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Ôh Fabuloso Sô Cabo

 
Lá pelos idos dos anos 90, e lá vai pedrada... conheci um “sordado”, mais tarde promovido a Cabo, “tijolão”; "minino bão”. Esbelto infante - sem defeito de fabricação, se não fosse a farta falta de cabelo na parte frontal do côco. O famoso testa lisa.

Vindo lá das bandas do “córgo” do Inhapim, da borda das -unhas do gato; sovaco de cobra. Toca desconhecida por gente civilizada onde cabrito selvagem esconde de chuva e tiro de relépa. Saiu de lá pirralho, mocorongo e franzino. Carregando consigo, impregnado, a fragrância indígena que ainda hoje viaja em suas veias, no seu DNA. Sangue silvestre. E, isso o tornaria no futuro em um homem disposto.

Mudou-se para cidade... e não demorou para se sentir evoluído. Esqueceu ou fingia não se lembrar de sua origem, da sua legitima identidade. Bastou subir na vida um pouquinho e já não aceitava mais ser chamado de homem do campo, de matuto, semeador de grãos ou lavrador. Exigia que o chamassem em alto e bom tom, de empresário! Afinal de contas era dono de uma padariazinha.

À medida que o empreendimento se desenvolvia ele também tratou de se projetar intelectualmente; cursou faculdade de psicologia, pois queria realizar outro sonho: Ser chamado de Doutor! Passando no vestibular o futuro Cabo já se sentia como o tal, ou seja, um especialista em aconselhamentos.
- O ex-mocorongo, agora é conselheiro dos necessitados, homem de línguas, letrado e amigos dos urbanos. Vivia uma forte discrepância entre sua personalidade tornando-se o opróbrio dos humildes, dos seus conterrâneos.

Contudo, convencido de que o ramo da psicologia não lhe garantiria o retorno desejado, o futuro miliciano como sempre, muito batalhador, de espirito aguerrido, não baixou a guarda e ingressou-se pouco depois na gloriosa corporação Alferes Tiradentes; onde se tornaria um exímio combatente.

Desde os seus primeiros dias de recruta se apresentava impecável na alameda principal, esticadinho, literalmente engomadinho. Exemplo a ser seguido. Formando praça comprou seu óculos ray-ban, bem mais largo do que os buracos das vistas, e ficou parecido com um Coronel ROTAM; correu e credenciou como motorista de viatura já ambicionando ser contemplado breve breve pela administração como motorista padrão; destaque no seio da tropa.

De pouca bajulação conseguiu fácil a confiança dos seus comandantes e, administrativamente, galgou novos horizontes dentro da instituição, sendo reconhecido como Cabo multifuncional... e o melhor: Encostou nos homens de estrelas nos ombros! Isso era tudo o que queria, estar no topo, junto à elite.

Nas instruções semanais sempre estava presente e atuante. Dentro das quatro linhas, no gramado, debaixo dos três paus, sem querer ser modesto ele era uma parede um gigante personificado. Com o espírito de liderança aflorado o Cabo atuava como um Capitão; estufava o peitinho - aos berros gritava com o time e passava sabão nos zagueiros quando frangavam.

Assim, o Sô Cabo levava a vida e a vida o levava. Puxava tropa - aqui, de soldados; viajava como motorista durante as supervisões; e, por último fez a viagem que ficaria cravada eternamente em sua memória. Quando foi levar seu Comandante regional para participar de uma solenidade na região norte do Estado, no Vale de Terras secas. Região quente. A poeira fina e alta levantava sem esforço. Depois da segurança e do bem estar do comandante Geral a poeira era a grande preocupação de todos, menos para o Sô Cabo, que nem havia atinado pra isso.

O Coronel Comandante Geral da Policia Militar, o manda-chuva maior, o cabeçudo que, além de tudo, atuava ainda a nível federal como representante de todas as policias do País não estava ali à toa. Ele participaria de um ato solene durante inauguração de mais uma unidade da corporação bicentenária; e se não bastasse estar acompanhado de tantas autoridades Militares e civis sua digníssima esposa estava ali ao lado. Todos trajados à rigor. Todos elegantes; como exigia o protocolo.

Ao término do ato cerimonioso, o Sô Cabo, motorista, motorista padrão, lembrou que tinha que abastecer o veículo para seguir viagem, e o pior: o posto ficava há vinte quilômetros dali e ele tinha apenas vinte minutos para fazer o deslocamento e retornar. Pediu permissão ao seu comandante direto, entrou na patrulha oficial e acelerou fundo como gosta para ouvir o roncar do motor e fazer o percurso à tempo.

Disparado no trajeto percebeu que outra viatura tentava o acompanhar e que o motorista da RAPA, apavorado, piscava o farol, ligava o giroflex e dava sinais incontinentemente para que parasse. Assim, diminuiu a velocidade permitindo que a tal viatura o alcançasse; o praça velha, patrulheiro, então assumiu a parlamentação:

Ôh Cabo... é procê vortá lá e panhá o Coronér!
- Que Coronel? - respondeu.
- Uai Cabo... o Cmt Geral!
- Sê besta, rapaiz... Eu saí de lá inda’gorinha e o Cmt Regional seus me disse que ele mesmo vai levar o homem! ... e mais: o meu Comandante sabe oncotô meu fii!!!
- A orde é procê vortá Cabo... se é que ocê tem costa lairga pra agüentá uma puada do bichão antão continua e vai abastecê; us-homi já tão lá numêi -da -rua te isperano. O recado foi dado Sô Cabo... passá bem!!!

A ira subiu e correu, pra veia a riba, esquentando o corpo do Cabo; num segundo lembrou do lugar on’nasceu e teve vontade de destratar o companheiro que trouxe o recado atrevido. Virou o carro e saiu em desabalada correria para buscar os biteluscos; voltou cantando pneu. Quando lá chegou de fato os homens graúdos estavam esperando ele ali, do lado de fora; naquela rua empoeirada.

O Sô Cabo chegou dando uma meia-virada no carro e já chorou nele o ré. Aflito com horário, vai ver que perdeu a noção do nível dos presentes, ou aprontou isso de propósito mesmo. Fez de raiva. Chamou o bicho no bão acelerando baixo. Daí a pouco escutou uns tapa na lataria da RAPA. Soco, chute, quase saiu tiro. Assustado, o Sô Cabo espichou o pescocin pra conferir no retrovisor, momento que viu o Cmt Geral, viu os comandantes regionais e todos os demais que acompanhavam a comitiva; todos. - Meio que embaçado mas os viu!
Envoltos em uma nuvem de densa poeira vermelha.

O ray-ban escuro e a poeira que se levantava dificultou a visualização; mesmo assim não teve dúvidas: – Huuuuunnn... aquele dando braçadas é o meu comandante!!!

E era ele mesmo. O Comandante regional do fabuloso pracinha com os dois braços levantados e boina na mão “balangava” pra cima e pra baixo, - desesperado com o desastre que o subordinado promovia, e com sua prometida nomeação a chefia do Estado Maior que agora estava ficando comprometida. Afobado, o Comandante tentava impedir ora a poeira na cara do maioral, do Curinga, - ora sinalizava para que o Sô Cabo parasse de acelerar aquela giringonça.

Já a primeira dama militar, muito educada e serena, apesar de sentir o gosto da poeira na boca e ver sua roupa empoeirada, soprava e esfregava os olhos reclamando ao seu esposo em tom hilário e caçoador: - Meu bem me ajuda pel’amor de Deus... assim eu vou cuspir tijolo!!!

Um silêncio pairou no ar; até o Comandante Geral entrar no clima criado por sua esposa e baforejar: - Isso só pode ser coisa de CABO!
Entremeio a um sorriso amarelado pela poeira o Comandante segredou no ouvido da esposa: - Se você cuspir um tijolo ele já tem dono. - vou dar uma tijolada nesse Cabo!

Tomado de dores e arrepiado, o Assessor do Ajudante de Ordem entrou afoito no carro, assentou-se no banco do carona e sem cumprimentar foi logo dizendo: - Ocê viu a merda, a cagada quiocê feiz lá atrais cabo!?

O Sô Cabo, motorista padrão há cerca de vinte anos, pessoa íntegra e de comportamento ilibado nunca imaginou que ouviria algo assim; tão de perto. Que atrevimento!!! E o queixo do cabra estava ali empinado em sua direção no alcance da sua canhota. Pensou melhor, refletiu, engoliu seco... tremulou que nem bandeira hasteada; chegou a perder a voz; ficou cego atrás do ray-ban e não sabia no quê pensar, - mas deixou ficar. Só teve força pra uma perguntinha:
- O quê qu’eu fiz???

O quê quiocê fêeiz!!???!! - Ocê empoeirou o Comandante Geral, sua esposa, os Comandantes regionais... ocê empoeirou todo mundo, CABO! Inda pergunta o quê qui feiz?!

Nem o curso de psicologia o salvou daquela adversidade; mas ajudou sim, a tolerar calado as afrontas do graduado que fustigou su'alma. Depois disso sentiu muita dificuldade para continuar sua missão na direção da viatura, porém, como cabo-sempre-é-cabo-pra-valer, é “otoridade” em tempos de guerra - insistiu e venceu a labuta rogando à Deus baixo em murmúrios no seu intimo, que afastasse da sua frente todo perigo e livrasse-o de todo mal’amém. E mais, que se Deus tivesse que mandar mais provação que não fosse mais empoeirada do que essa última.

Durante a viagem de regresso o Comandante regional temendo pela sua segurança e que sinistros ainda piores viessem a ocorrer, tentava tranqüilizar o Cabo, dizendo assim: Não fica abafado não Cabo; acidente acontece mesmo - amanhã você já se esqueceu disto. Porém, como essas histórias nunca acabam ao sair da viatura o Comandante, agora são e salvo, deu uma olhadinha e viu uma nuvem escura no céu e disse: - Será que chove Cabo? Pra acalmar aquela poeira térrivel? Já que estamos por baixo vamos esperar pra ver se desce água benta lá de cima para apagar aquilo tudo!

O Cabo sem entender, ou fingindo isso, não conseguiu abrir aquele sorriso faustoso; sorriu muchurucamente e tocou o carro levando a frase do Comandante entalada na garganta seca. Então começa o martírio: - Ele falou pagar ou apagar!? Pagar ou apagar!? Pagar ou apagar!? – Se for pagar, sou eu. Se for apagar, é a poeira. E estendenderam-se os dias e esta dúvida o massacrava aos poucos. O Miliciano só pensava em puada e das grandes. Uma transferência, quem sabe, pra região onde o fato aconteceu. E as dúvidas matavam o Lendário aos poucos.


Cabisbaixo, dirigiu-se pra casa e por meses foi atormentado, viu coisas: vultos, vozes e teve infinitos pesadelos.
Em um desses pesadelos se viu vestido com uniforme zebrado recolhido em um presídio de segurança máxima e o Comandante Geral que chegando no corredor do pavilhão, de cabeça alta, marchando e apresentando armas, - com as batatas dos "zói" regalados - e aos berros gritava: - Todo mundo deitado! Eu só quero o último!! É no rolamento muxiba, pelancão!!! - ...Cadê o Cabo?
Nisso o Sô Cabo corria e se escondia debaixo da cama pra se proteger.

 
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Mandruvachá
 
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Enviado por Tópico
visitante
Publicado: 24/10/2014 17:58  Atualizado: 24/10/2014 17:58
 Re: Ôh Fabuloso Sô Cabo
coitado do cabo,deixou a ostentação subir no juizo,rsrs e pra piorar lascou poeira no povo da elite,q barra pesada,olha q fiquei com dó do moço, mas realmente acontece isso q vc disse: «Bastou subir na vida um pouquinho e já não aceitava mais ser chamado de homem do campo, de matuto, semeador de grãos ou lavrador. Exigia que o chamassem em alto e bom tom, de empresário! Afinal de contas era dono de uma padariazinha.»
Fonte: http://www.luso-poemas.net/modules/ne ... ryid=280954#ixzz3H59iN7R7
tem mesmo gente q n sabe lidar com a mudança de altura,por isso q concordo com o ditado«deus n dá asa a cobra» rsrs,massa o q vc escreveu cara, curti muito,bom final de semana.
ps: o cabo saiu de debaixo da cama ou ainda continua lá?