Poemas : 

As Geografias do Afeto - Chris Katz

 
Open in new window

















As Geografias do Afeto

Há uma vida que pulsa nas janelas acesas ao cair da noite,
Onde mãos desconhecidas partilham o pão e o cansaço.
Nas esquinas da cidade, o amor é um lance de dados, um açoite,
Ou um abraço que se busca no vácuo de um longo espaço.
A vida não é apenas o que se vive, mas o que se imagina,
Nos olhos do estranho que passa e na sombra que declina.

O amor, por vezes, é uma estrada que ninguém mais percorre,
Um jardim de estátuas onde o tempo esqueceu de passar.
Há quem ame em silêncio, como uma fonte que nunca morre,
E quem se perca em palavras, sem nunca saber o que é amar.
O afeto é essa moeda de ouro lançada em águas profundas,
Que brilha no fundo do peito, entre as horas mais moribundas.

Vê os navios que partem para portos que o mapa não diz,
Levando os quereres de homens que buscam um novo matiz.
A vida é esse tear onde a dor e o prazer são o mesmo fio,
Tecendo a capa do rei e a túnica de quem sente o frio.
Não há destino que seja pequeno, nem sonho que seja em vão,
Pois tudo o que vibra na Terra é o eco de um só coração.

Pelas ruas da história, o tempo caminha como um mendigo,
Recolhendo os restos de glórias e o pó de um antigo abrigo.
Mas enquanto houver uma voz que se levante para cantar o eterno,
O mundo, em sua dança de sombras, não conhecerá o inverno.
Viver é esse ofício de ser, ao mesmo tempo, o arco e a seta,
Buscando no centro da vida a verdade que nunca é secreta.

Chris Katz



Sou Mundos!


Chris

 
Autor
Katz
Autor
 
Texto
Data
Leituras
106
Favoritos
0
Licença
Esta obra está protegida pela licença Creative Commons
10 pontos
4
3
0
Os comentários são de propriedade de seus respectivos autores. Não somos responsáveis pelo seu conteúdo.

Enviado por Tópico
Alemtagus
Publicado: 04/05/2026 20:19  Atualizado: 04/05/2026 20:19
Moderador
Usuário desde: 24/12/2006
Localidade: Montemor-o-Novo
Mensagens: 4056
 Re: As Geografias do Afeto - Chris Katz p/ Katz
vida que pulsa nas janelas acesas, dá ao leitor espaço para imaginar como pulsa essa vida, que jogos corporais permite a noite.
jardim de estátuas onde o tempo esqueceu de passar o momento em suspenso, a imortalidade.
portos que o mapa não diz o imaginário, a sede de descoberta, o eterno desconhecido.
o tempo caminha como um mendigo o valor que damos à vida.

Estes quatro trechos são, para mim, os pilares do poema. A rima, como gosto, está bem trabalhada em versos que, apesar de longos, desenham quadros com imagens que por vezes podem parecer contraditórias, mas, pelo contrário, se complementam. Está excelente.


Enviado por Tópico
MÁRIO52
Publicado: 05/05/2026 15:54  Atualizado: 05/05/2026 15:54
Colaborador
Usuário desde: 24/02/2025
Localidade: PORTO-PORTUGAL
Mensagens: 1005
 Re: As Geografias do Afeto - Chris Katz
Poema muito interessante e carregado de realismo.
De facto assim é. Em cada rosto, em cada gesto, em cada expressão, o amor se manifesta. Muitas vezes envergonhado, pelos olhares cínicos de quem os observa.

Excelente poema, cara Katz.

Abraço.

Mário Margaride

Links patrocinados