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Poemas, frases e mensagens de Ombuto

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de Ombuto

Sementes de nêspera

 
No segundo dia esquisito - para não variar - de Primavera, depois de uma noite quente e de uma manhã menos quente, localizo sementes esmagadas de nêspera pelo asfalto. Que desperdício. As nespereiras dos quintais já estão carregadas, só que não estão totalmente sarapintadas de amarelo-torrado. Tudo indica que os frutos maduros - principalmente os que estão à-mão-de-semear - têm sido subtraídos por quem se esgueira pelos muros alheios. As mais inacessíveis permanecem no topo e parecem ser sempre as mais apetecidas. Que se lixe. Que os pássaros lá cheguem primeiro. Um dia destes juro que vou ao supermercado e compro um quilo delas; assim saboreio a Primavera e ainda jogo as sementes intactas num terreno baldio.
 
Sementes de nêspera

Ainda há vaga

 
Quando se enche tudo o resto, ainda há vaga na não-desistência. É o trabalho dos últimos a chegar. Na verdade, nem tudo está cheio; porque cheia está a desistência que a vaga não comporta.Todos sabem que todas as últimas vagas serão preenchidas por necessidade; mas nem sempre o necessitado necessita de uma vaga para não desistir da vaga que quer. Há quem divague pela vaga-desistente: aquela que não prende o oportunista e, muito menos, quem procura ocupar o espaço que lhe é devido. Há quem vagueie pela vaga-persistente: aquela que persegue escondidamente o preenchedor e que se deixa capturar a qualquer momento. E, por fim, há quem seja a própria vaga, que ocupada é pelo pretexto de não vagar o que é certo para tentar o que é vago.
 
Ainda há vaga

A exacta medida

 
Sempre que se reveza o pódio de um bom momento,
entre palmas esbaforidas e hinos à certeza,
levantam-se braços e baixam-se cabeças.
Mas pouco ou nada se diz sobre a inexpressão,
e sobre o impávido movimento de cair em sí.

É preferível não saber sobre a falta de pólos inversos,
e tudo saber sobre as vertentes e as listas.
E porque é abjecta a saliência
que o desconceito faz na roupagem nua,
o melhor mesmo é fechar os olhos.

Ou então,
que desabotoadas sejam as intenções
que vestem os velhos hábitos.
E que não seja pelo calor das convicções
ou pela tensão da clausura em que está a expansão.
Que seja pelo desleixo, pela pura informalidade
e pelo fim da exacta medida,
que afinal,
nunca encaixou em nada.
 
A exacta medida

A sombra que agora toca com os dedos de um monstro nas costas de um peixe que só agora se assusta

 
As sombras já não estão no mesmo sítio. O movimento de inclinação do eixo de rotação da Terra semeou tonalidades sombreadas que não existiam no caminho de todos os dias. A solução passa por caminhar mais cedo, quando o Sol ainda está mais alto. Que mude, portanto, o biorritmo para que haja adaptação e para que as sombras fiquem no mesmo lugar de sempre. Há, pois, um pedido de estabilidade permanente escondido naquilo que se quer alterado. E, em certa medida, a única súplica que existe, se houver alteração, é que nada se altere para pior.

De que outra maneira é possível mudar as sombras adormecidas sem que seja preciso esperar por Estações, equinócios e solstícios? Uns dirão que a arte está em mergulhar de cabeça nessas escurecidas coisas que vão pintando as coisas. Há obras-primas que resultam destes mergulhos. Outros dirão que o próprio corpo lhes tapa a luz, e que lhes transfigura a presença numa simples silhueta projectada sobre tudo e todos. Depois há quem se apavore e que fuja desse fantasma que engole fotões, e que se agarra como carvão numa espécie de assombro que só desaparece no escuro.

A verdade é que as luas vão passando sem cessar a cadência; embora cada passo terrestre pareça continuar mais ou menos o mesmo. É difícil saber o exacto ponto em que se vai abrandando o fulgor das passadas de mestria, e em que se vai acelerando o encurtamento das distâncias (antes percorridas sem dificuldade). Nada tem a ver com o rigor da época das chuvas na Ásia, e nem com o esperado período seco de um Verão no sul da Europa. Porque isto de passear por aqui não é pontual nem arrebatador como todos os ciclos que vão e voltam. É só um reconhecimento tardio das novas condições que se vão instalando. Há um piscar de olhos e de repente a sombria acomodação noutro padrão não se fez sentir o suficiente. Entre o novo e o velho está um triângulo de mistérios da transformação, e uma cavidade sem fundo que alberga um relógio-de-sol.

Vejam os peixes das docas, que há bem pouco não se assustavam com o mundo acima deles. A não ser com a predação alada e, às vezes, com umas pedradas atiradas pela miudagem, pouco ou nada havia que os removesse da aparente apatia. Mas, neste momento, eis que estão mais vulneráveis à mudança; ou então, estão mais protegidos por ela (não se sabe). Como não há vento dentro da água, não são como zebras que contra o vento cheiram a sudação do leão. Mas porque a Estação do ano mudou, o que lhes dá aviso é exactamente a sombra que rodou. A sombra da mesma pessoa que sempre ali passou àquela mesma hora sem ser notada. A sombra que agora se estica distorcida pela ria adentro. E a sombra que agora toca com os dedos de um monstro nas costas de um peixe que só agora se assusta.
 
A sombra que agora toca com os dedos de um monstro nas costas de um peixe que só agora se assusta

Falta imaginação à exigência

 
Falta imaginação à exigência
e numa listagem a mesma perdura
Acorda o fantasma da impaciência
arrepia-se a palavra mais dura...

Tudo o que encarna rigor sintético
não possui natureza e veredito
E que susto ser alvo anestético
do exigido que se faz erudito...

No assombro do conluio desgastante
entre esta fauna que habita favores
Desmerece companhia filtrante
toda a ganância que engana valores...

A triste sonda da inconveniência
exige da falta uma falta de ar
Falta imaginação à exigência
e antes que se deixe de imaginar...

(Poemas: Falta imaginação à exigência In Pequenos Rastos: Ombuto, 2013).
 
Falta imaginação à exigência

Livraram-se as formigas que mordem dolorosamente

 
Livraram-se as formigas que mordem dolorosamente de tantas ocasiões para morder, porque nesses momentos não houve ameaça à altura do medo que tinham. Só que um dia vieram sem qualquer pretensão; apáticas e frias. Contornaram a árvore-sóbria, viva e imponente, que por elas passou sem movimento. Depois cortaram o ar com as antenas e sentiram que outra presença estava em redor. Encarreiraram-se instintivamente por ordem expressa do seu comportamento estruturado, fixo, eusocial e com movimento; e ainda pararam estranhamente a meio. Não sei quem descansava sentado encostado ao tronco. Não sei inclusive se uma arma de caça também se encostava à mesma coisa. Certo é que a imagem estéril inocentava qualquer agressão, enquanto combinada fosse com a lógica de uma desculpa por acontecer. O que se ouvia naquele instante não alertava para nada; eram sons primordiais que faziam parte do presente, e que coincidiam com a escalada das formigas pela perna de madeira. Então subiram, tomaram as devidas posições e ficaram à espera do sinal de ataque. Entretanto, mas que silêncio anterior à vida se fez sentir antes que o veneno fosse injectado simultâneamente e repetidamente na pele do caçador. Não esperei. E em cima da hora a força do marfim falou mais alto; a ramagem estalou e a terra tremeu. Um verdadeiro gigante acordou. Foi útil o alvoroço para que acordasse também aquele que dormitava cansado à sombra: sacudiu da perna humana os insectos, pisou no carreiro com total desprezo e, por fim, procurou um abrigo do seu tamanho. E foi assim que se livraram as formigas de atacar. E que se livrou a caça de oferecer a vida por migalhas. Mas o homem desculpado que se afastou sozinho, esse perdeu a presa, o sono e a morte - com razão, eu creio.

("Livraram-se as formigas que mordem dolorosamente": Ombuto in "Terra Ignota").
 
Livraram-se as formigas que mordem dolorosamente

Cortados pela metade

 
Tenho tido algumas conversas com gente que veio de África (como eu), e que na altura tinham trinta ou quarenta anos de existência; que não é o meu caso. Eu tinha somente dezassete meses (de idade) quando vim. E a sensação que me fica é que foram decepados. Da coisa intacta, com sentido, desprendeu-se uma estranha forma letárgica que deriva, porque a determinada altura algo deixou de ser algo. "Sinto que nunca mais fui eu": é o que lhes sai da boca de vez em quando. E isto não é proferido com ódio - é que já lá foi o tempo da juventude e do sangue que eles tinham na guelra. Estão vencidos e injustiçados - só isso.

Por esta constatação pode-se depreender que a primeira metade da vida é decisiva. Muito dificilmente alguém se adaptará por completo a viver a segunda metade (da vida) noutro lugar. Há excepções individuais (é óbvio), mas em conjunto - num êxodo de grandes proporções - é uma utopia pensar-se em adaptação. Não existe.

Tal como os algarvios são portugueses do Algarve, os Retornados (assim chamados) eram portugueses de África e, por este motivo, propagadores da alma lusa além-mar. Ou seja, sempre houve uma forte (e inegável) ligação (cultural, religiosa e até de costumes) entre os habitantes do antigo império ultramarino e a metrópole. Caso contrário, a integração de meio milhão de pessoas - aquando da Descolonização - não teria acontecido sem grandes sobressaltos.

E mesmo com toda esta afinidade, as pequenas diferenças inter-continentais causaram toda a diferença. No fundo, os portugueses de África já eram outro povo. Com poucos séculos de permanência em outra latitude, e após a miscigenação de hábitos e de raças (nem sempre pacífica, como seria de esperar), o resultado final estava à vista e era positivo, e ameaçador...

Mas, o pior disto tudo é que a destruição de países pelo mundo tem prosseguido (do mesmo modo) ao longo dos anos. Médio Oriente e América do Sul são retratos hoje (com as devidas nuances) do que se passou na África subsariana no século passado. Nada consegue ultrapassar a arte da guerra-fria, da geoestratégia e do petrodólar. Aliás, neste palco são sempre apresentados os melhores protagonistas da actualidade. E o "santificado" apelo à ambição (local) e ao emotivismo ideológico (geral) será sempre o melhor cartaz possível.

Para quem destrói países não há Esquerda nem Direita. Nem democracias nem ditaduras. Há dinheiro, Poder e hegemonia. Sobra o espólio para os que ficam (mas piores do que estavam). E sobra a sobrevivência dos que partem (mas cortados pela metade).
 
Cortados pela metade

Coreano versus indiano

 
Em tempos, na cidade onde cresci, havia um coreano perito em aikido. Sinceramente, não faço a mínima ideia se seria oriundo do Norte ou do Sul da Coreia. Conheci esta figura enigmática quando entrei para o judo. Enquanto treinávamos, ele mantinha-se numa área mais remota do tatame. Aquecia sozinho e treinava sozinho. Mas aos poucos, no final das actividades, predispunha-se a ensinar alguns golpes a quem quisesse aprender.

Nesta altura, eu era muito pequeno, nem sei se andava sequer na escola. Duas ou três vezes por semana a minha mãe vestia-me o kimono (um ou dois números acima do meu tamanho, que era para durar), dava-me a mão, e lá íamos nós pela rua. Certo dia, num destes trajectos, um indiano (de cabeleira farta) ao ver o meu traje de luta, aproximou-se e perguntou, em português deturpado, pelo endereço do dojo. Depois de devidamente informado, agradeceu e seguiu viagem. Passado algum tempo, para surpresa minha, eis que há um encontro de titãs: coreano versus indiano. Passo a explicar: as orientações foram bem dadas e o indivíduo, obviamente, deu com o lugar.

Naquele dia, ou melhor, naquele início de noite (é que às dezanove horas no Inverno é noite cerrada), as portas da antiga garagem já estavam fechadas. Só que ninguém arredou pé da rampa de acesso. Um sujeito alto, magro e com pernas de grilo estava frente-a-frente com aquele outro sujeito atarracado, entroncado e com pernas de rã. Comunicavam-se em inglês - o que para mim era chinês. Riam e gesticulavam bastante, enquanto que permaneciam no centro de um círculo de judocas. Estariam, suponho, em conversações para porem à prova as eficácias das suas respectivas artes (marciais).

Além de ser parecido com o Neil Diamond (quando era novo), o hindu, ao que parece, era cinto negro de taekwondo; pelo menos, a avaliar pela demonstração de patanços que aquelas gâmbias exibiram para o ar, tudo leva a crer que sim. O outro - do Extremo-Oriente - tinha não sei quantos dans e não se mexeu; fez apenas algumas vénias respeitosas e sorriu cortesmente (de tal maneira, que os olhos quase fechados mais fechados ficaram). Enfim, não houve propriamente um "grito" de gato para dar início às hostilidades (até porque não estávamos, com o Lee e com o Norris, nas ruínas do Coliseu de Roma). Mas deu-se a partida à mesma.

O candidato da casa mostrou-se defensivo e nunca atacou. Somente pediu para ser atacado. Gerou-se então aquele típico momento do "olha-que-eu-dou" e o "podes-dar-à-vontade"; e a determinado instante a coisa desbloqueou. Um pé (de comprimento quarenta e muitos) precipitou-se a alta velocidade em direcção àquele rosto amarelado. Porém, centímetros antes do embate, o alvo desviou-se harmoniosamente, acompanhou o movimento, e ainda teve tempo para agarrar o calcanhar do atacante. Resultado: uma torção sublime e o Aquiles mergulhou de cabeça.

O que veio a seguir foi pura comédia: cada vez que os nervos dos metatarsos eram comprimidos, havia contorção e dor. E a gargalhada foi geral na plateia inclinada. Mais hilariante (e paradoxal) do que isto, só mesmo o predomínio do Japão (que vestiu a pele da Coreia), e a rendição da Coreia (que vestiu a pele da Índia). É que o aikido é japonês, e o taekwondo é coreano.

Resumindo, estava derrotado o visitante. Ganhamos.
 
Coreano versus indiano

O bicho-papão

 
Dando uma vista de olhos pelos comentários, crónicas e artigos de opinião que se espalham pelos jornais portugueses, é vê-los desesperados (da esquerda à direita) pelo insurgimento popular a favor do fim do regime (dito democrático). Esta nova palavra de ordem é na boca destes militantes do partido do Estado, o novo bicho-papão que ameaça a democracia imposta. Afinal, o modelo de governação tem vindo a resultar generosamente para eles - e só por isso é perfeito e insubstituível (parece óbvio). Com referências directas ao populismo, que tanto abominam, o discurso em uníssono desta trupe (assim sendo, elitista), ao longo destes quarenta anos de traição, mostra sinais de fraqueza. Não que alguma coisa vá mudar, ou que possa haver a implosão deste regime. Não acredito. Acredito sim, que algumas máscaras possam descair um pouco mais, e que finalmente um dia possamos saber (para quem ainda não sabe) de que má estirpe são (ou foram) feitos os "tais grandes" anti-fascistas nacionais. Pena é, que a descendência deste mal não mostre intenções de abrandamento, quer pela mão dos seus discípulos aplicados, quer pela condescendência daqueles que se pudessem fariam o mesmo.

(Crónicas minimalistas: Ombuto, 2014).
 
O bicho-papão

Os "manientos"

 
Desde tenra idade que lidamos com a mania, inclusivé com a nossa. Ela é presenciada na escola, na nossa rua, no trabalho e mesmo entre amigos. Não deixa de ser um fenômeno alguém ter a mania que é melhor do que os outros e que mesmo assim, ainda se consegue destacar por esta bizarra característica. Sinceramente, sempre tive alguma dificuldade em ter algum tipo de amizade com a mania das pessoas, pelo menos aquelas portadoras de mania crónica, porque a mania aguda e passageira parece ser sintomática em qualquer ser humano que se preze. O maniento, propriamente dito, normalmente goza deste síndrome pela vida fora, não consegue desprender-se, embora num ou noutro caso ele se aperceba que tem que mudar qualquer coisa, então é comum encher a boca para dizer que tem atitude, signifique isso o que significar no dicionário da mania. Agora o mais relevante e curioso é que o maniento acredita mesmo possuir poderes especiais sobre os outros - os presumíveis inferiores a ele - de tal maneira, que chega em certos momentos, a mostrar compaixão e até mesmo um lado paternalista de educação e protecção, para com os seus fiéis súbditos. De burro, o maniento, faça-se justiça, não tem nada, pois sabe muito bem e cirurgicamente quando deve bajular ou desprezar, para alcançar os seus meios e os seus fins rumo ao estrelato. Em regra geral, o maniento é rodeado e suportado por dois tipos de pessoas: Os vulgos "Marias vão com as outras" e os outros manientos. Os "Marias vão com as outras", como se constata pelo nome, são aqueles que pelo sim e pelo não, preferem seguir um pouco todos aqueles que têm alguma plateia, o que efectivamente os manientos têm, vá-se lá saber porquê. Os outros manientos são aqueles que, como seria de esperar, encontram afinidades entre sí e portanto atraiem-se e entendem-se mutuamente, mais que não seja para se degladiaram em público, numa exibição em forma combinada e num acto desesperado pela satisfação das suas manias. A verdade é que, com toda a mania que me assiste, os manientos fazem falta à sociedade, são os desenhos animados da nossa vida adulta, os elementos interlocutores que recordam a infância dos nossos sonhos, quando um dia pensamos que seriamos heróis invencíveis.

(Os "manientos": Crónicas, Ombuto, 2012).
 
Os "manientos"

Corta-mato

 
"...Também faz-de-conta quem vem lá, e assim torna-se impossível ver claramente. Inúmeras vezes a cabeça guinou suavemente, sem que os olhos correspondessem. Interessava somente distinguir aquelas manchas animadas no horizonte. Porque o olhar, esse de tão fixo, era de medo e metia medo. Volta-e-meia, cansavam-se as vistas e uma espécie de estrabismo dava impressão à lógica. Mas mesmo assim, e com todos os pruridos circundantes, nada teve coragem de pestanejar..." (Ombuto in Terra ignota).
 
Corta-mato

Os toscos

 
Para quem não rima com o lugar onde habita, tudo aquilo que lhe é devido, por direito, é tosco. Se um verso ou outro, vazio, não for feito pelos seres sem poesia de atitude, não há paz imperturbável possível. E mesmo que mutantes sejam estes seres, nos deveres a que se disciplinam, pouco importa; porque eles sempre serão continuamente toscos, e toda a perfeição por eles fabricada será sempre o produto da vontade morta. Então, só há obra na imperfeição quando não há poema legítimo, e quando a tosca forma que os toscos têm de ver o mundo é totalmente falsa e perfeita.
 
Os toscos

A desconhecida

 
O rabo-de-cavalo fica-lhe imponente; fica-lhe a matar. O que aliado àquela postura firme e de ombros não descaídos, impressiona e satisfaz. Às vezes anda de bicos-de-pés e parece que patina entre as mesas. Outras vezes dança e canta subtilmente ao sabor da música da televisão. Pela distância, não alcancei o aroma que lhe sai da pele mediterrânica; mas imagino que seja endórfico e que esteja fora da minha imaginação. O perfil do rosto é de uma escultura; de uma harmonia segura, inalterável e bela. O nariz é pura arte simétrica. Os lábios ligeiramente projectados ao mesmo nível do queixo sobre o maxilar suave e bem desenhado, erotizam qualquer pensamento. Sim, o olhar é arrogante, sem dúvida; de uma arrogância não-comprovada e misteriosa, que eu gosto. Os olhos são suficientemente abertos, sem arregalos, pouco mortiços, e sem qualquer ansiedade: uma tranquilidade. As pestanas de tão negras são visíveis ao milímetro. E as sobrancelhas, tal como ela, estão lá no cimo, bem altas, intocáveis. Depois vem a expressão que, apesar de fechada e carrancuda, também sabe sorrir; mas não para mim, é claro. E quando o marfim dos dentes cuidadosamente enfileirados, sobressai acompanhado por aquela pequena prega no canto da boca, um raio excede-se e expande-se: e é uma força natural que me atinge.
 
A desconhecida

Há trinta anos atrás?

 
Há um corvo-marinho fora de água que ao invés de estar - como costuma estar - empoleirado de vigia numa bóia (ou numa pedra), está na rampa dos barcos. E ainda por cima de asas abertas. Estranho. Asas que pela cor e pelo formato (recortado) fazem lembrar a capa do Batman. Mas, acreditem, o animal mostrou realmente a coragem de um super-herói: afinal, aguentou inabalável a minha suave aproximação. Só deu de frosques no último metro. Estranho. Pois é, parece que o corvo-marinho já vai estando mais à vontade a meio da estação do ano que o trouxe para cá. Já é mais abundante e já não anda tão sozinho. Ele sabe agora que os perigos desta zona não são assim tão perigosos. Então facilita.

Olhem, lá está outro a boiar. De corpo negro e com aquele pescoço comprido que termina nas faces brancas (ou amareladas), faz lembrar um periscópio à espreita. Sim, já sondou exaustivamente as imediações. Daí que não seja incomum vê-lo confiante junto às margens e, por vezes, a fazer parelha (ou a competir) com a garça. Costuma andar a atrás do peixe que se barrica nos buracos do entulho. Todavia, outras ocasiões há em que apenas se consegue ouvir a agitação do seu mergulho. E se virarmos a cabeça, eis que um submarino avícola persegue um torpedo piscícola. Passo a explicar: o nosso Batman, nestas ocasiões, cola a capa ao corpo, metamorfoseia-se numa seta e nada a alta velocidade. Objectivo: capturar o alimento, ou melhor, o inimigo-de-escamas.

E por falar em inimigos e em submarinos, aqui o inimigo (como quem diz), pelo modo como andam riscados os alicerces da ponte-velha (dos carros), também anda a mostrar-os-dentes. "Rússia" é o que está escrito a vermelho nas paredes dos pilares do tabuleiro (e em tom de assinatura de um gangue rasca). Porém, ainda que os submarinos da ex-URSS tenham voltado a patrulhar o Atlântico-Norte, não me parece que os marinheiros das profundezas tenham predisposição para vandalismos pseudo-artísticos. E uma imitação "arrusalhada" da ousadia que o submarino nipónico teve ao tentar invadir a Califórnia - isto, claro, na hilariante comédia de há trinta anos atrás "1941 - Ano Louco em Hollywood" - é completamente absurda. Além disso, as águas pouco profundas de um estuário não comportariam a envergadura de tal embarcação submersa. Aquilo deve ser coisa de miudagem oriunda das terras de Staline. E, quiçá, de segunda geração; afinal, a primeira vaga migratória da Europa de Leste (para Portugal) já foi há mais de uma década. O pior é que para quem viu o "Amanhecer Violento" (há trinta anos atrás) a coisa não é tão simples de processar. É que o bloco Ocidental, durante a Primeira Grande Guerra Fria, interiorizou vincadamente a propaganda Norte-Americana. Resultado: para quem cresceu nos anos oitenta, existe - algures perdido no subconsciente - a aterradora imagem de que numa bela manhã acordaremos com o céu recheado de pára-quedistas soviéticos (ou chineses, ou cubanos...).

De qualquer modo, antes a Invasão do que o Dia Seguinte à Destruição - pensamos. Lá está: o cenário pós-apocalíptico para quem viu o "Day After" (há trinta anos atrás) permanece em carne-viva gravado na memória. No entanto, o que alimentou a tensão Leste-Oeste por mais de quarenta anos (bem como a paz-podre) foi precisamente o medo da explosão-em-forma-de-cogumelo. Pelo menos, até o anúncio do Programa Militar Guerra-das-Estrelas (não o de George Lucas; o de Reagan), e até à queda do Muro-de-Berlim. Veio então o "Glasnost" e a "Perestroika" e suspiramos de alívio; até que a Rússia ressurgiu das cinzas. Agora, em plena Segunda Grande Guerra Fria, por não acreditarmos ser possível repetir tamanha loucura, andamos entretidos a rir das cabeleiras do Trump e de Kim Jong-un. Junte-se a isto uns pozinhos do "Pensamento de Xi Jinping" e mais os cinco filhos por casal pedidos por Erdogan à diáspora turca, e temos uma poção efervescente a borbulhar por todos os lados.

Então pensamos: estaremos a retroceder no tempo? Porque senão veja-se: em "War Games (há trinta anos atrás), e sem "World Wide Web", ficcionava-se que um miúdo com um computador pudesse brincar seriamente às guerras, e ao ponto de quase provocar uma terceira grande guerra mundial; mas só hoje é que temos Internet para todos, e a ingerência Russa, e as "fake news"... Mais: em "Two minutes for midnight", os Iron Maiden (há trinta anos atrás) cantavam (ou contavam) os minutos para o fim do mundo; mas só hoje é que os cientistas adiantaram o relógio-do-apocalipse mais trinta segundos. Estranho.

Enfim, não se trata de fazer a cantilena do mau-agouro. E ainda que os corvos tenham metido o bedelho, não há aqui a mínima pitada de superstição. Até porque os corvos desta história são marinhos e, provavelmente, menos inteligentes do que os seus primos terrestres; e além disso fazem lembrar o Batman, que é bonzinho. Muito embora, verdade seja dita, persistência e técnica não lhes falte. Prova disso foi o estardalhaço que ouvi quando as gaivotas quiseram roubar a pescaria de um deles, e não conseguiram. "É uma dourada" - disse um homem de bicicleta que como eu presenciou o espectáculo. E de seguida, e para tristeza dos salteadores, a dourada escorregou rapidamente para o bucho do pescador-de-asas. É um lutador (este pescador). E por falar em luta: serão estes corvos-marinhos também os mesmos de há trinta anos atrás? Não serão certamente os mesmos exemplares; mas talvez seja mesma espécie - sem evoluções ou regressões. E, esperemos, sem mutações trazidas pela radiação das centrais nucleares que explodem.
 
Há trinta anos atrás?

Movimento

 
"...Há uma nítida desfluidez locomotora quando o movimento suplica por outra direcção. Algures no "flash" de uma câmara viva, ou como quem diz, no brilho de um olho, às vezes eternizam-se movimentos desprovidos de qualquer força. Há quem goste das captações de outrora, guardadas numa caixa de corda, que ao desenrolar toca baixinho uma história. Outros não, outros até podem ser movidos a vapor, mas não se deixam ficar, mesmo que entorpecidos pela cadência de um comboio antigo..." (Ombuto in Terra ignota).
 
Movimento

Nunca tive um gira-discos

 
Ainda que exista uma corrente de regresso, mais ou menos elitista, aos gira-discos, a verdade é que hoje o Youtube e o Mp3 praticamente extinguiram o som analógico e as saudosas aparelhagens de audio. De qualquer maneira, começo por dizer que eu nunca tive um gira-discos. Dadas as circunstâncias tumultuosas de adaptação que a minha família, e que os Retornados em geral sofreram no início, tive que me contentar com os reprodutores de cassetes e com os rádio-gravadores de cassetes. Apesar disso, existiam discos na minha casa, aliás, uma pequena mas bela colecção de LP's, que os meus pais ainda conseguiram encafuar numa mala qualquer. Gira-discos é que não existia mesmo. Imagino que não tivesse havido espaço nem tempo para tal, e que alguém durante o processo de Espoliação em Angola, alegremente o tenha subtraido.

O diversificado naipe de discos Ultramarinos ia (e vai) desde o Jazz aos Tangos argentinos, passando ainda pela música Clássica e pelo R&B. Os vinis devem ter estado guardados, aqui em Portugal, durante uns 15 anos. Só depois, é que um dia, resolvi levá-los a um amigo - com gira-discos - para ouvi-los com a maior curiosidade possível. Gostei particularmente de Bobby Womack.

Anos mais tarde, quando já havia maior estabilidade financeira, e após tanta insistência, lá os meus progenitores com alguma dificuldade resolveram comprar-me (e a crédito) uma aparelhagem da Sony. Contudo, não foi desta que tive um gira-discos. Afinal, estávamos no final dos anos 80 e o som digital do Compact Disc começava a ditar o rumo da indústria musical. Resultado: a minha estimada HiFi vinha somente equipada com 1 leitor de Cd's e 2 leitores de cassetes.

Foi por esta altura também que o acesso à música ficou mais facilitado e que a pirataria musical, presumo, teve a sua primeira vitória arrebatadora. A coisa era simples: pediam-se emprestados os álbuns e gravavam-se em cassetes. Não esquecendo que, para caberem mais, só as faixas que mais gostávamos eram seleccionadas. As velhas BASF Chromium (mais caras, mas que valiam pela qualidade) serviam bem o propósito, inclusivé, para copiar aqueles discos compactos que alugávamos. Sim, pelo menos aqui na minha cidade existiu uma loja deste tipo, que comicamente, até tinha um aviso na parede a proibir as cópias.

No que diz respeito ainda a esta tecnologia sonora do Passado, é curioso ressaltar o cheiro que todo o equipamento tinha ou que emanava das suas entranhas. Era um cheiro característico, que estava tanto nas esponjinhas cor-de-laranja que cobriam os auriculares dos headphones, como nas cabeças de leitura das fitas magnéticas. Talvez o fenômeno aromático tivesse a ver com algum tipo de metal utilizado na fabricação dos componentes desse tempo. Não sei. A verdade é que a memória olfactiva não me deixa mentir, e de cada vez que é activada, um rol de recordações (quase que emboloradas) ressurgem musicadas ao ritmo dos Cock Robin (imagino eu).

Money For Nothing dos Dire Straits, bem como 21st Century Boy dos Sigue Sigue Sputnik, são videoclipes que exemplificam bem este período, em que o Audiovisual teve a sua grande explosão e em que o consumo tecnológico massificou-se até hoje. Muito embora, desde então, eu ainda não tenha tido um gira-discos.
 
Nunca tive um gira-discos

O suicidário

 
Aos aquários os animais aquáticos. Aos partidários somente os animais humanos, ou melhor, os animalescos repartidos. E assim por diante. Este sufixo é um lugar associado com algo específico. Um lugar onde ser posto para ser visto exposto na vitrine. E, como é óbvio, a utilidade ou a inutilidade desta exposição varia conforme a perspectiva interior ou exterior ao lugar. No fundo, é uma diversão; não só de manobra, mas também de felicidade (e a muitas dimensões).

Poderão dizer que é uma selvajaria aprisionar e privar qualquer tipo de ser-vivo da selvagem vida que tinha anteriormente, mas o facto é que muitos gostam da atenção que lhes é dada. E ainda que alguma prisão seja fruto da índole que lhes foi redigida na auto-criação dos seres que são, a cela escolhida é a couraça perfeita para um espécimen sem a musculatura da liberdade. Ou então, é a célula do terrorismo dos argumentos que possuem, que alimento-vivo lhes dá até à obesidade maniqueísta.

Todos os bichos são reconhecíveis dentro destes lugares. São morfologicamente exactos aos que deambulam livres na Natureza. O que pode haver, devido à falta de espaço, é talvez algum encolhimento de um ou outro apêndice intelectual; tal e qual como a barbatana que se dobra sobre o dorso de uma orca dentro de uma piscina.

Para quem vê a bicharada em exibição, toda esta preguiça aparente tudo lhes pode parecer: talvez ciência, entretenimento, ou mesmo repulsa. E do espectáculo podem resultar aplausos, apupos, a conservação das espécies, ou mesmo o activismo pelo fim da escravidão animal. Não interessa, são pluralidades acarinhadas pela demagogia dos lugares que se cruzam, interessadamente.

Era bom que se conjugasse tudo num só projecto, onde protagonistas e visitantes fossem colocados em extrema interacção suicida: dois a dois de cada vez, para ver quem primeiro se mata de tédio. Seria, portanto, um projecto de duelo-inverso, mas livre de vidros, cercas ou arames; e numa floresta que tivesse entrada e que escondesse a saída. Na realidade, seria um documentário de presas e predadores de igual força; e onde o mito do escorpião e do anel de fogo fosse posto em prática.

Mas o lugar de projecção do auto-extermínio não teria que ser mortífero. Só teria que apagar, do mapa da privacidade, todas as cúpulas protectoras, todos os arcos e todos os "ários" (inclusive, os imaginários). Este lugar teria que desprezar qualquer tipo de lugar de exposição ao público a favor de um suicidário secreto. E tudo num espaço de abrigo natural, onde todos seriam naturais no processo natural de acabar com a própria vida que dá vida à morte-viva.

No suicidário habitaria a casta aversa aos sintomas falsos da auto-estima. Seriam misantropos de pensamento os habitantes, mas também simultaneamente acolhedores de quem pensa sem as travas da bondade esperta. Nesta casta, ninguém teria que aturar a ridícula importância que cada um a sí se dá por detrás dos limites em que se encerra. O suicidário deixaria que todos fossem desiguais, desagrupados e sem purezas de carrossel. Na falta de mirones, neste complexo, todos baixariam as asas de pinguim, porque o plano seria planar sem ser ao sabor das correntes. E, por último, ainda que a morte tenha lugar em qualquer lugar, o suicidário seria sempre o lugar onde os suicidas não morrem; vivem.
 
O suicidário

Estado-Homem/estado-medusa

 
Gosto da maré alta no rio e da maré vazia no mar. A limpidez do rio quando quase transborda os limites cheira-me a água-de-cura; e o mar quando se distancia pede a minha reaproximação. É uma relação homeostática, entre as duas soluções aquosas, imaginada pelo meu sentimento. Queria que os movimentos da natureza tivessem ainda mais influência na natureza de outras coisas que sinto. Não pediria um sistema nervoso ao pilar que marca as subidas e as descidas da maré; antes queria eu poder estar mais ligado às terminações fora de mim, que não sendo nervosas seriam outra coisa qualquer. Ter a possibilidade de me infiltrar noutros sistemas estruturais menos complexos seria encorpar-me de maneira diferente noutra presença e noutros contactos. Sentir para além do que tenho seria descentralizar-me e sair do acomodado binómio tristeza-alegria. É antagónico, mas estar prisioneiro da complexa estrutura da emoção, dá-me todo o poder criativo de querer ser simples, e toda a vontade de querer ser sensível somente aos estímulos da sobrevivência.

Há, portanto, experiências sensoriais que não estão dependentes da acção, e que habitam somente um lugar (ainda?) mal-empregue. Aliás, não se trata de uma questão de agir para que não sejamos abaixo do comum e de pouca importância. Agir não nos parece tirar da máquina que nos foi dada a vestir. Agir conta sobre nós, e sobre a nossa programação sensitiva. O miúdo tem jeito para cantar, o gajo desenha bem, aquele cabrão é um ladrão. É fácil. No reagir é que parece estar a mudança e a obscuridade. Responder, quando não é reflexo nem estudado, toca na essência de se ser humano. No colectivo temporal como poderemos prever o que nos vai afrontar ou glorificar? E qual a bagagem cultural que já teremos a determinado ponto, ou em que sítios vamos calhando e o que vamos vendo para que possamos dar determinada resposta a determinada pergunta? É o caminho da imprevisibilidade reactiva que atenua os efeitos nocivos da acção que repetimos vezes sem conta; mas é um caminho sinistro, e que mesmo assim não se desfaz das duas únicas sensações a que estamos confinados: a boa e a má.

Ter a central do processo que faz do espaço uma imagem a muitas dimensões - para que possamos saber que existimos - num cérebro, não nos deixa ser metamorfos. E isto é imperdoável para tanta complexidade. Seria interessante, quando não quiséssemos pensar em sensações, viajar entre o estado-homem e o estado-medusa (por exemplo). Que magia seria esta? Para quando a capacidade de podermos migrar o peso da massa encefálica para o estômago, e de sermos constituídos por 95% de água? Aproveitaríamos o melhor de dois mundos. Teríamos o prazer da consciência quando desejássemos os cinco minutos de fama; fama por aqui estarmos privilegiadamente acordados como se o Universo a olhar estivesse para o próprio umbigo num dia de bem-estar. E teríamos também a hipótese de reverter à primitiva forma, num lugar onde possuíssemos o prazer de não saber que a existência, afinal, é a nossa única realidade.
 
Estado-Homem/estado-medusa

História do turbilhão entre-tédios

 
Dia de chuva quase torrencial e, por isso, quase ninguém a passear em espaço-aberto. Sem grande luz e sem grande visibilidade há um caminho agora sem enfeites humanos. Quando o guarda-chuva se esventrou com a rajada de vento por pouco não me arrependi. Só que a meio do percurso a coragem é maior (ou então, o medo reparte-se), e a vontade vence arrependimentos. Com uma vareta dobrada e outra partida, mesmo assim, a minha cabeça viu-se livre da molha. Em contrapartida, entre as meias-de-lã e as palmilhas, passou a existir uma macia (mas gélida) caixa-de-água. "Chuac", "chuac" - ao som, portanto, dos pés encharcados deu para chegar à desembocadura das águas pluviais. Aquilo jorrava com tal pujança que parecia as do Iguaçu (as cataratas, claro). Presumo que a cidade se tivesse sentido mais limpa com a chuveirada. E, além disso, a água-suja (do banho citadino) não encheu muitas poças pelas ruas (que eu saiba). Em contrapartida, com tanta doçura, a permilagem salina do estuário deve ter diminuído alguma coisa. O que aumentou de certeza foi o barulho. Que o digam três das principais espécies avícolas e estuarinas da região, que tão atraídas foram pelo acontecimento (ou pelo musicar das quedas-de-água, quem sabe). Gaivotas a montes, um corvo-marinho e uns quantos garajaus, circundavam, em aparente sobressalto, a novidade. Sei lá; talvez houvesse peixe no turbilhão.

Não há nada de raro (ou de novo) na chuva, como é óbvio. Só que a chuva não é tão frequente nestes quadrantes quanto a luz-do-sol. O que é raro, por exemplo, é ter nevado no deserto do Saara. Sim, aqui está frio, é verdade (não tanto como esteve no Saara, claro); e a chuva dizem que até aquece a temperatura. Entretanto, as nuvens abriram-se após borrasca e as pessoas saltaram das tocas. O bonito quadro-a-nu, a preto-e-branco e desfocado pelas gotas cristalinas, voltou a tomar as cores nítidas e berrantes da normalidade. Além do mais, para provar o regresso ao que é banal, nada como um avô a apontar para um veleiro e a dizer para o neto: "aquilo até dá pum gá dremir ali dentre" (tradução: aquilo até dá para um gajo dormir ali dentro). E já agora, aproveitando a deixa e só para variar a história que se repete todos os dias, um Viva para quem se aventura (sozinho) a velejar na travessia atlântica. E por falar em dormir, nada como dormir sem qualquer ideia e acordar almareado com toda a disposição para resolver qualquer temporal. Não acham?

Enfim, relembrando David Attenborough, o planeta Terra é um Planeta-vivo e em constante dinâmica. E é dificil, por esta razão, que o tédio por aqui se estabeleça de uma forma aguda. No entanto, mesmo que as verdades absolutas sejam, em certa medida, circunstanciais, a história de cada um nem sempre é (ou será) digna de um filme. Poucos ficaram (ou ficarão) para a História. Poucos escaparam (ou escaparão) da derradeira segunda-morte. É que tal como a matéria-negra entre a matéria, o tédio também existe (entre a massa-cinzenta) sorrateiramente e em abundância. E o grau de presença prática que manifesta, apesar de baixo na maioria dos casos, exige - como dizia Fernando Pessoa - a convalescência do momento. Para vencer o tédio há um remédio contido nas arestas de cada curva. Para vencer o tédio há uma diferença capacitante que sobressai, sem necessário pormenor, sobre a incapacidade geral. Ou seja, para vencer o tédio há uma cura que se quer ininterrupta...

Aliás, certamente tu e eu não faremos História. Porém, há momentos em que sabemos que estamos a fazer história (na-nossa-vida, evidentemente). Ainda que muitas vezes só seja história porque teria sido normal que já tivesse sido feita há mais tempo. As atrasadas conquistas pessoais costumam ter este efeito. Seja com o primeiro beijo ou seja com a carta de condução - e fiquemos com isto efusivos ou desiludidos -, um marco é espetado no centro da nossa memória; e só porque é comum (e funcional, quem sabe) que assim seja. Quer dizer, de uma maneira ou de outra, a nossa própria sensação de história está reduzida a parâmetros pré-definidos (ou melhor, é definida pelo tédio que vem de fora). Daí que uma chuvada (mesmo que esperada), um elogio-inesperado, os percalços e as surpreendentes-conversas, possam de algum modo causar agitação. Ou então, que de algum modo possam ser o turbilhão que aparece de vez em quando. E, depois disto, só a posição tomada após a reposição da ordem é que pode alimentar a verdadeira história. Afinal, entre-tédios, tudo pode acontecer.
 
História do turbilhão entre-tédios

Dias que se querem adiados diariamente

 
O simples facto de não sabermos, concretamente, como o dia vai começar, continuar e acabar (se acabar), deixa-nos completamente vulneráveis a nós mesmos, principalmente pela maneira como vamos reagir ao dia. Se a "matéria" de que são feitos os sonhos e os pensamentos, fosse facilmente convertível em realidades, provavelmente saberiamos ao pormenor e antecipadamente cada passo da nossa humilde odisseia diária. No entanto, existe algum tipo de índice de convertibilidade neste tipo de matéria, que nos transporta também, muitas vezes, para sequiosos rasgos de lucidez premonitória. Cada dia valoriza-se com mais ou menos intensidade, embora haja um custo acrescido pelo conhecimento desse valor, baseado normalmente na soma dos dias passados, que insistem em ser repensados. E sobre toda esta perda de dias, está acoplado um irreconhecível ganho, que não é contabilizado, é apenas sentido, armazenado e instântanemente esquecido. Se ganhamos um dia a mais na nossa carreira vivencial, é sabido que também perdemos mais um dia, relativamente a qualquer fim que possa estar próximo. E esta proporção de um para um, este equilíbrio subjacente na unidade temporal mais popular, literalmente equilibra-nos, perante o desequílibrio da nossa consciência sobre o futuro, imediato e longínquo. Possuimos uma reclamação constante em nós e uma sensação de injustiça por não sermos surpreendidos positivamente, neste ou naquele dia, ou seja, desejamos desalmadamente que a sorte nos sorria sempre, e só porque ela é a nossa eterna devedora - pensamos. Ficamos agregados de tal forma ao tédio desta cobrança, que as surpresas, se de facto existem, provavelmente também nos evitam, como que evitando o desconforto da nossa insatisfação. Sabemos intimamente que as acções diárias possuem um grande poder reflectivo - é óbvio - mas terão todas elas esse poder? Quem sabe! Nunca teremos certezas, embora, em última instância, a contagem dos dias nos pareça revelar que é possível medir a felicidade, porque é fácil aprender a somar um mais um, e assim pensarmos, mais uma vez, que mereciamos mais. Porém, quando expostos somos àqueles momentos, em que o som pára e os movimentos são tão lentos, de tal modo que podemos ver os pormenores superar a física, então aí sim, ficamos com a noção temporária de que a quantidade de felicidade é o bem mais comum e igualitário na face da terra. Ficamos com a impressão que nos foi dada, desde o ínicio, a todos nós, a mesma porção desse elíxir mágico e que a única diferença reside na desigualdade com que bebemos desse sumo apetecido. Talvez não haja mesmo a capacidade de medir o prazer de cada dia, mas há forma de conhece-lo pelo ângulo da nossa disposição e finalmente no fim, quando mais uma vez o Sol se puser, temos sempre a hipótese de fazer as pazes com essa força que se impôs, mas que também nos acolheu, durante o seu curto tempo de vida.

(Crónicas: Dias que se querem adiados diariamente: Ombuto, 2012).
 
Dias que se querem adiados diariamente

Descentralizando aquilo que é demasiado óbvio... que já não é certo, nem surpreende... agregando um simples lar... à central do esforço... ao conforto que prende... (Ombuto - A Fúria das Palavras).