
Pecador
Iluminado por uma luz artificial,
um vulto se ergue como uma assombração,
situação absurda, aflitiva e anormal;
por ele, eu sinto uma benévola afeição.
Muitos milhões de anos se passaram nesta casa;
a lua, com seu olho brilhante, procurava em vão o amor,
fria, tão fria, a cada era que extravasa,
alternando-se, em vão, entre eras de calor.
Estou tão só, e este vulto é a única companhia;
tenho em mim a sua alma e a de outros tantos,
que me vejo ensopado pelo espanto,
e nenhum outro pensamento ou vontade me valia.
Sou uma alma lançada a um fosso profundo,
como um verme preso à língua de Satanás;
corro da morte desde o início do mundo,
e a fome de amor me transforma em um ente voraz.
Enquanto espero este sentimento supremo,
vivo em desespero nesta existência de horror;
eu como o pó da terra e, por isso, eu blasfemo,
e este ser saído da luz é meu eu pecador.
Alexandre Montalvan
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