A perda não é de uma pessoa, mas do lugar onde você podia voltar para ser pequeno(a).
Sem o filtro que mediava o mundo, a realidade atinge a pele sem proteção, e descobrimos, com um susto mudo, que o “adulto” que fingíamos ser agora é a única versão disponível para lidar com o frio de não ter mais para onde retornar. Nem conversar.
E agora, somos nós a mãe ou o pai.
A hélice (essa mola no espaço) nos traz a um ponto ao mesmo tempo semelhante e diferente, no tempo, na experiência, na vida e na dor.
Não há retorno ao mesmo lugar; há rotação em torno do mesmo tema, só que em outro nível.
O cheiro, o fim de semana, as gargalhadas, o biscoito de polvilho salgado e a vontade súbita de colo continuam existindo, mas já não encontram o corpo que os recebia.
A repetição vem com diferença: antes havia um lugar onde a fragilidade podia pousar; agora, a fragilidade pousa em você. É você quem faz cafuné, oferece conforto, e o mundo, educadíssimo, segue cobrando boleto, prazo e presença como se isso fosse só um detalhe.
A contradição do luto mora aí: querer voltar a ser pequeno(a) e, ao mesmo tempo, sustentar gente, rotina, casa, decisões e medos (e como eles vêm agora).
Essa tensão não se resolve com frases bonitas; se resolve com mediações concretas, com pensamento estruturado (não mera lógica), com quem ajuda, com como você descansa, com o que reorganiza, com o que deixa cair sem culpa (porque “dar conta de tudo” é uma fantasia com ótimo marketing — e efeitos colaterais bem reais).
O adulto que restou não é uma essência heroica (essa eu também mandaria pra ex psi, só pelo histórico do debate), é uma função histórica, produzida pelas condições do dia; e o que muda por dentro muda porque mudou por fora também: relações, responsabilidades, tempo, corpo, rede. Soma. Perda. Reconfiguração. O material fica, o vínculo muda de forma; o fantasma é só a memória tentando manter o contorno.
No fim, o “voltar” vira outra coisa: não é retorno, é movimento.
A ausência nega o antigo lugar de proteção e, nessa negação, empurra a criar outro lugar que não é igual, não é melhor, apenas é possível.
Eis por que me apaixonei pelo processo dialético materialista: o luto como movimento real, nascido das relações concretas, atravessado por contradições vividas e transformado na prática cotidiana até produzir uma nova síntese… onde a saudade continua existindo, mas já não paralisa; ela organiza.
Onde o eu se torna continente, apazigua a perda do meu.
Oh ego Laevus!
Em setembro/25 minha mãe faleceu. Hoje, senti saudades, depois que meu filho me ofereceu biscoito de polvilho na boca antes da escola. Ela (minha mãe) gostava do biscoito.