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O mundo do sr. Con - Saint Peter day

 
Monday, 29 – Saint Peter day
Madre Deus – Arraial da capela de São Pedro – 06:40
Os pandeirões e as matracas cadenciam o amanhecer, o compasso magico dos cabocos de penas e das belas indias da Maioba – o tremor da ilha. O ronco do tambor onça. Os bois estilizados sobem a escadaria da capela – a alegria é contagiante – Os belos rajados ou cabocos de fitas. Os matraqueiros com seus enormes instrumentos de madeira. Todos reverenciam o santo a sua maneira. A voz tonitruante do cantador do carro de som
- O que é isso,moço? – perguntou-me uma moreninha curiosa ao ver-me anotando o momento.
- Uma matéria – respondeu meio sem graça.
Um casal de lesbicas discutem – as matracas trinam na minha alma – e o cabocos de penas rodopiam na sua coreografia peculiar ao lado das indias – uma delas com enormes coxas grossas. Um drone solitário e piscante sobrevoa a trupiada animada – Os bois desceram e dançam em frente as indias de todas as matizes: gordas, magras, morenas, brancas e até louras. E o gingado respeitável dos cabocos de penas. Um jovem cinegrafista careca e sua vistosa câmera em busca de melhores ângulos e tipos – Um dos amos, um senhor moreno com seu inseparável maracá e o chapéu de fitilho pisca para a simpática índia cheia de carne.
Há muitos anos atrás, a grande Paula Saldanha (e bota grande nisso) a eterna apresentadora do Globinho nos anos 70 esteve aqui com o marido gravando um especial para um programa da antiga TVE carioca – a mãe serena vigia a filha índia das pernas grossas.
- Tá assinando um contra-cheque – brinca um dos brincantes.
Uma indiazinha ao lado da mama India – a tradição continuará.

Uma visão panorâmica de cima, sentado no degrau da capela e o forte cheiro de vela incensando as minhas costas. Um batuque diferente vem de dentro da capela e tento galgar os degraus estreitos e abarrotados num sobe e desce de fieis. Adentro na pequena nave e a imagem de São Pedro imponente na canoinha sobre o altar – alguns fieis ajoelham-se e fazem suas orações. Um bombeiro vigia a caixa coletadora – o cofre de São Pedro – Vou contra a maré humana e desagua num mar de zambumbas. As branconas estão aqui em grupos – o odor de marijuana. Alguns funcionários e possíveis pacientes do Hospital Geral observam o movimento de uma sacada – assim como uma guarnição da PM com capacetes brancos, como aqueles personagens de um seriado japonês dos anos 60 -Ultra-Men – A fauna liberada. Um estiloso Cazumbá (lembrou do pai de seu Raimundo Zarrolho) com uma marionete estilizada.
A cabo PM gordinha fazendo a ronda em frente a Funerária Jardim das Oliveiras.
Descubro o oratório de São Sebastião numa entoca da Madre Deus onde o reggae rola alheio as zambumbas na Praça Demerval Rosas.
O que poderia acontecer mais? Reflete o poeta num beco voltando para o furdunço atrás da capela.
- Aqui tá melhor – chama uma gordinha a rapaziada para a sombra e umas cadeiras na calçada. E a zambumba troa dentro da capela. O senhor vendedor de boizinhos em miniaturas. Posiciono-me ao lado da porta
Os gritos roucos: Ei, boi, ei boi e o som rascante das zambumbas e dos tamborins – alguém próximo aperta invisivelmente um baseado e o tambor onça ronca inigualável. Oito horas – Os boizinhos dançam ao vento –“Agua de coco gelada” grita um pixixitinho meio rouco e olhos mortos de sono com a caixa de isopor e a diamba anestesiando as minhas narinas junto com a dipirona que tomei com café guevariano antes de sair. O poeta se entristece ao ver alguns tamborins de naylon, mas as zambumbas continuam no couro – fedor dos banheiros – acompanho a descida da tropiada sob os olhares impassíveis dos capacetes brancos em pé no muro do hospital – na minha frente um caboco guindado por um parceiro – o genial Chico Science ficaria louco com essa percussão nativa igual aos seus sagrados maracatus – O cheiro de carne queimada, um paralelo com o mesmo odor das chaminés de Auschiwtz – o encontro casual com o pintor Paulinho que como o poeta também lacrimejou emocionado.
No meio do canteiro da antiga rotatória do Bacanga uma brincadeira.
- Eh! Professor” – grita Dona Iraci tresnoitada na labuta – Vou me embora.
O tradicional Boi de Guimarães do saudoso mestre Coxinho – transito para para sua sagrada passagem para a praça: “Eu vou é muito subi isso ai” – reclama um senhor ao ver a escadaria. As zambumbas no pau de carga carregado por dois brincantes.
- Arrocha, caboca – gritaram e os mestre meteram o pau, me arrepiei, todos nossos ancestrais afro brincavam em nossas memorias – a sirene, iguais aquelas de Nova York. O batuque do boi de zambumba é divino.
- Tu te sai de problema, José – aconselha a companheira.
Enfim encontro um contemporâneo do mestre Coxinho, fará oitenta anos no mês que vem, mas ainda está duro e orgulhosamente paramentado e o tamborim de couro nas mão.
Outro boi de zambumba desce a mesma ladeira. Um vendedora com uma camiseta com a foto de Jonh Holt – Me despeço e vou para a parada. E os capacetes brancos injuriados por não terem quebrados ninguém fazem mais uma ronda ostensiva no meio do povo. Catadores de latinhas negociando a sua reciclagem, um deles um pouco alto joga a garrafa vazia de vinho na pista.
Atravesso para o outro lado de frente para a escadaria do CEPRAMA e da torre da Tv de Mané Galinha no alto da Madre. No estacionamento o reggae troa violentamente: - O melhor do roots – anuncia o DJ com a voz rouca.
A hemorroida incomoda – sol morno das oito e trinta e cinco me disse um baixinho que corre para apanhar um ônibus.
- Qualé esse ai?
- Não sei.
- Vila Nova – Ah! Ainda não vou pra casa.
Dois casais suspeitos apanham um lotação. A velha chaminé amparada por andaimes de madeira no antigo Irmãos Martins – Hoje o onipresente mateus - Uma lourona brancona na garupa de uma moto parando na frente ao portão de um motel no Jambeiro – Poxa, que phoda! Exclamou o poeta celibatário, que nunca mais botou uma mandioca no pubeiro. .

De volta a velha vila Embratel – disse o poeta ao descer de um Piancó em frente aos Paraibanos dos Salgados no canto da rua 18, conduzida por uma motora femea bem seria e rumou para a padaria Renascer apanhar a sua ração.
De volta aos aposentos e o seu Castro, o factótum mais inchado que o touro Ferdinando apossa-se do computador . O poeta cansado.
Lendo “Ainda Resta uma esperança” do austrico J.M.Simmel, que merecia um Nobel de literatura.
As onze a ronda – um boizinho brincava domesticamente numa barraca do arraial vazio. As congratulações ao mestre Lasierra pelo programa de ontem e os noventa anos da mama grande dele no sábado a noite no Turu e logico a sua dose de mel puro. Passou no compadre, todos ansiosos pelo jogo – as Laranjas no irmãozinho. Ajeitou o zíper emperrado de uma bermuda que ganhou de madame Rameaux em 2019. Almoçou bem.
O hino nacional ecoa no silencio da Vila Embratel.
- Ah! Meu Deus!-exclama doentiamente a sra. Vince aboletada nervosamente na sua cadeira bacial.
- Apíta o arbitro e começa o jogo. O poeta desliga o radinho e vai para o computador digitar seus sonhos.
O Japão marca um gol e o Brasil murmura ululamente.
Um grito ecoa, o Brasil sai do sufoco e empata no segundo tempo – um jogo tenso -mata-mata
O gol do desempate alegra a galera – foguetes,a sra. Vince vibra
- Segura Brasil! Segura meninos! – conclama em pé com as mãos na cabeça com ar de desespero.
Uma boa cagada, o café esquentando, concerto de violino n1 de Bach.
- Ainda não terminou? – pergunta sofocadamente para o seu factótum sentado no sofá.
Minutos finais e aos acréscimos que não tem fim – são momentos dramáticos e o Sr. Com vai para sala.
- Oh! Meu Deus que juiz ladrão que não termina esse jogo. – reclama a Sra. Vince
E o apito final – todos em todos os cantos e recantos desse pais continental respiram aliviados, acho que até o filhote distante no alojamento nos confins do Pará também. Um vizinho mais abaixo coloca o hino nacional – a sra Vince descobre feliz que ainda tem duas latas na geladeira, abre logo uma, a pequenina tirou a chaleira do fogo e colocou o café na garrafa térmica – O sr. Com enche pela metade o seu copo, vira a colher e vai bebe-lo no quarto junto com seu nicodin. A imagem seria do pixixitão Ronaldinho dono do Cruzeiro – marcou o poeta, assim como aquela, quando desceu do ônibus na Madre Deus e um casal com seus três filhos alegres atravessavam a avenida – Caramba!




 
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efemero25
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