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Contos : 

A Loja

 
Todo dia, na volta do trabalho, sistematicamente, ele atravessa pela loja de departamentos que ficava no caminho entre seu escritório e o estacionamento onde guardava o carro. A loja atravessava o quarteirão da rua São Francisco para a rua Amador Bueno que ficava bem acima da primeira e ainda cortava o caminho.
As quadras eram grandes e, além disso, ele teria que escolher entre, na rua da esquerda, uma longa e desconfortável ladeira até rua de cima, ou além de subir, passar por um bar sujo onde se acumulavam pedintes àquela hora no fim do expediente a esmolar, na rua da direita.
Passou a fazer da loja seu trajeto cotidiano. Usaria as escadas rolantes para subir e ainda aproveitaria para olhar as mercadorias expostas. Seus setores prediletos eram o de ferramentas e o de caça e pesca, aos quais doava alguns minutos a mais em observação do que gastava com os demais.
Parava ali e ficava a observar os preços das últimas novidades na esperança que alguma de suas predileções estivesse em oferta. Manuseava as ferramentas elétricas, as furadeiras, as plainas e a serra tico-tico. Gostava de trabalhos manuais para escapar do cotidiano de papeis em que era engolido de segunda a sexta.
Ele, talvez não admitisse, mas se tornara tão metódico quanto o trabalho que realizava sem apreciar. Era incansável de manusear as mesmas ferramentas todos os dias, apenas mudando a ordem que as tocava. Olhava os preços proibitivos das melhores – ele gostava de manusear as mais sofisticadas – mas as etiquetas tinham sempre tantos dígitos quanto no dia anterior.
Naquela sexta feira, estava especialmente exausto, fora um dia que lhe tomou muitas energias como, aliás, acontecia nos finais de mês. Mas quando isso acontecia no final de semana era terrível.
Talvez por isso, mudou um pouco o trajeto que fazia de costume pela loja. Queria evitar as seções onde não conseguia passar sem parar e, assim, embrenhou-se pelo setor de móveis. Primeiro as cozinhas sofisticadas com seus fogões e fornos eletrônicos que aparentavam fariam sozinhos as comidas com um único apertar de botão. Riu-se interiormente ao pensar nos fornos de um desenho animado antigo onde se colocava uma pílula no forno e após uns segundos saltava uma bela e completa refeição.
Subiu as escadas e virou à direita no setor de dormitórios onde guarda-roupas descomunais sugeriam-se capazes de guardar de alfinetes a elefantes. Mais uma guinada e deparou-se com uma cama e seu colchão 'ultra-maxi-king-size' com elementos magnéticos relaxantes e vibrações capazes de relaxar estátuas de concreto.
Não havia nenhum vendedor à vista e deu-se o direito de testar aquela modernidade tecnológica. Sentou à beirada da cama que ficava do lado mais fora da vista dos transeuntes, olhou à direita e à esquerda sem ver ninguém, sacou os sapatos e refastelou-se no colchão. Sentiu-se pequeno, dadas as dimensões do aparato. Estendeu a mão e de num estalo alcançou o controle das funções do colchão e apertou o botão. Era certo que o fizera sem pretensão que ligasse, mas ligou.
Ele sentiu uma vibração suave e relaxante tomar conta de seu corpo cansado e o relaxamento veio naturalmente. Ele resolver aproveitar, sentia-se necessitado daquele pequeno luxo – lembrem-se que o dia foi longo. Acomodou-se melhor e pensou: - O máximo que vão me dizer é para desligar... A verdade é que acabou adormecendo.
Foi acordado por alguém que o tocava no ombro e dizia...:
- Olá, olá, senhor..?
Ele se pôs em pé de um salto e já ia começar a desculpar-se quando notou que a loja estava quase à escuras. Olhou para onde vinha a voz e constatou que era uma bela jovem, loira, de cabelos ondulados, vestida elegantemente com um vestido vermelho. Ao fixar-lhe os olhos, ela disse em tom de desespero:
- Moço, a loja fechou e ficamos trancados aqui dentro, precisamos chamar alguém ou ficaremos aqui até segunda-feira, minha bolsa e meu celular não estão aqui. Acho que devo não ter me sentido bem. Eu estava no setor feminino num instante e noutro olhei em volta e já estava tudo assim, fechado e em meia luz. Andei muito por aí, até que eu ouvi o barulho do motor vibrador da cama e vim aqui olhar.
Ele, já refeito da surpresa, sorriu pela “travessura” que havia praticado e disse a ela:
- Calma moça, vou pegar meu celular e tentar ligar para alguém.
Dito isto ele estendeu a mão e apanhou sua pasta que estava no chão ao lado da cama, abriu-a e pegou o celular. Pretendia ligar para os Bombeiros. Digitou os números e ouviu o toque de chamada... um... dois... e tela do aparelhou mostrou: BATERIA BAIXA, DESLIGANDO. E tudo voltou ao silêncio de antes. Ela o olhou com um ar aflito e indagou:
- E agora moço, que fazemos? Minha mãe vai ficar preocupada se eu não aparecer!
Ele disse: - Calma, vamos olhar pela loja, com certeza achamos um aparelho telefônico deles e damos continuidade ao plano de chamar os bombeiros... a propósito meu nome é Thomas... Ela fez um trejeito à guisa de conformar-se e agradecer, e disse:
- Eu sou a Lana.
Ele vestiu os sapatos, apanhou a pasta e foram andando pela loja em busca de um aparelho telefônico. Sempre havia um nas mesas dos vendedores.
De fato, no final do corredor, ele a olhou sorridente e disse:
- Não te falei, olhe ali, sobre a mesa está nosso bilhete para sair daqui...
Ele apanhou o telefone, levou o fone ao ouvido e seu sorriso apagou-se.
– Está mudo - constatou ele depois de apertar algumas tecla usuais de ramais “0”, “9”, “1”...
- Deve haver algum central que funciona... certamente desligam o PABX e os ramais não funcionam. - sentenciou ele – lá no escritório fazemos assim.
Ela tentou sorrir.
Mas todas as portas que levariam aos locais onde deveriam ter os telefones estavam trancadas.
Decidiram ir à porta da frente na rua Amador Bueno, ali deviam passar algumas pessoas ainda. Foi o que fizeram. De fato, em poucos minutos, passava alguém por ali e eles acenaram... chamaram... bateram no vidro e logo se deram conta que isso não resolveria, pois o vidro era daqueles que reflete de um lado, pois o rapaz parou e olhou para ajeitar o cabelo sem vê-los, e as pessoas de fora veem um espelho. Além, disso deveria ser à prova de som e de balas e de ataques de vândalos noturnos...
Ele olhou para a jovem e disse:
- Quer saber? Desisto. Vamos ao setor de mercearia e apanhar uma água. Estou com muita sede!
A jovem disse:
- Pobre da minha mãe, ficará preocupadíssima.
– Fique calma, sabe aquele ditado que notícia ruim não demora... quem sabe ela fique mais brava que preocupada? – disse ele.
- Bem, - disse ela - vamos achar algo para beber, estou com sede. Parece que faz anos que não bebo nada – parecendo mais conformada com a impossibilidade.
- Além disso – disse ele – quem sabe não tocará algum alarme e a segurança ou a polícia venha ver o que é... explicamos e pronto.
Na mercearia da loja, havia um verdadeiro ‘paraíso’ de coisas para quem teria que passar um final de semana preso lá dentro. Ele resolveu pegar uma garrafa de vinho branco afirmando ela não se preocupasse pois ele anotaria tudo que consumissem e pagaria na segunda feira.
Sentaram-se em uma sala confortável num canto mais iluminado, onde tomaram vinho e começaram a contar suas histórias. Ela tinha um machucado no tornozelo esquerdo que não quis lhe contar do que era. Quem sabe pelo vinho, parece que esqueceram sua situação ali dentro e conversaram animadamente e ele, ao buscar reabastecer-lhe o copo, os olhos dele cruzaram com os dela.
Eles se beijaram, se apaixonaram e fizeram amor em diversos dormitórios em exposição. Caminharam por todos os setores da loja. Fingiram acampar na barracas de camping, entraram nos barcos expostos e navegaram, fingiram ser tudo que quiseram. Abraçaram-se, amaram-se verdadeiramente. O que seria um inconveniente transformou em uma magnífica e inesperada aventura. O final de semana passou voando e o dia de segunda ia amanhecendo quando ela, já vestida o acordou e o olhou com olhos tristes e disse:
- Querido, ouvi um barulho lá em baixo, nossa aventura vai chegando ao fim, nunca vou esquecer, adeus! – e saiu rapidamente...
- Hã? Espere, como falo com você? Espere...
Ele demorou uns instantes até vestir-se, se compor e descer o piso térreo. Lá encontrou duas mulheres, certamente da limpeza, por seus uniformes, que se assustaram com a presença dele. Ele explicou e perguntou sobre algum funcionário da loja e elas apontaram a sala da gerência. O gerente o recebeu de olhos arregalados e ele rapidamente explicou o que acontecera até descobrir-se trancado. O gerente lhe falou que lhe parecia quase impossível, pois toda a loja tinha alarmes de presença, mas ele mostrou as garrafas vazias e os pacotes consumidos que desde logo se propunha a pagar. Com um olhar desconfiado o gerente aceitou o pagamento, disse que uma das faxineiras abriria a porta e Thomas se despediu sem contar a sua melhor parte da história.
Ao passar pelas faxineiras perguntou:
- Alguém de vocês teria visto uma moça, de vestido vermelho, cabelos loiros agora pela manhã?
As mulheres entreolharam-se fazendo uma cara de espanto, como se alguém lhes dissesse um absurdo e uma lhe respondeu:
- Moço, a loja ainda não abriu, só estamos nós, o gerente e os rapazes que arrumam as coisas...
Ele queria argumentar, mas decidiu deixar de lado, e pediu que lhe abrissem a porta. Passou o dia pensando na aventura de seu final de semana na loja. Comeu, bebeu, dormiu e banhou-se lá... teve uma linda mulher nos braços e só pensava em reencontrá-la pelo centro da cidade. Ela não lhe deu nenhum contato...
Terminado o dia, Thomas sai do escritório como de hábito e se dirige à loja para atravessá-la rumo ao estacionamento onde guarda seu carro na rua de cima. Não mexeu nas ferramentas, nem passou no setor de caça e pesca, mas foi a um lugar onde nunca ia: o de roupas femininas. Ele quase desmaiou quando ele a reconheceu ao se aproximar dos provadores. Lá estava ela com seu vestido vermelho, sobre o pedestal e presa a ele pelo tornozelo esquerdo e havia uma placa escrito “VESTIDO DE CREPE LANA” e em baixo o preço. Estava na posição estática usual a todos os demais manequins, mas seu rosto guardava um sorriso feliz. A vendedor percebeu que ele olhava paralisado aquele manequim e lhe disse:
- É moço eu também estranhei o sorriso desse manequim, posso lhe jurar que semana passada ele não sorria assim, mas ficou bonito não?
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Dor e angústia protagonizam o show
Quando a noite vem, a mágica se faz
Nasce o poema das entranhas feridas
Então, abro as asas e voo ao infinito.




Inspirado em um filme que assisti quando era criança.
 
Autor
Mr.Sergius
 
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Enviado por Tópico
ZESILVEIRADOBRASIL
Publicado: 13/09/2021 16:33  Atualizado: 13/09/2021 16:33
Membro de honra
Usuário desde: 22/11/2018
Localidade: RIO - Brasil
Mensagens: 753
 Re: A Loja
Não sei se fizeste da estória aquele comentário, ou se o comentário foi o mote pra esse intrigante e hilário conto, duma certa forma; transformaste um conto com maestria de como se o fato parecendo verdadeiro, enfim; inda bem que sacaste da infância essa lembrança bonita. Sigo com aquele prazer de te ler.
Grande abraço caRIOca!


Enviado por Tópico
Jmattos
Publicado: 13/09/2021 20:20  Atualizado: 13/09/2021 20:20
Colaborador
Usuário desde: 03/09/2012
Localidade:
Mensagens: 17318
 Re: A Loja
Poeta
Gostei imensamente da leitura e lembrei de ter assistido um filme semelhante também! Fui pesquisar e o encontrei. Assisti a versão de 1991, provavelmente na sessão da tarde! Recriei esse filme(algumas vezes, no passado), brincando de Barbie e Ken com minhas primas e amigas! Sou cinéfila desde o berço! Rsrs
Obrigada pela partilha!
Abraço!
Janna