Textos : 

Da catarse à forma

 
 
A escrita pode nascer de uma necessidade de descarga emocional, e não há nada de menor nisso. Há pessoas que escrevem para aliviar uma dor, organizar uma experiência, compreender melhor o que sentem ou simplesmente colocar em palavras aquilo que, de outro modo, permaneceria confuso dentro delas. Há também quem escreva pelo prazer de se expressar, de registrar uma experiência ou de compartilhar com outras pessoas aquilo que viveu. Todas essas formas de escrita podem ter valor, e não é preciso diminuir nenhuma delas para falar da literatura como obra de arte.

O problema começa apenas quando confundimos finalidades diferentes. O alívio produzido pelo ato de escrever pode ser uma realização legítima para quem escreve; mas ele não constitui, por si só, a realização artística daquilo que foi escrito. Para quem deseja ir além da expressão pessoal e construir uma obra, é preciso acrescentar uma nova exigência: aquilo que nasceu como experiência interior precisa adquirir uma forma capaz de existir independentemente de quem a experimentou.

O escritor pode precisar escrever para descobrir o que sente. Às vezes, só depois de escrever percebe a natureza de uma dor, de um desejo, de uma intuição ou de uma experiência que antes não conseguia compreender. Isso também faz parte do processo criativo. Mas o artista precisa trabalhar sobre aquilo que descobriu para descobrir o que a obra exige. A primeira descoberta é sobre si mesmo; a segunda é sobre a forma.

É nesse momento que a carga informe começa a se transformar em obra. Dar forma não significa tornar belo aquilo que é agradável, nem eliminar da obra aquilo que há de doloroso, feio, violento ou desordenado na experiência original. Uma obra pode representar o horror e ainda assim ser bela; pode ser dissonante e, contudo, perfeitamente harmônica com aquilo que se propõe a realizar. A beleza está na necessidade da forma, na relação orgânica entre seus elementos e na capacidade de cada parte participar da experiência do todo.

A catarse do ato de escrever pode estar no alívio; a catarse da obra está na contemplação de uma forma acabada, na percepção de que aquilo que era tensão interior tornou-se um objeto exterior, ordenado e necessário. O escritor se satisfaz porque conseguiu transformar aquilo que o incomodava em algo que permanece fora dele e pode ser contemplado por outros.

Por isso, o escritor amadurece quando deixa de considerar a intensidade do sentimento experimentado durante a escrita como prova da qualidade do que escreveu. Uma experiência pode ter sido profundamente verdadeira, dolorosa ou transformadora para quem a viveu e, ainda assim, não ter encontrado sua forma artística. Isso não torna a experiência menos verdadeira, nem torna inútil a escrita que dela nasceu. Apenas significa que são coisas diferentes.

Para quem pretende fazer da literatura uma obra e, eventualmente, uma profissão, essa distinção se torna decisiva. Já não basta perguntar se escrever fez bem ao autor. É preciso perguntar se aquilo que foi escrito encontrou a forma que precisava encontrar. A finalidade deixa de estar apenas na descarga emocional e passa também a estar na construção.

Assim, escrever para si e escrever para os outros permanecem, ambos, legítimos. O que muda, quando o escritor decide construir uma obra, é o critério pelo qual passa a julgar o próprio trabalho. O sentimento pode ser a origem; a expressão pode ser o primeiro movimento; a catarse pode acompanhar o processo. Mas a obra precisa, ao fim, sustentar-se por aquilo que é.

É então que a experiência deixa de ser apenas algo que aconteceu ao escritor e passa a ser algo que ele conseguiu fazer existir.

 
Autor
luscaluiz
Autor
 
Texto
Data
Leituras
29
Favoritos
0
Licença
Esta obra está protegida pela licença Creative Commons
0 pontos
0
0
0
Os comentários são de propriedade de seus respectivos autores. Não somos responsáveis pelo seu conteúdo.

Links patrocinados