Poemas : 

os magoados, ou as farpas

 
oxidam os segundos
esta propriedade do ar
até que se expira

tão leve
e tanto

as gotas de água unidas
que lavam, que mancham
que se bebem

fonte
de vida

ida marcada de hematomas,
ardores, pesos, chagas
a que vamos ficando presos

não sei se calo
ou cicatriz

se algo e o seu inverso
são páginas duma folha,
e a vida é uma soma de perder
depois do ganho,
dependendo de como se olha
para o terço e se decide o ver
o belo,
o estranho,
como o gozo, o riso, o êxtase
a paixão, a náusea, a dor,
como doença que apanho
em paralelo

envelhecer aleija,
curte, existir
desgasta

seca
e hidrata

até o que floresce
murcha
e o que voa, eventualmente, se arrasta

para o que havia de estar guardado,
todo o ser ser farpado

e se continuo,
ora envelheço
nascer tem esse preço


Sou fiel ao ardor,
amo esta espécie de verão
que de longe me vem morrer às mãos
e juro que ao fazer da palavra
morada do silêncio
não há outra razão.

Eugénio de Andrade

Saibam que agradeço todos os comentários.
Por regra, não respondo.

 
Autor
Rogério Beça
 
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