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Poemas, frases e mensagens de Ombuto

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de Ombuto

Sementes de nêspera

 
No segundo dia esquisito - para não variar - de Primavera, depois de uma noite quente e de uma manhã menos quente, localizo sementes esmagadas de nêspera pelo asfalto. Que desperdício. As nespereiras dos quintais já estão carregadas, só que não estão totalmente sarapintadas de amarelo-torrado. Tudo indica que os frutos maduros - principalmente os que estão à-mão-de-semear - têm sido subtraídos por quem se esgueira pelos muros alheios. As mais inacessíveis permanecem no topo e parecem ser sempre as mais apetecidas. Que se lixe. Que os pássaros lá cheguem primeiro. Um dia destes juro que vou ao supermercado e compro um quilo delas; assim saboreio a Primavera e ainda jogo as sementes intactas num terreno baldio.
 
Sementes de nêspera

Ainda há vaga

 
Quando se enche tudo o resto, ainda há vaga na não-desistência. É o trabalho dos últimos a chegar. Na verdade, nem tudo está cheio; porque cheia está a desistência que a vaga não comporta.Todos sabem que todas as últimas vagas serão preenchidas por necessidade; mas nem sempre o necessitado necessita de uma vaga para não desistir da vaga que quer. Há quem divague pela vaga-desistente: aquela que não prende o oportunista e, muito menos, quem procura ocupar o espaço que lhe é devido. Há quem vagueie pela vaga-persistente: aquela que persegue escondidamente o preenchedor e que se deixa capturar a qualquer momento. E, por fim, há quem seja a própria vaga, que ocupada é pelo pretexto de não vagar o que é certo para tentar o que é vago.
 
Ainda há vaga

A exacta medida

 
Sempre que se reveza o pódio de um bom momento,
entre palmas esbaforidas e hinos à certeza,
levantam-se braços e baixam-se cabeças.
Mas pouco ou nada se diz sobre a inexpressão,
e sobre o impávido movimento de cair em sí.

É preferível não saber sobre a falta de pólos inversos,
e tudo saber sobre as vertentes e as listas.
E porque é abjecta a saliência
que o desconceito faz na roupagem nua,
o melhor mesmo é fechar os olhos.

Ou então,
que desabotoadas sejam as intenções
que vestem os velhos hábitos.
E que não seja pelo calor das convicções
ou pela tensão da clausura em que está a expansão.
Que seja pelo desleixo, pela pura informalidade
e pelo fim da exacta medida,
que afinal,
nunca encaixou em nada.
 
A exacta medida

Falta imaginação à exigência

 
Falta imaginação à exigência
e numa listagem a mesma perdura
Acorda o fantasma da impaciência
arrepia-se a palavra mais dura...

Tudo o que encarna rigor sintético
não possui natureza e veredito
E que susto ser alvo anestético
do exigido que se faz erudito...

No assombro do conluio desgastante
entre esta fauna que habita favores
Desmerece companhia filtrante
toda a ganância que engana valores...

A triste sonda da inconveniência
exige da falta uma falta de ar
Falta imaginação à exigência
e antes que se deixe de imaginar...

(Poemas: Falta imaginação à exigência In Pequenos Rastos: Ombuto, 2013).
 
Falta imaginação à exigência

Nunca tive um gira-discos

 
Ainda que exista uma corrente de regresso, mais ou menos elitista, aos gira-discos, a verdade é que hoje o Youtube e o Mp3 praticamente extinguiram o som analógico e as saudosas aparelhagens de audio. De qualquer maneira, começo por dizer que eu nunca tive um gira-discos. Dadas as circunstâncias tumultuosas de adaptação que a minha família, e que os Retornados em geral sofreram no início, tive que me contentar com os reprodutores de cassetes e com os rádio-gravadores de cassetes. Apesar disso, existiam discos na minha casa, aliás, uma pequena mas bela colecção de LP's, que os meus pais ainda conseguiram encafuar numa mala qualquer. Gira-discos é que não existia mesmo. Imagino que não tivesse havido espaço nem tempo para tal, e que alguém durante o processo de Espoliação em Angola, alegremente o tenha subtraido.

O diversificado naipe de discos Ultramarinos ia (e vai) desde o Jazz aos Tangos argentinos, passando ainda pela música Clássica e pelo R&B. Os vinis devem ter estado guardados, aqui em Portugal, durante uns 15 anos. Só depois, é que um dia, resolvi levá-los a um amigo - com gira-discos - para ouvi-los com a maior curiosidade possível. Gostei particularmente de Bobby Womack.

Anos mais tarde, quando já havia maior estabilidade financeira, e após tanta insistência, lá os meus progenitores com alguma dificuldade resolveram comprar-me (e a crédito) uma aparelhagem da Sony. Contudo, não foi desta que tive um gira-discos. Afinal, estávamos no final dos anos 80 e o som digital do Compact Disc começava a ditar o rumo da indústria musical. Resultado: a minha estimada HiFi vinha somente equipada com 1 leitor de Cd's e 2 leitores de cassetes.

Foi por esta altura também que o acesso à música ficou mais facilitado e que a pirataria musical, presumo, teve a sua primeira vitória arrebatadora. A coisa era simples: pediam-se emprestados os álbuns e gravavam-se em cassetes. Não esquecendo que, para caberem mais, só as faixas que mais gostávamos eram seleccionadas. As velhas BASF Chromium (mais caras, mas que valiam pela qualidade) serviam bem o propósito, inclusivé, para copiar aqueles discos compactos que alugávamos. Sim, pelo menos aqui na minha cidade existiu uma loja deste tipo, que comicamente, até tinha um aviso na parede a proibir as cópias.

No que diz respeito ainda a esta tecnologia sonora do Passado, é curioso ressaltar o cheiro que todo o equipamento tinha ou que emanava das suas entranhas. Era um cheiro característico, que estava tanto nas esponjinhas cor-de-laranja que cobriam os auriculares dos headphones, como nas cabeças de leitura das fitas magnéticas. Talvez o fenômeno aromático tivesse a ver com algum tipo de metal utilizado na fabricação dos componentes desse tempo. Não sei. A verdade é que a memória olfactiva não me deixa mentir, e de cada vez que é activada, um rol de recordações (quase que emboloradas) ressurgem musicadas ao ritmo dos Cock Robin (imagino eu).

Money For Nothing dos Dire Straits, bem como 21st Century Boy dos Sigue Sigue Sputnik, são videoclipes que exemplificam bem este período, em que o Audiovisual teve a sua grande explosão e em que o consumo tecnológico massificou-se até hoje. Muito embora, desde então, eu ainda não tenha tido um gira-discos.
 
Nunca tive um gira-discos

Coreano versus indiano

 
Em tempos, na cidade onde cresci, havia um coreano perito em aikido. Sinceramente, não faço a mínima ideia se seria oriundo do Norte ou do Sul da Coreia. Conheci esta figura enigmática quando entrei para o judo. Enquanto treinávamos, ele mantinha-se numa área mais remota do tatame. Aquecia sozinho e treinava sozinho. Mas aos poucos, no final das actividades, predispunha-se a ensinar alguns golpes a quem quisesse aprender.

Nesta altura, eu era muito pequeno, nem sei se andava sequer na escola. Duas ou três vezes por semana a minha mãe vestia-me o kimono (um ou dois números acima do meu tamanho, que era para durar), dava-me a mão, e lá íamos nós pela rua. Certo dia, num destes trajectos, um indiano (de cabeleira farta) ao ver o meu traje de luta, aproximou-se e perguntou, em português deturpado, pelo endereço do dojo. Depois de devidamente informado, agradeceu e seguiu viagem. Passado algum tempo, para surpresa minha, eis que há um encontro de titãs: coreano versus indiano. Passo a explicar: as orientações foram bem dadas e o indivíduo, obviamente, deu com o lugar.

Naquele dia, ou melhor, naquele início de noite (é que às dezanove horas no Inverno é noite cerrada), as portas da antiga garagem já estavam fechadas. Só que ninguém arredou pé da rampa de acesso. Um sujeito alto, magro e com pernas de grilo estava frente-a-frente com aquele outro sujeito atarracado, entroncado e com pernas de rã. Comunicavam-se em inglês - o que para mim era chinês. Riam e gesticulavam bastante, enquanto que permaneciam no centro de um círculo de judocas. Estariam, suponho, em conversações para porem à prova as eficácias das suas respectivas artes (marciais).

Além de ser parecido com o Neil Diamond (quando era novo), o hindu, ao que parece, era cinto negro de taekwondo; pelo menos, a avaliar pela demonstração de patanços que aquelas gâmbias exibiram para o ar, tudo leva a crer que sim. O outro - do Extremo-Oriente - tinha não sei quantos dans e não se mexeu; fez apenas algumas vénias respeitosas e sorriu cortesmente (de tal maneira, que os olhos quase fechados mais fechados ficaram). Enfim, não houve propriamente um "grito" de gato para dar início às hostilidades (até porque não estávamos, com o Lee e com o Norris, nas ruínas do Coliseu de Roma). Mas deu-se a partida à mesma.

O candidato da casa mostrou-se defensivo e nunca atacou. Somente pediu para ser atacado. Gerou-se então aquele típico momento do "olha-que-eu-dou" e o "podes-dar-à-vontade"; e a determinado instante a coisa desbloqueou. Um pé (de comprimento quarenta e muitos) precipitou-se a alta velocidade em direcção àquele rosto amarelado. Porém, centímetros antes do embate, o alvo desviou-se harmoniosamente, acompanhou o movimento, e ainda teve tempo para agarrar o calcanhar do atacante. Resultado: uma torção sublime e o Aquiles mergulhou de cabeça.

O que veio a seguir foi pura comédia: cada vez que os nervos dos metatarsos eram comprimidos, havia contorção e dor. E a gargalhada foi geral na plateia inclinada. Mais hilariante (e paradoxal) do que isto, só mesmo o predomínio do Japão (que vestiu a pele da Coreia), e a rendição da Coreia (que vestiu a pele da Índia). É que o aikido é japonês, e o taekwondo é coreano.

Resumindo, estava derrotado o visitante. Ganhamos.
 
Coreano versus indiano

Cortados pela metade

 
Tenho tido algumas conversas com gente que veio de África (como eu), e que na altura tinham trinta ou quarenta anos de existência (que não é o meu caso). E a sensação que me fica é que foram decepados. Da coisa intacta, com sentido, desprendeu-se uma estranha forma letárgica que deriva, porque a determinada altura algo deixou de ser algo. "Sinto que nunca mais fui eu": é o que lhes sai da boca de vez em quando. E isto não é proferido com ódio - é que já lá foi o tempo da juventude e do sangue que eles tinham na guelra. Estão vencidos e injustiçados - só isso.

Por esta constatação pode-se depreender que a primeira metade da vida é decisiva. Muito dificilmente alguém se adaptará por completo a viver a segunda metade (da vida) noutro lugar. Há excepções individuais (é óbvio), mas em conjunto - num êxodo de grandes proporções - é uma utopia pensar-se em adaptação. Não existe.

Tal como os algarvios são portugueses do Algarve, os Retornados (assim chamados) eram portugueses de África e, por este motivo, propagadores da alma lusa além-mar. Ou seja, sempre houve uma forte (e inegável) ligação (cultural, religiosa e até de costumes) entre os habitantes do antigo império ultramarino e a metrópole. Caso contrário, a integração de meio milhão de pessoas - aquando da Descolonização - não teria acontecido sem grandes sobressaltos.

E mesmo com toda esta afinidade, as pequenas diferenças inter-continentais causaram toda a diferença. No fundo, os portugueses de África já eram outro povo. Com poucos séculos de permanência em outra latitude, e após a miscigenação de hábitos e de raças (nem sempre pacífica, como seria de esperar), o resultado final estava à vista e era positivo, e ameaçador...

Mas, o pior disto tudo é que a destruição de países pelo mundo tem prosseguido (do mesmo modo) ao longo dos anos. Médio Oriente e América do Sul são retratos hoje (com as devidas nuances) do que se passou na África subsariana no século passado. Nada consegue ultrapassar a arte da guerra-fria, da geoestratégia e do petrodólar. Aliás, neste palco são sempre apresentados os melhores protagonistas da actualidade. E o "santificado" apelo à ambição (local) e ao emotivismo ideológico (geral) será sempre o melhor cartaz possível.

Para quem destrói países não há Esquerda nem Direita. Nem democracias nem ditaduras. Há dinheiro, Poder e hegemonia. Sobra o espólio para os que ficam (mas piores do que estavam). E sobra a sobrevivência dos que partem (mas cortados pela metade).
 
Cortados pela metade

Dias que se querem adiados diariamente

 
O simples facto de não sabermos, concretamente, como o dia vai começar, continuar e acabar (se acabar), deixa-nos completamente vulneráveis a nós mesmos, principalmente pela maneira como vamos reagir ao dia. Se a "matéria" de que são feitos os sonhos e os pensamentos, fosse facilmente convertível em realidades, provavelmente saberiamos ao pormenor e antecipadamente cada passo da nossa humilde odisseia diária. No entanto, existe algum tipo de índice de convertibilidade neste tipo de matéria, que nos transporta também, muitas vezes, para sequiosos rasgos de lucidez premonitória. Cada dia valoriza-se com mais ou menos intensidade, embora haja um custo acrescido pelo conhecimento desse valor, baseado normalmente na soma dos dias passados, que insistem em ser repensados. E sobre toda esta perda de dias, está acoplado um irreconhecível ganho, que não é contabilizado, é apenas sentido, armazenado e instântanemente esquecido. Se ganhamos um dia a mais na nossa carreira vivencial, é sabido que também perdemos mais um dia, relativamente a qualquer fim que possa estar próximo. E esta proporção de um para um, este equilíbrio subjacente na unidade temporal mais popular, literalmente equilibra-nos, perante o desequílibrio da nossa consciência sobre o futuro, imediato e longínquo. Possuimos uma reclamação constante em nós e uma sensação de injustiça por não sermos surpreendidos positivamente, neste ou naquele dia, ou seja, desejamos desalmadamente que a sorte nos sorria sempre, e só porque ela é a nossa eterna devedora - pensamos. Ficamos agregados de tal forma ao tédio desta cobrança, que as surpresas, se de facto existem, provavelmente também nos evitam, como que evitando o desconforto da nossa insatisfação. Sabemos intimamente que as acções diárias possuem um grande poder reflectivo - é óbvio - mas terão todas elas esse poder? Quem sabe! Nunca teremos certezas, embora, em última instância, a contagem dos dias nos pareça revelar que é possível medir a felicidade, porque é fácil aprender a somar um mais um, e assim pensarmos, mais uma vez, que mereciamos mais. Porém, quando expostos somos àqueles momentos, em que o som pára e os movimentos são tão lentos, de tal modo que podemos ver os pormenores superar a física, então aí sim, ficamos com a noção temporária de que a quantidade de felicidade é o bem mais comum e igualitário na face da terra. Ficamos com a impressão que nos foi dada, desde o ínicio, a todos nós, a mesma porção desse elíxir mágico e que a única diferença reside na desigualdade com que bebemos desse sumo apetecido. Talvez não haja mesmo a capacidade de medir o prazer de cada dia, mas há forma de conhece-lo pelo ângulo da nossa disposição e finalmente no fim, quando mais uma vez o Sol se puser, temos sempre a hipótese de fazer as pazes com essa força que se impôs, mas que também nos acolheu, durante o seu curto tempo de vida.

(Crónicas: Dias que se querem adiados diariamente: Ombuto, 2012).
 
Dias que se querem adiados diariamente

Inventar o monstro

 
O mundo inventa monstros para que ele próprio não acredite neles. O mundo inventa monstros na esperança de que eles não existam, e também para que possa fingir controlar a monstruosidade que o rodeia. Inventa para que possa dar um excerto de medo confortável aos outros, e para que tudo não passe de um susto de criança. O monstro sabe, por isso, que ele é só um mito de uma maldade para mundo. Mas o mundo sabe que ele existe de facto, porque tudo aquilo que o mundo imagina, afinal, já existe à espera de ser alcançado; e tudo o que falta é, tão somente, não inventar o monstro.
 
Inventar o monstro

Estou a mudar p'ra pior...

 
Estou a mudar p'ra pior,
embora ainda não saiba...
Quem me dera estar melhor...
mudo, aqui onde caiba...

Sou tão pior quando falo...
Valia mais não falar...
Cortar a frase p'lo talo,
um dialecto apalpar...

Às vezes vejo o deserto
e sou tão igual a ele...
Imenso, mas incorrecto,
com tudo aquilo que é dele...

Estou a mudar p'ra pior,
antes de ter piorado...
De certo no meu melhor...
Metamórfico, parado...

("estou a mudar p'ra pior..." In Pequenos Rastos, A. Hayes, 2012).
 
Estou a mudar p'ra pior...

Corta-mato

 
"...Também faz-de-conta quem vem lá, e assim torna-se impossível ver claramente. Inúmeras vezes a cabeça guinou suavemente, sem que os olhos correspondessem. Interessava somente distinguir aquelas manchas animadas no horizonte. Porque o olhar, esse de tão fixo, era de medo e metia medo. Volta-e-meia, cansavam-se as vistas e uma espécie de estrabismo dava impressão à lógica. Mas mesmo assim, e com todos os pruridos circundantes, nada teve coragem de pestanejar..." (Ombuto in Terra ignota).
 
Corta-mato

Os toscos

 
Para quem não rima com o lugar onde habita, tudo aquilo que lhe é devido, por direito, é tosco. Se um verso ou outro, vazio, não for feito pelos seres sem poesia de atitude, não há paz imperturbável possível. E mesmo que mutantes sejam estes seres, nos deveres a que se disciplinam, pouco importa; porque eles sempre serão continuamente toscos, e toda a perfeição por eles fabricada será sempre o produto da vontade morta. Então, só há obra na imperfeição quando não há poema legítimo, e quando a tosca forma que os toscos têm de ver o mundo é totalmente falsa e perfeita.
 
Os toscos

A desconhecida

 
O rabo-de-cavalo fica-lhe imponente; fica-lhe a matar. O que aliado àquela postura firme e de ombros não descaídos, impressiona e satisfaz. Às vezes anda de bicos-de-pés e parece que patina entre as mesas. Outras vezes dança e canta subtilmente ao sabor da música da televisão. Pela distância, não alcancei o aroma que lhe sai da pele mediterrânica; mas imagino que seja endórfico e que esteja fora da minha imaginação. O perfil do rosto é de uma escultura; de uma harmonia segura, inalterável e bela. O nariz é pura arte simétrica. Os lábios ligeiramente projectados ao mesmo nível do queixo sobre o maxilar suave e bem desenhado, erotizam qualquer pensamento. Sim, o olhar é arrogante, sem dúvida; de uma arrogância não-comprovada e misteriosa, que eu gosto. Os olhos são suficientemente abertos, sem arregalos, pouco mortiços, e sem qualquer ansiedade: uma tranquilidade. As pestanas de tão negras são visíveis ao milímetro. E as sobrancelhas, tal como ela, estão lá no cimo, bem altas, intocáveis. Depois vem a expressão que, apesar de fechada e carrancuda, também sabe sorrir; mas não para mim, é claro. E quando o marfim dos dentes cuidadosamente enfileirados, sobressai acompanhado por aquela pequena prega no canto da boca, um raio excede-se e expande-se: e é uma força natural que me atinge.
 
A desconhecida

Movimento

 
"...Há uma nítida desfluidez locomotora quando o movimento suplica por outra direcção. Algures no "flash" de uma câmara viva, ou como quem diz, no brilho de um olho, às vezes eternizam-se movimentos desprovidos de qualquer força. Há quem goste das captações de outrora, guardadas numa caixa de corda, que ao desenrolar toca baixinho uma história. Outros não, outros até podem ser movidos a vapor, mas não se deixam ficar, mesmo que entorpecidos pela cadência de um comboio antigo..." (Ombuto in Terra ignota).
 
Movimento

O suicidário

 
Aos aquários os animais aquáticos. Aos partidários somente os animais humanos, ou melhor, os animalescos repartidos. E assim por diante. Este sufixo é um lugar associado com algo específico. Um lugar onde ser posto para ser visto exposto na vitrine. E, como é óbvio, a utilidade ou a inutilidade desta exposição varia conforme a perspectiva interior ou exterior ao lugar. No fundo, é uma diversão; não só de manobra, mas também de felicidade (e a muitas dimensões).

Poderão dizer que é uma selvajaria aprisionar e privar qualquer tipo de ser-vivo da selvagem vida que tinha anteriormente, mas o facto é que muitos gostam da atenção que lhes é dada. E ainda que alguma prisão seja fruto da índole que lhes foi redigida na auto-criação dos seres que são, a cela escolhida é a couraça perfeita para um espécimen sem a musculatura da liberdade. Ou então, é a célula do terrorismo dos argumentos que possuem, que alimento-vivo lhes dá até à obesidade maniqueísta.

Todos os bichos são reconhecíveis dentro destes lugares. São morfologicamente exactos aos que deambulam livres na Natureza. O que pode haver, devido à falta de espaço, é talvez algum encolhimento de um ou outro apêndice intelectual; tal e qual como a barbatana que se dobra sobre o dorso de uma orca dentro de uma piscina.

Para quem vê a bicharada em exibição, toda esta preguiça aparente tudo lhes pode parecer: talvez ciência, entretenimento, ou mesmo repulsa. E do espectáculo podem resultar aplausos, apupos, a conservação das espécies, ou mesmo o activismo pelo fim da escravidão animal. Não interessa, são pluralidades acarinhadas pela demagogia dos lugares que se cruzam, interessadamente.

Era bom que se conjugasse tudo num só projecto, onde protagonistas e visitantes fossem colocados em extrema interacção suicida: dois a dois de cada vez, para ver quem primeiro se mata de tédio. Seria, portanto, um projecto de duelo-inverso, mas livre de vidros, cercas ou arames; e numa floresta que tivesse entrada e que escondesse a saída. Na realidade, seria um documentário de presas e predadores de igual força; e onde o mito do escorpião e do anel de fogo fosse posto em prática.

Mas o lugar de projecção do auto-extermínio não teria que ser mortífero. Só teria que apagar, do mapa da privacidade, todas as cúpulas protectoras, todos os arcos e todos os "ários" (inclusive, os imaginários). Este lugar teria que desprezar qualquer tipo de lugar de exposição ao público a favor de um suicidário secreto. E tudo num espaço de abrigo natural, onde todos seriam naturais no processo natural de acabar com a própria vida que dá vida à morte-viva.

No suicidário habitaria a casta aversa aos sintomas falsos da auto-estima. Seriam misantropos de pensamento os habitantes, mas também simultaneamente acolhedores de quem pensa sem as travas da bondade esperta. Nesta casta, ninguém teria que aturar a ridícula importância que cada um a sí se dá por detrás dos limites em que se encerra. O suicidário deixaria que todos fossem desiguais, desagrupados e sem purezas de carrossel. Na falta de mirones, neste complexo, todos baixariam as asas de pinguim, porque o plano seria planar sem ser ao sabor das correntes. E, por último, ainda que a morte tenha lugar em qualquer lugar, o suicidário seria sempre o lugar onde os suicidas não morrem; vivem.
 
O suicidário

O bicho-papão

 
Dando uma vista de olhos pelos comentários, crónicas e artigos de opinião que se espalham pelos jornais portugueses, é vê-los desesperados (da esquerda à direita) pelo insurgimento popular a favor do fim do regime (dito democrático). Esta nova palavra de ordem é na boca destes militantes do partido do Estado, o novo bicho-papão que ameaça a democracia imposta. Afinal, o modelo de governação tem vindo a resultar generosamente para eles - e só por isso é perfeito e insubstituível (parece óbvio). Com referências directas ao populismo, que tanto abominam, o discurso em uníssono desta trupe (assim sendo, elitista), ao longo destes quarenta anos de traição, mostra sinais de fraqueza. Não que alguma coisa vá mudar, ou que possa haver a implosão deste regime. Não acredito. Acredito sim, que algumas máscaras possam descair um pouco mais, e que finalmente um dia possamos saber (para quem ainda não sabe) de que má estirpe são (ou foram) feitos os "tais grandes" anti-fascistas nacionais. Pena é, que a descendência deste mal não mostre intenções de abrandamento, quer pela mão dos seus discípulos aplicados, quer pela condescendência daqueles que se pudessem fariam o mesmo.

(Crónicas minimalistas: Ombuto, 2014).
 
O bicho-papão

Os "manientos"

 
Desde tenra idade que lidamos com a mania, inclusivé com a nossa. Ela é presenciada na escola, na nossa rua, no trabalho e mesmo entre amigos. Não deixa de ser um fenômeno alguém ter a mania que é melhor do que os outros e que mesmo assim, ainda se consegue destacar por esta bizarra característica. Sinceramente, sempre tive alguma dificuldade em ter algum tipo de amizade com a mania das pessoas, pelo menos aquelas portadoras de mania crónica, porque a mania aguda e passageira parece ser sintomática em qualquer ser humano que se preze. O maniento, propriamente dito, normalmente goza deste síndrome pela vida fora, não consegue desprender-se, embora num ou noutro caso ele se aperceba que tem que mudar qualquer coisa, então é comum encher a boca para dizer que tem atitude, signifique isso o que significar no dicionário da mania. Agora o mais relevante e curioso é que o maniento acredita mesmo possuir poderes especiais sobre os outros - os presumíveis inferiores a ele - de tal maneira, que chega em certos momentos, a mostrar compaixão e até mesmo um lado paternalista de educação e protecção, para com os seus fiéis súbditos. De burro, o maniento, faça-se justiça, não tem nada, pois sabe muito bem e cirurgicamente quando deve bajular ou desprezar, para alcançar os seus meios e os seus fins rumo ao estrelato. Em regra geral, o maniento é rodeado e suportado por dois tipos de pessoas: Os vulgos "Marias vão com as outras" e os outros manientos. Os "Marias vão com as outras", como se constata pelo nome, são aqueles que pelo sim e pelo não, preferem seguir um pouco todos aqueles que têm alguma plateia, o que efectivamente os manientos têm, vá-se lá saber porquê. Os outros manientos são aqueles que, como seria de esperar, encontram afinidades entre sí e portanto atraiem-se e entendem-se mutuamente, mais que não seja para se degladiaram em público, numa exibição em forma combinada e num acto desesperado pela satisfação das suas manias. A verdade é que, com toda a mania que me assiste, os manientos fazem falta à sociedade, são os desenhos animados da nossa vida adulta, os elementos interlocutores que recordam a infância dos nossos sonhos, quando um dia pensamos que seriamos heróis invencíveis.

(Os "manientos": Crónicas, Ombuto, 2012).
 
Os "manientos"

É a evolução baby

 
Comparativamente a um passado ainda bem recente, hoje desde o mais ilustre cientista da NASA, até ao miserável que não tem sequer para comer, todos têm acesso à mais alta tecnologia de comunicação - que se resume a um telemóvel de última geração com acesso à internet. No Mundo moderno, e grandemente motivado pelo flagelo da solidão, cada cidadão é um repórter e um voyeur compulsivo (pelo prazer doentio que sente) do cenário em que vive. Somos a plateia interactiva do nosso próprio comportamento exposto, que por sua vez se adapta ou desvia conforme aquilo que é opinado sobre ele.

Ainda que este acesso à realidade seja benéfico, é triste constatar que afinal continuamos a cortar cabeças em nome de Alá, tal como a Santa Inquisição queimava bruxas na Idade Média, ou que ainda matamos, invadimos e saqueamos países soberanos só porque somos mais fortes.

Se há 600 anos atrás um terço da população europeia era dizimada pela peste negra, hoje 90% dos infectados pelo ébola morrem nos hospitais de campanha espalhados pela mais decadente África subsariana. A diferença é que agora podemos ver online a matança que um vírus, descoberto e controlado nos anos 70, causa no início do 3º milénio. A diferença é que hoje não precisamos da ficção de Hollywood para vermos um homem desesperado evadir-se da quarentena, ou a ser perseguido e capturado por figuras de aspecto "astronáutico".

Mas se o espectáculo da vida real desiludiu aqueles que pensavam viver num século XXI bem distante da lei da espada, a verdade é que também abriu portas à verdade de muitos factos. Vale por exemplo pela História, que finalmente também começou a ser contada pelos vencidos. Vale pela destruição de muitas falsas certezas passadas, outrora somente favoráveis às minorias elitistas. Vale pelo facto de irmos comprovando, que mesmo com mais informação, continuamos propositadamente mal informados. E vale sobretudo, para que possamos saber com o que contar daqui para a frente. "It´s evolution baby"!

(Crónicas minimalistas: It's evolution baby: Ombuto, 2014).
 
É a evolução baby

Peixe-porco

 
Que peixe é aquele? Ao pé da saída de esgoto e a dirigir-se para debaixo do ancoradouro? Assim de repente não parece ser daqui. Há um certo exotismo naquele trajar de escamas que faz lembrar os habitantes de águas quentes. Analisemos: tem a boca um pouco afunilada e as barbatanas (dorsal e ventral) pintadas de azul; e debate-se atabalhoadamente pela parte rasa - entre seixos e areia-fina. Mal se consegue aguentar direito. Tudo indica que está desorientado; longe de alguma coisa. E aquele tombar repetido de corpo não faz crer que esteja fraco; há é um esforço constante em busca do equilíbrio (perdido?).

Afinal, é um peixe-porco. Pena que não tive a oportunidade de ouvir um pequeno grunhido que fosse, porque o roncar só se propaga no ar. E não, não se lambuza na porcaria. Pelo contrário, só come marisco. Tem paladar requintado. Além disso, gosta, por convicção, de se isolar. E não se rende sem dar luta. Tentar apanhá-lo seria arriscar uma dentada que estilhaça carapaças de ouriços-do-mar. Portanto, ele que siga o seu caminho. O que não implica que eu - do alto da minha secura - não possa ir atrás das suas batidas mal sincronizadas.

Ainda andei uns bons quinhentos metros, entre pingos de sangue seco e manchas de óleo esbranquiçadas. São os rastos das brigas dos inebriados, e das motoretas que andam nas ciclovias (a grande velocidade). Sim, o chão por estas bandas é, às tantas da madrugada, muito mal frequentado. Até já houve quem se tivesse jogado à ria para fugir da ira de um proxeneta (ouvi dizer). Mas o pior, foi quando me deparei com um hiperbólico vómito avermelhado, espirrado ali mesmo na fronteira entre a laje e o caldo fecal. Tal foi a bebedeira que, por uns milímetros, a pessoa não conseguiu despejar a carga ao mar. Que azar.

Pois bem, o que me fez parar com a perseguição foi mesmo aquela matéria regurgitada a recozer ao sol. E não foi só por causa da frescura azeda. É que vejamos: o sangue é a seiva da árvore, o esforço, o empenho e a diligência. E o óleo faz parte da máquina; é a energia e o movimento de um robô. Agora o vómito. O vómito é um ruído sem palavra, o fel e a acidez; a náusea e o desconforto; e mais tudo aquilo que não se quer, nem dentro nem fora de nada. Não há qualquer vida (nem nobreza) no vómito.

Resultado: fiz inversão de marcha. Deixei de contemplar a natureza do peixe que me chamou à atenção, e ainda fiquei com a imagem de um porco a vomitar. Para esquecer o episódio, olhei o horizonte, na esperança de ser recompensado por outra visão; e acabei por ver um chinelo roto a boiar. Serviu.
 
Peixe-porco

O córrego azul

 
O ter que ir por ir, por precisar, por imaginar, é mais intenso do que ir. É uma vida paralela parada, pensada tantas vezes quanto respirar. O ter que ir de onde para onde não é jogável, não é negociável, é antes falado depois de um aperto de mão, depois de um beijo que se esquece porque não foi sentido. Vê-se agora quão louco foi misturar destinos, tê-los como certos à escolha, somente para ficar. Que loucura deixar de ir. Hoje lá estão as velhas novidades, as fotografias, as vindas e idas sonhadas. E quem não foi da primeira vez, já tudo viu expresso na alegria de quem foi. Ir já não é a mesma coisa, e ficar será sempre um insulto à continuidade. Resta então o ter que ir, ter aquela pressa bem feita, ter a postura de um viajante, e o resto finge resultar. O ter que ir é mais preciso do que se possa pensar, é pensar ser seguido pelo sim e de frente pensar ultrapassar o não. Mas ir para valer, ainda que tarde, significa entrar num córrego, como se a água fosse tinta e pintasse os pés de azul para sempre. Ir para valer, significa sentir a verde inocência de quem não se atrapalha por existir. Então vamos, temos que ir, e desta vez para valer.

(Ombuto in Terra Ignota).
 
O córrego azul

Descentralizando aquilo que é demasiado óbvio... que já não é certo, nem surpreende... agregando um simples lar... à central do esforço... ao conforto que prende... (Ombuto - A Fúria das Palavras).