Vivo olhando o retrato
De quarenta e seis a sessenta e quatro,
De oitenta e cinco a dezesseis,
Não há nada igual à bola da vez.
Bola enlameada.
Atmosfera intoxicada.
Essa nuvem sombria.
Escurece o dia,
Bota fogo na floresta,
Autoriza churrasco humano,
Entrega o ouro ao fulano,
Pinta tudo que não presta.
Essa nuvem sombria:
Naturaliza o insano,
Torna tornado algo cotidiano,
Planta tristeza, mata alegria,
Crava uma espada na alma do país
Apaga o quadro e usurpa o giz.
Essa nuvem sombria:
Oferta o que resta de soberania,
Sangra a base da pirâmide
Para acumular no topo
E amarra as almas com arame
Para perfurar o corpo.
Essa nuvem sombria:
Que se expande e asfixia,
Solta os cachorros pra cima de quem pensa
Diferente de quem imprensa
E traz o capitão-do-mato para o gueto
Para pisar em pescoço preto.