Friday night
Sai ainda pouco para comprar cigarros para a sra. Vince no Lasierra e aproveitei para ver o meu debito e pegar duas pilhas. A praça das sete Palmeiras estava florida e ladeada por bandeirinhas dos candidatos – o clima festivo da democracia.
Depois do banho noturno, colocou as roupas de molho e uma bela lua em quarto crescente o iluminou.
Saturday morning, 19/09/2026
Dona Iraci, uma loucona das antigas informou-lhe que vai haver um café da pastoral as sete aqui na praça. E lhe menciona outros lugares onde ocorrem o mesmo evento e até a sopa noturna. É a nossa vida de sem teto.
Na padaria Renascer, dois PMs lanchavam na mesa ao fundo sob os olhares lascivos das atendentes e nada de Zulu e nem o chalrear dos pixixtinhos da palmeira em frente.
A avenida morta na paz de uma manhã de sábado – tirou as roupas do molho ainda as escuras, o clima sombrio, ceu encoberto como anunciasse uma chuva – mas o poeta forçou a barra e enxaguo-as.
Navegação e a passagem liberada no estreito de Ormuz. Dezão todo rubro-negro arrastava-se como um leão marinho rumo a casa grande dos pais, depois de um tempo sentado ao lado de Nhá Pu no meio da ladeira, em frente a rua 22, onde o carroceiro Mariano escovava a sua égua com um braço só.
- E ai poeta, só na manha? – perguntou o rapaz que lesou o PT nos anos 90 para aplicar nos florescentes bingos que vicejavam no centro.
- Que poeta, porra nenhum. Isso é um caralho! – protestou o fulero do Juvan Jr. que nunca leu nada.
Um cartaz de um candidata com pose de socialite dos anos 80 da coluna de Ibraim Sued.
- Constantinhinho! – saudou o compadre de passagem.
- É pra mim passar lá mais tarde? – perguntou brincando o poeta.
- Vai tomar no cu, caralho – respondeu prontamente o compadre atravessando para entrar na rua 23.
Dezão a rigor: calça jeans, camisa polo, a bota – Santo Deus, a bota mais bem engraxada do universo, um espelho e a mochila e dentro dela sua sacola com seus remédios.
- Tu vai trabalhar, Dezão? – perguntou-lhe uma conhecida sua.
Vai na UPA tomar um fortificante, aguarda a carona do pessoal dele.
- Não gosto nem de vê-lo, o meu sangue ferve, a vontade é dar um murro nele – desabafou seu Jorlene e seus heterônimos a respeito do fulero do Juvan Jr. – Não gosto dele, muito saliente e não respeita ninguém. Mas comigo que não me mexa – e bufou como cobra – ele vai ver o que é bom pra tosse – e correu para apanhar um ônibus.
Dona Neide aconselha Dezão – Tu não tá fraco, tá é com mal-estar. Não tá dormindo, agitado e ainda quer tomar um coquetel? Tu não tomou ontem? – ele balança sua cabeçorra, passando a mãozona na cara suada – Então, é vinte quatro horas. Cuidado Dezão com esses remédios.
Enfim o pessoal dele o chama e o embarcam.
O fisioterapeuta e pescador Volkei reapareceu e conversa com Gordilho. Senta no batente em frente a quitanda. Gordilho sai com o saco de lixo e o põem na ponta calçada. Um motoqueiro pede licença para estacionar a moto sobre a calçada em frente ao atelier enquanto vai cortar o cabelo no barbeiro vizinho:
- Claro! – respondeu solicito o poeta lendo um conto tétrico do mestre Tchekhov.
A musica do bar de Dona Glaucia, a ajudante começa a faxina, a noite tem festa em frente no Boteco do Nenem (Lava-jato) – aniversario de Junior Maranhão, o pop star da área itaqui Bacanga.
- Hoje não durmo – reclama o barbeiro despedindo-se do cliente que monta na moto, sai e nem agradece.
O fisioterapeuta tá é bêbado como um gambá e ainda uma gorotinha – descobriu o poeta ao ir beber seus quatro copos de agua e apanhar um desinfetante para odorizar a oficina e expulsar o fedor de mijo que vem do fundo e empesta tudo. O poeta acha o gorro que pensara ter perdido nesses seus vacilos etílicos.
A visita inesperada do desaparecido Juvan Senior que veio contar a sua aventura, o retorno a sua aldeia ancestral em Penalva, foram cinco dias de pura alegria: comeu arroz descascado no pilão, galinha ao molho pardo criado no terreiro, peixe fresco pescado na hora frito no aceite de coco babaçu, visitou todos os parentes e a casa onde nasceu.
- Cara, poeta foi massa – confessou.
Hoje a noite com a patroa farão a romaria a pés até São José de Ribamar.
Dezão volta com o ar cansado: - Bonjour, eu tô com fome, vou comer alguma coisa.
- “A ultima chamada, daqui a pouquinho no Boteco de Nenem, o show do ano – ele Junior Maranhão, o nosso rei. – anuncia o carro de som.
A ajudante de Dona Glaucia lava a calçada e briga com Volkei que insiste em ficar sentado. O poeta rasga. O barbeiro já fechou.