O Impostor - Um Livro Luso Poemas - CAP XI - Quem Escreve em Meu Nome?

Data 29/08/2025 19:35:29 | Tópico: Poemas



O quarto 345 cheirava a éter e ferrugem.
Não havia ferrugem ali, mas o odor estava entranhado no ar, como se cada parede respirasse memórias de sangue e ferro. O monitor cardíaco piscava, frio, marcando uma cadência que parecia zombar da sua vontade de escapar.

Cael já não distinguia mais quando os remédios começavam ou acabavam. Os comprimidos vinham em copos plásticos transparentes, sempre entregues por mãos diferentes. Às vezes a mesma pílula tinha outra cor. Às vezes o gosto mudava. Ele engolia, porque não havia alternativa.

Mas não dormia.
O corpo afundava na cama, mas a mente se abria como um corredor iluminado por lâmpadas intermitentes. Ouvia vozes que os enfermeiros não percebiam. Sussurros vindos dos canos de água, cantos monocórdicos atrás das paredes.

Pandora nunca saía do quarto. Às vezes deitava sobre o peito dele, outras vezes se escondia debaixo da cama, com os olhos brilhando como carvões acesos. Não comia, não bebia, mas estava cada vez mais viva.

Na terceira manhã de sua internação, Cael foi levado pelos braços de dois enfermeiros até a sala de convivência. As janelas estavam cobertas por grades. Cadeiras de plástico enfileiradas, pacientes espalhados como sombras que respiravam.

— Vamos conversar um pouco, Cael — disse a psicóloga, uma mulher magra, cabelo preso em coque, sorriso treinado que não chegava aos olhos. — É bom compartilhar.

Cael permaneceu em silêncio.
Ao seu redor, vozes se erguiam, relatos entrecortados:

— Eu era professora antes... eles tiraram meus filhos de mim... — dizia uma senhora, enrolando os dedos nos cabelos.
— Eu ouço o rádio ligado mesmo quando ele está desligado... — sussurrava um homem de olhar fixo no chão.
— Ele vem toda noite, me chama... mas eu não vou... eu não vou... — repetia outro, tremendo as mãos.

Cael baixou os olhos. O coração acelerou. Essas frases. Eram quase idênticas às linhas escritas no diário de Adam.
"Ele vem toda noite."
"O rádio nunca se cala."

Cael ergueu o olhar. Os pacientes falavam, mas pareciam não se lembrar do que diziam. Como se fossem apenas canais por onde outra voz passava.

Pandora estava sentada no batente da porta, imóvel. Seu olhar o atravessava.
Cael compreendeu. Não era coincidência.

Mais tarde, de volta ao quarto 345, ele encarou o espelho pequeno preso acima da pia. Estava manchado, embaçado pelo tempo. Olhou fixo, e por um instante o reflexo sorriu antes dele.

Recusou-se a piscar.
O reflexo mexeu os lábios.
Nenhum som saiu, mas Cael entendeu. Era como ler pensamento sem ouvir voz.

"Você não pertence a você mesmo."

O corpo gelou. Abaixou a cabeça, mas Pandora já estava sobre a pia, roçando a pata contra o vidro, como se quisesse arranhar a própria realidade. O reflexo piscou. E voltou a ser só vidro.

Naquela noite, Mari tentou outra vez visitá-lo. A voz dela ecoava pelo corredor, abafada por portas que nunca se abriam.

— Eu quero meu filho! Vocês não têm direito!

Cael se ergueu na cama, o coração disparado. Quis chamá-la, mas a garganta estava seca como pedra. Pandora rosnava baixo, encarando a porta.

Um enfermeiro entrou, seguido do psiquiatra.
— Está tarde, Cael. Precisamos conversar amanhã. — A voz era calma, fria.

Sobre a mesa de metal ao lado da cama, o psiquiatra deixou algo. Um caderno.
Não era o diário de Adam. Era outro.
Velho, com a capa manchada.

Cael o abriu com mãos trêmulas. Páginas amareladas, rabiscos frenéticos. E no centro, letras familiares. A caligrafia era a sua.

Mas ele nunca havia escrito aquilo.
Frases datadas de anos anteriores. Palavras que falavam de coisas que só agora estavam acontecendo.

"Pandora voltará quando o sangue for desenhado em círculo."
"345 será a porta de carne."
"Sua mãe não deve entrar."

O choque o atravessou como faca.
Olhou para o médico.
Ele apenas sorriu.

— Viu, Cael? Aqui dentro você escreve mais do que imagina.

Pandora pulou sobre o diário, fechando-o com as patas. O rosnado que saiu dela não era de animal — era humano, rouco, como uma voz sufocada.

Cael recuou contra a parede, o coração em disparada.
O monitor cardíaco apitou irregular.

O médico se afastou, sereno.
— Até amanhã, Cael.

A porta se fechou.
E no silêncio, Cael percebeu que não havia como distinguir se estava sendo tratado, manipulado ou condenado.

Pegou o lápis, abriu seu próprio caderno e escreveu com mãos trêmulas:

"Se não sou eu quem escreve, quem, então, está no controle desta história?"

Do corredor, passos ecoaram. Mas não eram de enfermeiros.
Eram compassados, lentos, arrastando algo pesado pelo chão.

Pandora ergueu os olhos prateados para ele.
Cael entendeu, sem palavras:
a noite ainda não havia começado.




(Acompanhe os Capítulos anteriores)

CAPÍTULO X

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CAPÍTULO IX

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CAPÍTULO VIII

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CAPÍTULO VII

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CAPÍTULO VI

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CAPÍTULO V

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CAPÍTULO IV

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CAPÍTULO III

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CAPÍTULO II

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CAPÍTULO I

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Peço perdão pela demora. O tempo não está mais compatível e o serviço tem sugado minha criatividade! Como sabem, zelo por cada escrita e não quero entregar algo simples ou comum. Espero que compreendam e que apreciem também. Críticas sempre serão bem-vindas; a partir delas, nos remodelamos.



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