A manhã abre-se
devagar
e a luz pousa nos lugares onde estivemos.
Presto atenção ao silêncio
à respiração suspensa
num redemoinho de olhares.
Há lágrimas que vêm de longe
de outros corpos
de outras tentativas de amar
quando não se pôde.
A memória insiste em povoar-se
das imagens que escolhemos ver.
As pedras são apenas pedras
a água apenas água
os ramos apenas ramos
e
no entanto
tudo treme
com a sombra do que sentimos.
A claridade levanta-me
desfaz o último resto de noite
e os meus olhos abrem-se
outra vez
para o lugar onde estás.
Como se o mundo inteiro
nascesse desse gesto.