Foi num tempo não muito longínquo. As fadas benfazejas já vinham perdendo credibilidade e a medicina fazia mais milagres que de todas intercessões divinas precedentes somadas.
Bairro sem nome, rua desconhecida, casas sem números. Apenas o belo sobrado no topo da alameda carregava o número 1. Naquele tempo, todas as tardes eram das crianças. Reuniam-se na poeira da rua para brincar de roubar bandeira, tico-tico fuzilado, estrear toco novo e tantas outras invenções que nasciam da criatividade periférica e da necessidade da distração infantil. Havia coro de gritos, alaridos, xingamentos, palavrões, gargalhadas e, inevitavelmente, choros.
Geladeiras magras contrastavam com as tvs obesas e a vida mal garantia a sobrevivência, por razões que só quatro séculos de História poderiam tentar explicar. Ainda assim, era bonito ver a meninada correndo pela terra batida, brigando num instante e, no outro subsequente, voltando a rir como se nada tivesse acontecido.
Naquela rua pobre, porém, a casa número 1 destoava de todas as outras. Erguia-se na parte mais alta do bairro, como se observasse tudo de cima. Imponente: dois andares, janelas largas, telhado colonial e pintura sempre impecável. Também trazia uma guarita perimetral e era vigiada por câmeras por todos os lados. Quase uma Bastilha à brasileira
Enquanto as crianças mais pobres improvisavam brinquedos com pedaços quebrados ou objetos esquecidos, às vezes via-se a silhueta de uma menina na janela da casa rica. Valentina, cujo pai prestava pequenos serviços de jardinagem fora dos muros da residência número 1, já perdera a conta de quantas vezes parara suas brincadeiras para gesticular e convidá-la a descer. Esther nunca retribuiu aos gestos nem aos convites. Ela nunca descia. Permanecia estática e sombria, como uma sombra presa dentro de uma fotografia.
— Vem brincar, Esther! Vem! Vem!
Ela nunca descia. Ficava ali, parada, olhando as outras crianças se divertirem do seu próprio jeito, lá embaixo, na rua.
Veio o Natal.
Na manhã do dia 25, a meninada das palafitas apareceu alvoroçada, exibindo e disputando entre si os presentes: carrinhos coloridos, revólveres de espoletas, Barbies falsificadas...
Na Casa Grande, porém, aconteceu algo diferente.
A menina detrás da janela ganhou uma boneca extraordinária — tão realista que parecia gente. Tinha o tamanho de uma criança e o rosto pintado com delicadeza quase humana.
Mais tarde, enquanto as crianças brincavam na rua, Gabriel gritou de repente:
— Gente! Olha lá na janela da menina rica!
Todos deixaram seus afazeres pueris e levantaram os olhos.
A cena era estranha.
Agora havia duas figuras lado a lado, imóveis atrás da invernal dureza do blindex: duas silhuetas delicadas, perfeita e simetricamente iguais.
Todos pararam para observar a triste e curiosa cena, deixando uma pergunta pairando no ar:
Qual das duas era a boneca?
Qual delas era a menina?
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Gyl Ferrys
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