PÁSSARO
Pousou perto de mim
Ficou algum tempo
Levantou voo e desapareceu
Relembro o olhar límpido
O contraste de cores da plumagem
E o canto inebriante,
Haverá algo mais livre do que um pássaro?
SEM-ABRIGO
Sentado no banco
Tem o olhar fixo no chão
Uma garrafa tombada por perto
Desta lenta agonia
Sobressai o silêncio
Homem alto e magro
De rosto macilento e olhos sem expressão
A barba comprida e escura
Um gorro a cobrir a cabeça
As roupas imundas
Os transeuntes desviam o olhar,
E passam indiferentes.
O ÚLTIMO BEIJO
As lágrimas caíam incessantes
Caminhámos lado a lado
E chegámos ao destino
Ao dar-te o último beijo
Senti os lábios secos
E um aperto no coração
Sem proferir qualquer palavra
Disse-te que não mais sofrerias
E tudo terminou,
Perdi o meu melhor amigo.
A RUA
Vagueiam pelas ruas
Como almas errantes
A cara sebosa e os cabelos desgrenhados
Condenados ao vazio e maldade
Por uma sociedade de castas
Resistem fortes e orgulhosos
Fumam pontas de cigarro e bebem álcool
Para suportar mais um dia
Cada caso é um caso
Arquitectos, poetas, fadistas e xadrezistas
São apenas alguns dos habitantes
Da maldita rua.
MAX
Na penumbra da noite chegámos à vedação
A amiga Maria chamou por ti
Aproximaste-te abanando a cauda
És um bonito cão preto de porte grande e patas brancas
O pêlo é curto e branco em redor do focinho e olhos
Os olhos são castanhos e bondosos
Comeste com grande prazer
E ficaste deitado a contemplar-nos
Em jeito de agradecimento
Nunca conheceste a liberdade
Confinado toda uma vida a um pátio
Por humanos miseráveis
Com a tua idade avançada
Deixas-me comovido
Por tudo o que superaste, Max.
VAZIO
Eram sombras e luz
Sonhos perdidos
Numa qualquer manhã
Terra e pó
Estrada inacabada
Mão cheia de nada
Por perto a maresia
Mas porque raio,
Este vazio não desaparece?
MATEUS
Homem baixo e de olhar astuto
Declama poesia como poucos
Canta com uma alegria juvenil
Bebe e fuma como se não houvesse amanhã
É um contador de histórias
Um artesão de mitos
Viveu toda uma vida na rua
Mete-se com as transeuntes
Trata-me por irmão
Tem um bom coração
O malandro do Mateus.
MEMÓRIAS
O acaso juntou-nos
Forjámos uma amizade
Sem igual
Pela tua alma
Chorei na partida
Tempo acabado,
Estarás sempre comigo.
MORCEGOS
Chegam com a escuridão
Voam frenéticos e rasantes
Reclamando um espaço e tempo
Que sempre lhes pertenceu
Estou no meio dos morcegos,
E sinto-me grandioso.
O AMO E O ESCRAVO
Colocou-me grilhetas e correntes
E avisou-me
Obedece
E viverás mais um dia
Submete-te ao medo
Ou sofrerás
A partir de agora,
A tua liberdade acabou.
PONTE
Na imensidão do jardim
Vejo a sua forma em arco
Por baixo o rio sereno
Penso na tua beleza
Atravesso sem vivalma
Escuto os sons da natureza,
E sei que te amo.
HOMEM ACABADO
Tomado pela angústia
Caminho sem rumo definido
O coração bate descompassado
No limite das minhas forças
Quero que termine
Esta existência maldita
Será justo dizer que,
Cheguei ao fim?
SAUDADE
No meio da paz
Em que me encontrava
Fui invadido pela saudade
Jorrou sangue da minha alma
E nem tentei parar a hemorragia
Tal era a força do sentimento
Agora que passou a intempérie
E as águas estão calmas
Resta-me a esperança,
De lutar contra o esquecimento.
XADREZ
Existe um mundo imaginário
Onde decorre uma batalha
Entre dois reinos
64 casas claras e escuras
Convertem-se em caos e destruição
Peão toma peça toma
O rei é a peça mais importante
A dama é a peça mais poderosa
O objectivo é dar xeque-mate
A força de um jogador
Tática, posicional e mentalmente
Conquista-se diáriamente
Neste jogo de tabuleiro
Onde sou verdadeiramente feliz
Coisas extraordinárias acontecem
E no final, terei que regressar à realidade.
ABUTRES
Insinuam-se de mansinho
E nada dão
Só retiram
A única prioridade
É o eu
Para sua satisfação
Invadem o espaço alheio
E reclamam-no como seu
Cegos pela própria ambição
Não conhecem limites
Se ao menos soubessem,
O quão patéticos são.
OS BONS
Os bons têm compaixão
Os bons são respeitosos
Os bons têm um sorriso
Os bons são genuínos
Os bons têm sentimentos
Os bons são sinceros
Que bom é,
Conhecer gente boa.