Terça-feira, 17
Finalmente, depois de três tentativas infrutíferas, conseguir marcar o exame de sangue para 06 de Abril na APAE – Ok! Os ônibus voltaram, o movimento grevista suspenso, os motoristas não acreditam mais nos empresários e no prefeito. No dia 12 de abril, finalmente o retorno para o urologista na clínica do idoso na COHAB – desde dezembro que espero, então consultei a Doutora Alhadef que analisou os exames de sangue e ultrassonografia – descartou algo serio na próstata, apenas um leve aumento e receitou-me Tanduo.
Seu Raimundo Diniz, o octagenario continua confundindo os dias, pensava que hoje fosse ainda segunda feira – e amanhã que é hoje faria a prova de vida no IPHAM – órgão municipal responsável pela aposentadoria dos pixixitinhos.
- Ah! Barbudo, a minha cabeça não está muito boa – confessou ao se encontrarem na entrada da rua 21 – ele vinha subindo, empurrando a sua Monarch cinquentona – Pra mim, hoje era segunda. Tenho que fazer a prova de vida, assim não recebo, mas acordei tarde – puxou o celular do bolso da camisa, daqueles bem antigo e de tecla pequena, franziu os olhos e forçou a vista para confirmar as horas que o poeta lhe disse “Sete e meia” – Ah, é mesmo, vou lá.
E o poeta continuou a descer, no meio da ladeira, Gordilho subia para o mercado:
- Vou lá, enquanto está cedo – gritou do outro lado.
- Bora, poeta – também gritou passando correndo sem parar – Vamos correr – era o mestre Zeno, irmão mais moço de Juvan fazendo o seu teste de Cooper.
O poeta relia um velho livro de geografia da oitava serie – e refletia como será, quando mudar radicalmente ao aposentar-se – Pensa na paz, em um mês numa pensão, dependendo do preço, enquanto procura uma casa ou um quarto para alugar, de preferencia pelo centro e quem sabe no seu Desterro querido. Mas Deus é quem sabe! Não é você que faz seu destino e sim o destino que você – filosofou com seus botões.
Charmille, o dono do bar ao lado do Lasierra ordena ao poeta para descruzar as pernas ao passar com um balde com agua suja para joga-la no banheiro.
O açougueiro Mazico sai do mercado pelo único portão da rua 17 – Olha o meu pixixitinho – grita do meio da rua – Cadê Lacerda?
Charmille ao largo, na ultima cadeira com as pernas aos altos apoiada no moirão. Os bares vazios e silenciosos – a da grandona fechada. Uns bêbados abusados no bar do finado Bispo, sob o olhar vigilante de seu Jojó e seus heterônimos – Jorlene, o brabo e serio, Skindin, o boêmio e brincalhão e ele o fiel da balança.
- Como não vou mamar na cabra. Vou mamar no bode? – respondeu um dos correnianos da rua 16 para a grande dama da putaria pura Dona Neneca.
- Eu não quero conversa com corno, já basta eu - - repeliu a mestra, colocando uma cédula no bolso da surrada bermuda que Charmille lhe deu.
O benemérito mestre da serralharia Zé Filho ou vulgarmente conhecido como Preguinho com atelier na Praça das Sete Palmeiras, Vila Embratel adentra no restaurante de Cibabá e o comandante atravessa com o seu caldo de ovos. Dona Neneca retorna e Charmille a coloca na mesa com uma cerveja.
-Te orienta porra, eu bebo é com meu dinheiro caralho – desabafava falando sozinha e sorvendo um gole do copo e soltando uma gostosa risada debochada de quem não deve nada a ninguém.
O poeta enche seu copo.
- Tchau, dona Neneca – despede-se ao vê-la candidamente sentada ao lado de Charmille.
- Vai te lascar, porra! Agradece. – è pura poesia bruta.
E chove sobre a Vila Embratel.
- Vai ter que pagar o aluguel – resmunga a sra. Vince injuriada, derramando a farinha no prato.
- Aluguel de quê? – perguntou o poeta.
- Do meu celular – respondeu a sra. Vince indo para a sala, assisti o jornal.
Ele tirou da geladeira o deposito com dois belos pedaços de peixe serra-frito da semana passada e o colocou sobre a pia. Entrou no quarto e antes de deitar-se entornou tudo num gole só.