no banco, dizendo-lhe para levar rosas à esposa.

O movimento é intenso. Em meio a tantos casais abraçados, pareço barata tonta vagando pelos corredores. Não sei o que faço ali. Se admitisse, diria que saí de casa com a esperança de conhecer alguém especial. Cansada, o sapato de salto alto, que uso raramente, incomoda-me. Dirijo-me à praça de alimentação para dar uma trégua aos pés e um agrado ao estomago. Sento-me, olho em volta e um susto me acelera o coração: Virgem Santa, quantas mulheres sozinhas tiveram a mesma ideia! Jesus, cadê os homens! Os mais moços, no trabalho, certamente. E os bem mais velhos, aposentados, em casa, vendo TV, na internet, adoentados ou já partiram mesmo, desta para melhor. Pasma, perco a fome. Levanto-me e saio.

No andar de baixo um casal me pede para responder uma enquete para sua agência de publicidade, que pesquisa o presente que uma mulher, na minha faixa etária, gostaria de receber no dia dos namorados. – Um namorado! Respondo e os deixo sorrindo. Penso sobre o que gostaria de ganhar e concluo que, já que namorado não vai ser, uma sandália rasteirinha, que me deixe com os dedos à vontade, será um presente dos deuses. Entro numa sapataria, sento-me, tiro os sapatos, estico as pernas como se estivesse em casa e flexiono os dedos martirizados. Como é gostosa a liberdade! Danem-se as regras sociais.

Uma voz masculina pergunta-me o que desejo e me traz à realidade. Solícito, mostra-me vários modelos. Impressão ou ele acaricia meus pés enquanto me ajuda a calçá-las? Credo, que imaginação! Porém sinto que o sangue devolve vida às minhas pernas e espanto-me com meus pensamentos. Pago, saio e volto a cabeça para olhar o funcionário: minhas dúvidas se confirmam vendo seu olhar maroto. À noite ele terá divertidas histórias e muitas fanfarronices para contar aos amigos.

Já não aguento andar e não quero voltar para casa. Entro numa das salas de cinema. É cedo para a primeira sessão, mas estão abertas. Compro chocolate e pipoca, acomodo-me num ótimo lugar, recosto a cabeça e fecho os olhos. Alguém toca meus ombros. Olho para trás e um senhor pergunta-me se pode sentar-se ao meu lado, para conversarmos. Não respondo. Ele insiste. Diz que faltam uns quinze minutos para iniciar o filme e que podemos passar o tempo nos conhecendo. Sem esperar resposta, dá a volta, quase se joga no assento e antes que eu reclame, diz sorrindo, mostrando bonitos dentes: - Hoje desisti de esperar a morte em casa. Decidi sair e arrumar uma namorada.

A “cantada” é diferente, mas um tanto mórbida. Olho-o com o rabo dos olhos e deduzo que não parece ser um tipo mulherengo. Vá saber! Deve ter entre setenta e oitenta anos. Maliciosa, me questiono se ele ainda namora.
O homem pede que eu fale alguma coisa. Corto o silêncio:
- Casado?
- Não!
- Mentiroso?
- Não! E você, o que faz aqui hoje?
- Vim comprar uma sandália – E mostro meus pés.
- Mentirosa? – Não respondo.
Rimos muito e nos apresentamos.

(Será mera coincidência qualquer semelhança da vida de alguém com este conto)



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elendemoraes
 
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Enviado por Tópico
Sterea
Publicado: 01/07/2013 22:19  Atualizado: 01/07/2013 22:19
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Mensagens: 3397
 Re: O sumiço do Santo casamenteiro
Numa escrita irrepreensível e fluída, um conto que nos faz sorrir, pensar... e até sonhar! Valha-me Sant'antónio, porque só nos és festa uma vez por ano...!?

Beijinho, Elen


Enviado por Tópico
geraldocoelho
Publicado: 03/09/2016 19:26  Atualizado: 03/09/2016 19:26
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 Re: O sumiço do Santo casamenteiro
Pairou-me a dúvida: o "santo" ajudou ou não?...Espero que sim, principalmente depois de ler tão agradável e simpático conto!...
Gostei da narrativa e da forma como o fizeste; portanto recebe meus aplausos seguidos de beijos mui carinhosamente fraternos.


Enviado por Tópico
visitante
Publicado: 03/09/2016 22:36  Atualizado: 03/09/2016 22:36
 Re: O sumiço do Santo casamenteiro
Sublime texto poetisa Elendemoraes,
Me fez rir..

Muito parabéns.
Incrível!!
Abraço de Maria Laís!


Enviado por Tópico
Jmattos
Publicado: 10/09/2016 02:58  Atualizado: 10/09/2016 02:58
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Mensagens: 16189
 Re: O sumiço do Santo casamenteiro
Elen
Hilário! Sorri demais aqui! Rsrs
Beijos!
Janna