O rapaz, sangue em levante,
Ela, o riso ao livre vento,
Eram febre faiscante,
Carne viva e rutilante,
Sem pesar no pensamento.
Vinha a febre da loucura
Sem saber o amanhã,
Mastigavam a ternura
Como fruta em polpa mura,
Como a brisa da manhã.
Era o golpe contra a sorte,
Só a fúria da alegria;
Ter o mundo, ter a sorte,
Num abraço, o laço forte
Que o amor fortalecia.
Rói o mofo o tecto mudo
Nesta casa onde estou;
Aquele amor vagabundo
Perdido noutro mundo
Que a vida adulta levou.
Sinto a falta da incerteza
Neste chão de solidão,
Onde o sonho se comprime
E a vontade se reprime
De ter os pés bem no chão.
Hoje o amor não tem cor,
Nem a chama que senti;
Causa um tédio, causa dor,
Sofro o mudo e vil horror
De estar só e estar aqui.
Carlos Lopes