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Do mar ao rio

 
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by Betha M. Costa

não sobra mais amanhã,
no mar hoje feito rio,
aonde canta a cunhã,
onde morreu o desvario...

nas noites e dias de frio,
foi santa e deusa pagã.
da vela, a cera e o pavio,
a iluminar seu mor fã.

de diva cruel sem elã,
lança-se em fé e delírio,
ao alienista e seu divã.

das tintas na pele ao afã,
ao despertar pela manhã,
todo um mar é agora rio!

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Autor
Betha Mendonça
 
Texto
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1830
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Enviado por Tópico
visitante
Publicado: 02/12/2015 13:46  Atualizado: 02/12/2015 13:46
 Re: Do mar ao rio
bom ver-te de novo por aqui, Betha. escreves muito bem e os leitores do Luso agradecem-te. um abraço


Enviado por Tópico
RicardoC
Publicado: 02/12/2015 13:55  Atualizado: 02/12/2015 14:01
Colaborador
Usuário desde: 29/01/2015
Localidade: Betim - Minas Gerais - Brasil
Mensagens: 5119
 Re: Do mar ao rio
Passei para ler teu poema, Betha, atraído pela palavra cunhã, da qual gosto muito.

Pode soar algo superficial, mas eu sou assim mesmo: Amante de palavras e seus significados.

Sobre teu sonetilho, penso que ficou misterioso e hermético. Talvez uma nota do autor favorecesse a interpretação dessa personagem que "foi santa e deusa pagã". Pareceu-me se tratar de Santa Iria, cujo culto se confundiu com o da deusa Nabia na costa ocidental da península Ibérica, a senhora dos rios e das águas.

O "mar feito rio/onde canta a cunhã" parece remeter ao Rio Solimões pelo uso da tão cara palavra cunhã, que é regionalismo do Baixo Amazonas. Todavia, em função da história da deusa Nabia, pode ser a própria desembocadura do Tejo ou dalgum rio do norte de Portugal cuja toponímia guarda a memória do nome da deusa: rios como sucede com o Navia, na Galiza e o Neiva e o Nabão em Portugal.

Quem seria o "mor fã" da deusa-santa? A cunhã que canta as coisas do rio-mar? Mas essa, com o perdão da ousadia, eu julgo corresponder à própria poetisa... Resta um homem-fã -- talvez mais corretamente "fiel" -- que à luz de vela e pavio lhe rende culto.

A "diva cruel sem elã" parece ser a cunhã-cantora. Faz lembrar, todavia, a passagem da atriz francesa Sarah Bernadette pela ópera de Manaus no início do século passado -- ela sim, cognominada "Diva!" ou "Divina". Com certeza ela teve um alienista com divã e tudo!

A imagem final é ainda mais misteriosa: "todo mar é agora um rio!". Pode nos remeter às mares que permitem oscilar o nível de água doce junto a foz dos grandes rios, fazendo com que estes avancem mar adentro, tal como acontece como próprio Amazonas, o Rio da Prata e, atual e infelizmente, com o Rio Doce cuja lama tóxica ora se espalha pelo Atlântico Sul... Ver um mar tornar-se rio é algo, como se vê, raro e apenas possível em escala humana, pois, o mar continua sendo grande extensão de água salgada, apesar dos eventuais avanços da água doce e turva.

Talvez a história de Santa Iria tenha algo que desconheça sobre mares virarem rios. De facto, esse seria um milagre à altura de uma grande santa.

Enfim, as figuras femininas -- cunhã-cantora / Santa Iria / Deusa Nabia / Diva (seja Sarah ou não) -- se superpõem na figura da poetisa que versa diante de um grande rio-quase-mar.

Acho que é isso.

Abraços, RicardoC.



Enviado por Tópico
visitante
Publicado: 04/12/2015 09:21  Atualizado: 04/12/2015 09:21
 Re: Do mar ao rio
Que bom que voltou?


Lindos sonhos que se decantam nos anseios das águas onde os olhos não adormecem nas ondas da vida.

Um magnifico poema

martisns

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