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Biografia de Maria Flávia de Monsaraz por Ricardo Louro

 
Biografia de Maria Flávia de Monsaraz por Ricardo Louro
 
Maria Flávia de Monsaraz nasceu a 23 de Novembro de 1935 em Madrid em vésperas de revolução. Neta de António de Macedo Papança, 1º Conde de Monsaraz e de D. Amélia Augusta Simões de Monsaraz. Filha de Alberto de Monsaraz, 2º Conde de Monsaraz e de D. Maria Luísa Corsino Caldeira de Monsaraz. Irmã mais velha de António Duarte de Monsaraz, 3º Conde de Monsaraz.
Maria Flávia é, por linhagem, a 1ª Condessa de Monsaraz. Fiel à visão contestativa do Conde de Monsaraz seu avô, que enquanto Universitário se identificara com os movimentos de “esquerda” da época, também Maria Flávia considera que teve o seu “baptismo” de esquerda ao identificar-se com os discursos inteligentes e contestativos do Dr. Jorge Sampaio, quando, ainda jovem, falava aos estudantes, denunciado a política em curso nas greves Universitárias de 1963. Grande parte da sua Vida interior foi “velada” por um sentimento de desadaptação Social que a levou mais tarde, já em Paris, a empatizar com os movimentos revolucionários Portugueses que lá se encontravam.
Estava-se em plena guerra Colonial no tempo de Salazar. Foram experiências e reflexões que a levaram a ganhar consciência da realidade portuguesa do Tempo e da profunda ligação que sempre sentiu e sente a Portugal. Pela confrontação com uma Europa intelectualmente desenvolvida mas pouco calorosa e sensível, da qual se encontrava próxima, despertou para uma visão mais lúcida e objectiva das dificuldades e grandes qualidades do País que é o seu. A distância facilitava...

A infância passou-a tranquila, no Estoril, onde viveu até aos 10 anos de idade, sem grandes oscilações emocionais. Na companhia do seu irmão e de seus pais, sob o olhar inteligente e atento da sua avó Amélia, Condessa de Monsaraz, com quem sempre manteve uma relação íntima e afectuosa.
Com 10 anos, e porque a continuidade dos estudos assim o exigiu, a família mudou-se para Lisboa. Deixou a sua casa de infância, que nos anos 40, o Tempo de uma Europa em Guerra, tão bem a tinha protegido e onde pensou nunca mais voltar!
A mesma casa que 50 anos depois lhe foi “devolvida” pelas Vias “mágicas” do seu Destino…
Em Lisboa, tirou, num colégio particular e sem grande entusiasmo, o liceu comum. Até que impulsionada por seu Pai, resolveu formar-se em Escultura na ESBAL, Escola Superior de Belas Artes de Lisboa.
Quando confrontada com o mundo da Criatividade, Maria Flávia, sentiu-se verdadeiramente em casa, formando-se com 19 valores na Tese que apresentou.

“Menina com Pássaros”
Tese de fim curso da ESBAL.

Foi aluna de desenho e escultura do Mestre Leopoldo de Almeida, na altura, professor de Escultura da Escola. Em paralelo, e movida pela necessidade de mais informação, frequentou alguns ateliês de escultores conhecidos como o Mestre Martins Correia e o Mestre Lagoa Henriques. Quando se refere a este último, afirma que foi o Homem com maior sentido estético que conheceu. Acrescenta dever muito ao Mestre Lagoa, pessoa que verdadeiramente a ensinou a ver e a sentir a qualidade das Formas. Qualidade que tanto tem marcado a sua Criatividade e a sua existência. Dos 23 aos 27 anos, foi-lhe dado atravessar o Tempo mais doloroso da sua existência. Num espaço de 5 anos, enquanto vivia em simultâneo um intenso e dramático Amor sem Destino, morreram-lhe seis familiares muito queridos, entre os quais, o Pai e a Avó. Na altura, valeu-lhe a sua já consciente dimensão interior. Âncora Espiritual que a manteve firme e a fazia levantar todos os dias a caminho da Igreja mais próxima, onde, ao comungar, ia buscar a Vida que cá fora achava ter perdido …
Passados anos, houve quem lhe contasse, alguém que trabalhava em frente à Casa onde vivia, a impressão e a estranheza que então lhe causava, ver, cedo pela manhã, uma jovem tão triste, de mantilha e missal, vestida de preto, descer a rua. Absorta, solitária, silenciosa…
A sua espontânea alegria de viver, o Fogo que até então a habitara, tinha-se apagado. Só lhe restava o profundo “vale-de lágrimas” duma existência sem sentido e uma enorme interrogação sobre um Futuro que não sabia inventar! Com 23 anos, em Paz, serenamente, esperava pela morte …
Altura em que Maria Flávia totalmente se identificou com o poema, a Casa desabada de Cecília Meirelles.

Única sobrevivente
de uma casa desabada,
só eu me achava acordada.

E recordo a minha gente,
na noite sem madrugada.
Só eu me achava acordada.

Minha morte é diferente:
eles não souberam nada.
Só eu me achava acordada.

Mas quem sabe o que se sente,
entre ir na casa afundada
e ter ficado acordada?!

Ao reflectir sobre a grande ausência que seu Pai deixara, Maria Flávia apercebeu-se que ele tinha sido um poderoso Centro, a força que fazia “girar” a roda que era a família. E escreveu:

“A família protege profundamente a Vida…
A família protege profundamente “da” Vida…”

Quando acabou o Curso, seguiram-se dois anos muito isolados. Fechou-se num espaço onde dava algumas aulas de desenho e trabalhava em escultura, esperando que a arte lhe devolvesse tudo o que lhe faltava. Expectativa que mais tarde denunciou:

Arte, ilusão-de-absoluto.

“Arte é coisa parecida
com a Vida, mas não-Vida.
À margem, contida
numa forma-fechada.
Forma parada, imagem,
pedaço de tela ou de papel
em que demais se acredita.
Aquele que recebe o cansaço
e a escrita de noites
afiadas de espanto!
Quando tudo se cala e apenas fica
“Isso”, que dentro habita…”

Junho de 1961

Assim viveu a sua ausência de Fogo, isso a que vulgarmente se chama depressão. Pela primeira vez, denunciou o doloroso “vazio lunar” que habita as profundezas de todo o Ser Humano. Mais tarde, abriu um ateliê em Campo de Ourique com Carmo D’Orey que, tinha sido sua aluna em escultura, e com Manuel e Graça Costa Cabral, seus amigos de sempre. Atelier, único espaço onde verdadeiramente se sentiu ”em Casa”, ao voltar de Paris. Leccionou 2 anos na Escola António Arroio que “trocou” por uma bolsa de estudos concedida pela Fundação Gulbenkian. Essa bolsa destinava-se a frequentar o estágio correspondente ao último ano das Art-Déco, Escola Superior de Artes Decorativas de Paris, que na época oferecia, aos alunos estrangeiros já formados, a possibilidade de o frequentar.
Ao deixar Portugal com 27 anos, fechou definitivamente o seu primeiro ciclo de Vida. Saiu da JUC, Juventude Universitária Católica, de que tinha sido presidente na ESBAL. Na mesma ocasião, afastou-se da estrutura dogmática da Igreja Católica, permanecendo Fiel à Mensagem de Amor de Jesus Cristo. Foi a sua primeira e voluntária opção, que a obrigou a definir-se na grande “encruzilhada” do seu livre-arbítrio. Difícil, profunda e dolorosa decisão: como se vivesse uma nova experiência de morte, desta vez, a de uma outra grande Família. Morte por Si “provocada”... Família que, através da Astrologia, voltou a encontrar, pela Consciência de uma solidariedade Cósmica, Planetária e igualmente Cristã.

Parte para Paris em 1963, com o objectivo de permanecer apenas durante o ano da “bolsa” que tinha recebido. Ao fim de um ano realizou que não era possivel voltar a Portugal. Ainda não tinha recúo mental e emocional suficiente para se confrontar novamente com o País de onde tinha saído. Acabou por viver em Paris nos seis anos seguintes. E uma nova fase da sua Vida se iniciou. Um novo Tempo de uma nova Consciência de Liberdade. Fase mais leve, mais liberta e mais criativa, sem o peso da sociedade convencional, relativamente austera, onde tinha nascido. Paris, no início, foi a grande aventura! Uma “terapia de choque”, um salto quântico. Como se a ausência de Liberdade, que sentia dentro, se manifestasse como liberdade quotidiana no Mundo que vivia cá fora. Isso a que hoje Maria Flávia chama “Liberdade no plano horizontal”, que espelha e complementa a “Liberdade no plano Vertical”. Esta nova dimensão de Liberdade define-se por ausência-de-medo e frustração, como Liberdade psíquica e Paz interior.
Ainda em Paris, António Alçada Batista, amigo de longa data, apresentou-lhe um dia José Maria Leite Faria, com quem viria a viver seis anos, pai do seu filho Gil, nascido em Paris, no mês de Agosto de 1967. Nascimento que lhe trouxe um dos momentos mais felizes da sua Vida.

Paris, para Maria Flávia, foi palco de uma dinâmica e formativa experiência política de esquerda. Política de alguma cooperação mas nunca de filiação. O peso e o compromisso da militância Católica a que tinha renunciado, impossibilitava-a para todo o sempre de voltar a comprometer-se com qualquer espécie de militância, grupo ou instituição, antes de saber verdadeiramente quem era. Antes de encontrar as respostas do seu íntimo e voluntário processo de auto-conhecimento, a que Jung chamou, Individuação.
Paris permitiu-lhe, na companhia de José Maria, viajar muito pela Europa. Pequenas viagens de fim-de-semana que lhe ampliaram a sua visão-do-Mundo. Foi num desses passeios que se confrontou em Lausanne com uma grande e revolucionária exposição de Tapeçaria intitulada “La nouvelle Tapisserie”. O impacto desta exposição foi tão intenso que logo assumiu como seu esse novo e original tipo de expressão. Tapeçarias grandes, de volume e relevo, tecidas com toda a espécie de materiais: cordas, fibras, estopas, plásticos, espelhos…
Maria Flávia sentiu a necessidade de religar a Escultura mural à Tapeçaria, introduzindo-lhe a Cor, que tanta falta lhe fazia em Escultura. Nas Belas Artes da época, quem esculpia não aprendia a pintar…
Assim, em 1969, ao regressar a Portugal, trouxe o gérmen desse novo movimento criado, essa tão antiga Arte-de-tecer renovada, que tanto a inspirou. Arte na qual trabalhou regularmente, com grande fidelidade, durante 15 anos, no seu antigo atelier em Campo de Ourique. Foi, na realidade, a pioneira e a Impulsionadora em Portugal de um novo tipo de Tapeçaria, “La nouvelle Tapisserie”, a nova Tapeçaria do século XX. Na companhia da sua actual família, vai morar na Lapa, na Rua do Quelhas. Assume definitivamente o seu destino como artista plástica e inicia um regular e comprometido trabalho em Tapeçaria, com o rigor de um compromisso diário, no seu atelier de campo de Ourique.
Prática Criativa que viria ocupar cerca de 18 anos da sua Vida. Depois de tanto tempo fora, sentiu-se profundamente desadaptada. A escala da cidade, o ritmo da Vida, os interesses das pessoas, tudo lhe parecia estranho. Valeram-lhe alguns bons amigos…
Pouco depois de chegar a Portugal, separa-se de José Maria. Ficou a viver com o filho que sempre esteve consigo neste seu incerto e criativo tempo de Vida, rumo a um Futuro desconhecido, que aos poucos se ia revelando. Em 1974, exactamente três meses antes do 25 de Abril, abre com mais dois sócios, Nicha Vaz da Silva e Tereza Paiva, um bar em Lisboa na Avenida 5 de Outubro, o Metro e Meio.
Bar que atravessou o 25 de Abril: liberal, democrático, sem descriminação de clientes. Políticos, escritores, cineastas, gente da Televisão, artistas vários, jornalistas, nacionais e estrangeiros, todos passaram pelo Metro e Meio…
Na altura foi considerado o bar da Revolução. Espaço onde muita Vida e muita “História” aconteceu! Enquanto à tarde trabalhava, silenciosamente recolhida, fazendo Tapeçaria no seu atelier de campo de Ourique, que sentia como a sua segunda casa, as noites, Maria Flávia passava-as a receber pessoas no Metro e Meio, onde se sentia igualmente em casa. A sua Vida assim organizada durou cerca de 18 anos. No fim dos anos 60, quando ainda em Paris, numas férias passadas em Portugal, a Astrologia, Ensinamento que considera Sagrado, vem ao seu encontro na pessoa de Alberto Vaz da Silva. Amigo que, pela primeira vez, lhe leu o Tema Astrológico e a quem, para sempre, ficou reconhecida. Ao voltar a Paris, procurou livrarias que lhe dessem informação sobre o assunto. Nunca mais parou de estudar. De fascínio em fascínio, de revelação em revelação, de descoberta em descoberta, a Astrologia revolucionou a sua Visão do Mundo e a Consciência que tinha de Si-própria.


Em simultâneo, entre o trabalho do atelier e o Metro e Meio, pode dizer-se que, iniciou, paralelamente, um longo e solitário estudo de Astrologia, situando-se, dentro e fora de Si, numa dimensão mais vasta e abrangente.
Esta primeira etapa de revelação astrológica, levou-a a distanciar-se e até, a nível mais profundo, a isolar-se interiormente numa incomunicabilidade penosa e involuntária. Na altura, ninguém se interessava e até desconsiderava isso que a estava subtilmente a encaminhar para o que viria a ser a plena realização do seu potencial de auto-expressão. Ensinar essa tão Sábia e Intemporal Linguagem dos Astros! Por aquelas insondáveis Vias mágicas que nos transcendem, em 1985, Maria Flávia inaugurou no Rio de Janeiro o primeiro Congresso de Astrologia em língua portuguesa. Aí, pela primeira vez, aceitou falar em público para 600 pessoas. Costuma dizer: “Cuspi um caroço Kármico”. Referindo-se ao “nó-de-medo” de falar em público que até aí lhe prendera a palavra. Foi verdadeiramente um “salto quântico”, salto que lhe abriu o Destino! A partir desse dia, nada mais foi igual. Como diz a canção, “o primeiro dia do resto da nossa Vida“! Foi aí que se comprometeu a fundar o Quiron, Centro Português de Astrologia que hoje propõe sete anos deste Ensinamento.
Ao voltar do Brasil, em 1986, deu as suas primeiras aulas públicas de Astrologia na Avenida 5 de Outubro, na loja Altamira, perto do Metro e Meio. Antes do Quiron existir, deu igualmente um primeiro ano de Astrologia no ar.co, Centro de Arte e Comunicação Visual, criado pelos seus íntimos amigos, Graça e Manel Costa Cabral, do qual é também sócia fundadora. Deu ainda um curso de Astrologia na galeria EMI Valentim de Carvalho, a convite da sua amiga Maria Nobre Franco, casada com Rui Valentim de Carvalho, que, amavelmente lhe disponibilizou uma grande sala de exposições. Em Agosto de 1987 funda o Quiron, Centro Português de Astrologia, na casa da Rua do Quelhas, na Lapa, com mais 11 pessoas, astrólogos e alunos que convidou para esse fim.
Deixou conscientemente o atelier e o que tinha sido o seu trabalho em Tapeçaria durante 15 anos. Sentiu não lhe ser mais possível dedicar-se inteiramente a duas formas tão poderosas de auto-expressão. Privilegiou a Astrologia. Com ela e através dela, podia ser mais útil aos outros. Até aí, essa tinha sido a grande “lacuna”, o “vazio” da sua existência que a Arte não conseguiu preencher. Desta decisão radical nunca se arrependeu. Aguentou ainda por mais cinco anos o Metro e Meio, já a viver em função da Astrologia. Trabalhar, dar aulas e consultas no Quiron, passou a ser o seu quotidiano, a resposta interior e exterior ao seu dia-a-dia. É várias vezes chamada a programas de televisão. Começa a escrever. Conta hoje com vários CD’s editados e vários livros publicados, onde a Astrologia é a abordagem principal das suas profundas reflexões.

Na Mitologia, Quiron simboliza o “Curador ferido”, esse que não tem como curar-se sem curar os outros. Em Astronomia, Quiron é um planetóide ou cometa, definição Astronómica ainda por definir, que circula em torno do Sol, entre as órbitas de Saturno e Urano. Em Astrologia, Saturno simboliza o Tempo e o Passado. Urano simboliza o Espaço e o Futuro. Quiron é a síntese entre o Passado e o Futuro, entre o Tempo e o não-Tempo. Quiron é o Tempo Vertical, o Eterno Presente …

Em conversa, Maria Flávia, contou:

“- Em 1985, quando fui ao Brasil, inaugurei, por razões que me transcendem, o primeiro Congresso de Astrologia em língua Portuguesa. Aí foi-me dito que teria de ser eu a criar, em Portugal, o primeiro Centro de Astrologia. Esta decisão não estava no meu desejo, nem nas minhas aspirações, nem em qualquer outra forma de projecção. No entanto, senti que era a Verdade do meu Destino. Para Portugal, para a divulgação da Astrologia, este Centro era necessário. Mais que necessário, era urgente...

Alguém teria que providenciar para que esta Linguagem Sagrada, milenar, pudesse revelar, a cada um, o rigor do seu dia-a-dia, a sua integração na Ordem do Universo. Saturno transitava então o meu Sol natal, não pude fugir… Assim nasceu o Quíron, em Agosto de 1987. Durante nove anos, cresceu como crescem as sementes: na obscuridade da Terra, na humildade de tudo o que é verdadeiro, sem nenhuma expectativa de reconhecimento social. Não era ainda o Tempo e não havia ainda nesta altura suficientes Astrólogos de qualidade, formados pelo Quíron, para responder às exigências de um Espaço maior.
Cresceu por fidelidade, pela resposta quotidiana e segura de quem acredita. Cresceu como devia. Esperando que germinassem as primeiras folhas, prenúncio de uma árvore maior. Até ao momento em que o Espaço já dificilmente respondia ao acréscimo de pessoas e solicitações de cada dia.

Imaginei então que alguém tinha de vir, trazido pelos desígnios ocultos da Vida, pelas Vias misteriosas do Destino, oferecer-me outro Espaço, um sítio diferente e maior com uma nova dimensão. Confiava que isso iria acontecer. Entretanto, morre inesperadamente o meu irmão. E a Casa da Rua Vitor Cordon, casa de família que lhe pertencia, Casa que tinha sido de meus avós, de meus pais, e minha, durante quase dezassete anos, foi-me novamente devolvida.
Quando passados mais de 30 anos entrei nessa mesma Casa, senti-a velha, triste, morta como todos os meus. Tive a estranha sensação de que o filme ainda era o mesmo, o de há 30 anos, mas já sem personagem algum e com a película toda riscada. Dessa Casa me tinha despedido um dia para sempre, nos anos 60, sem grande saudade.
Partira para Paris, sem pensar voltar. A ela me ligavam muitas tristes memórias: a ausência de todos esses que me foram tão próximos e que o Tempo levou.
Então alguém me disse: Maria Flávia, isto podia ser um lugar espantoso para o Quíron! Resisti! O Passado era ainda muito presente. Não sabia se iria conseguir libertar-me, desvanecer todos os fantasmas. Com tanto peso na memória, assustou-me a ideia de voltar: a ideia de trazer o meu Presente, tão mais luminoso, ao território de um Passado doloroso de que a tanto custo me tinha libertado.
Dormi sobre este desafio. Acordei a saber que o devia aceitar. Assim foi. Limpei o éter, transmutei velhas memórias em novas referências. Criei outras relações espaciais: subi e baixei tectos, orientei as luzes, renovei as cores, harmonizei azuis, rosas e violetas, criei a magia de que fui capaz. Tornei a Casa doce, aérea, venusiana, também ela liberta, actualizada. Fiz neste Espaço a casa de uma família Maior, a “família Cósmica”, que somos todos nós…”

Este ano, o Quiron, faz 27 anos de existência. Na véspera do Natal de 2014, quando Saturno em trânsito entrar em Sagitário, fecha o seu primeiro grande Ciclo de Tempo. Centenas e centenas de pessoas passaram pelo seu Espaço, buscando informação que as orientasse. Orientar, como esta palavra assim o indica, é “virar” para Oriente. Esse longínquo Oriente, de onde no Passado vieram todas as grandes Tradições Sagradas que sempre orientaram a Humanidade. Tradições tão esquecidas nos dias de hoje. O Taoísmo, o Budismo, o Induísmo, a Cabala e outras mais...

A Linguagem Simbólica da Astrologia é também uma dessas Tradições. Sacudida da poeira dos Tempos, renasceu nos fins do século XX com um objectivo definido: acordar as Mentes e os Corações dos Humanos que, tão amnésicos e tão longe se encontram do melhor de Si-próprios, relembrando-lhes quem são e devolvendo a cada um o seu lugar na Ordem do Universo.

E finalmente o Cristianismo, que na sua essência, é a mais abrangente, definitiva e última Palavra de Salvação: a consciência da Fraternidade Planetária. Fraternidade anímica e Unificadora que anula todas as divisões.

A Astrologia, quando atinge a sua verdadeira dimensão, a dimensão de Linguagem Sagrada ao serviço da Ciência Esotérica, actualiza novas Consciências, dinâmicas e fraternas. Consciências sem as quais a Humanidade não tem como cumprir o projecto Cósmico que a fez nascer. Projecto Divino que possibilita a cada um a oportunidade de existir alguns anos sobre a Terra para que possa expandir a sua Consciência: das Trevas para a Luz, da noite da Personalidade para o dia da Alma, da Terra para o Céu. Universo é igual a versus-Uno, que significa, para a Unidade…



Em Deus
Ricardo Louro

(Texto escrito com o apoio de Maria Flávia de Monsaraz, retirado do Livro, “Três Gerações uma Alma - Linhagem Familiar, do mesmo autor.)







Ser Poeta é exilio
num pais de condenados
um tormento infinito
de mil olhos rejeitados!

Ricardo Maria Louro

 
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