Poemas : 

Demônio dos santos

 
Tags:  poesia social  
 
A verdade é uma moça sem roupa.
Não pode sair à rua.
Mataria de vergonha a família bem vestida,
Que passeia em charretes de rodas de açúcar.
A moça sem roupa causaria alvoroço,
Agitaria os ventos que iriam:
Virar e revirar tapetes, capas, cartolas,
Derramar lágrimas, taças de vinho, vômitos,
Desfazer cortinas de fumaça,
Mostrar o que se passa,
Jogar luz na adega,
Mostrar as mãos dos que dão as cartas.
A moça sem roupa
É o demônio dos santos,
Deixaria a família bem vestida com a cara no chão,
Sem saber onde pôr os pés.
Ela os deixaria sem poder abrir a boca.
A moça sem roupa pode fazer chover
E as rodas da charrete são de açúcar.

 
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magnoerreiraal
 
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Enviado por Tópico
Benjamin Pó
Publicado: 31/08/2025 14:02  Atualizado: 31/08/2025 14:02
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 Demônio dos santos p/ magnoerreiraal
.
A ideia da Verdade como uma jovem despudorada e perturbadora é ótima.

Entretanto encontrei uma fábula de Esopo que me parece que o magnoerreiraal é capaz de gostar:

«Prometeu, o oleiro que deu forma à nossa nova geração, decidiu um dia esculpir a figura de Veritas (a Verdade), aplicando toda a sua arte para que ela pudesse orientar o comportamento dos homens.

Enquanto trabalhava, foi inesperadamente chamado pelo poderoso Júpiter. Prometeu deixou então o astuto Dolus (o Engano) encarregado da oficina — ele que recentemente se tornara aprendiz do deus.

Dominado pela ambição, Dolus aproveitou o tempo de que dispunha para moldar, com dedos habilidosos, uma figura de igual tamanho e aparência à de Veritas, copiando-lhe todos os traços. Quando a obra estava quase concluída, e verdadeiramente notável, faltou-lhe o barro para acabar os pés.

O mestre regressou, e Dolus, tomado de medo, sentou-se apressadamente no seu lugar. Prometeu ficou pasmado com a semelhança entre as duas estátuas e, querendo que se julgasse que tudo era fruto do seu próprio talento, colocou ambas no forno.

Depois de bem cozidas, infundiu-lhes vida: a sagrada Veritas avançou com passo firme e seguro, enquanto a sua gémea inacabada permaneceu imóvel, presa ao chão.

Essa falsificação, fruto do ardil, recebeu assim o nome de Mendacium (a Mentira), e eu concordo inteiramente com os que dizem que ela não tem pés: de tempos a tempos, aquilo que é falso pode começar por ter êxito, mas com o passar do tempo a Veritas (a Verdade) acabará sempre por triunfar.»