Há sol lá fora.
Um sol que não pede licença,
Que toca as calçadas,
Que escorre pelos rostos apressados
Como se tudo estivesse, de algum modo,
No lugar certo.
Há gente correndo.
Pernas em fuga, em destino, em rotina.
Há passos que sabem para onde vão,
Mesmo quando não sabem por quê.
O mundo segue, pontual e distraído.
Há vida.
Barulhenta, insistente, quase teimosa.
Vida que não pergunta se pode existir,
Apenas existe.
Mas aqui dentro…
Aqui dentro é outro clima.
Uma calmaria estranha,
Como um lago sem vento
Que ainda assim dá medo de atravessar.
Nada se move,
E justamente por isso
Tudo pesa.
O silêncio não grita,
Mas aperta.
O descanso não acolhe,
Mas inquieta.
É paz sem alívio,
É pausa sem repouso.
Sinto como se o mundo
Estivesse respirando fundo
Enquanto eu prendo o ar.
Como se lá fora tudo estivesse em expansão
E aqui dentro, em suspensão.
Não é tristeza,
É um desconforto manso, educado,
Que senta ao meu lado
E não vai embora.
Talvez seja isso:
O corpo em calmaria,
A alma em vigília.
Esperando não sei o quê,
Mas sabendo
Que ainda não é agora.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense