Amanhece dentro do corpo
como se a pele
fosse um lugar por acabar
uma superfície onde a luz aprende
a beber o que resta do desamor.
Há sombras que não resistem.
Despem-se
devagar
na humidade breve da memória
e o gesto toca o tempo pela última vez
antes de desaparecer na respiração da matéria.
O vento inclina as árvores
num murmúrio que não se decide
e o vidro guarda a justeza do corpo
como se o contivesse.
O tecto
baixo
respira a compressão dos dias
que não couberam em nós.
Uma coruja branca atravessa a luz.
Asas a desfazerem limites
lembrando que há instantes em que fechar os olhos
é a única forma de sorver
o sofrimento inteiro.
E
ainda assim
algo permanece.
Um resto de urgência
um traço que não aceita morrer
na superfície da manhã.