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Contos : 

D'outras Noites: António e Luísa e os gatos da rua parda

 
António e Luísa
E
Os gatos da rua parda




Miado número quatro


"As coisas mais belas são ditadas pela loucura e escritas pela razão"
André Gide




Albano Malhado

Na ténue fronteira entre a loucura e a sanidade, esgrimem-se argumentos e quem impera é a razão. Louca ou não, que a loucura também tem razão na loucura que a razão tem.

Albano, o que transporta a luz, o louco tocador, pressentiu a tortura pelo bafo da inveja que avançava em passos de homem.
Forçou um pouco mais o instrumento, falta pouco, o momento está a chegar. Sentiu o cansaço do instrumento, ou talvez fossem os seus dedos a não responderem. Albano sabia que já tinha feito o necessário para enganar a escuridão à espera que António se aprumasse, sabia que estava na hora de ele se descobrir no homem em si.

Mas seria frustrante se, após todo este esforço, a vida de António e Luísa escorregasse para o abismo. Albano sabia que cada um teria de alinhar o seu ser com o seu querer, que teriam de enfrentar os seus fantasmas de frente, mas temia que António não estivesse pronto.

Albano não desarmava e continuava a martelar os botões, a melodia estava a chegar ao seu apogeu. Tocava e tocava! Os seus dedos eram guiados pelo seu querer, mas o que tinha de ser foi, e o Mi bemol que deveria ter sido transformou-se num Ré de meter dó.
Albano ficou furioso, tudo seria diferente agora.

Desapareceu na esquina da loucura e apareceu na da oferta.

Mesmo a tempo de miar.

freitas.antero

 
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freitas.antero
 
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