https://www.poetris.com/
 
Textos : 

Memórias das coisas

 
Tags:  republicado  
 
 

O que se segue, são flash's de instantes remotos, dos mais antigos que possuo; arrancados lá bem do fundo do poço das minhas lembranças.

Meti-me numa cápsula do tempo e viajei sem destino.
Achei-me no mesmo lugar de sempre, de onde, na verdade, nunca cheguei a partir...
Aquele lugar é refém das minhas memórias e é para lá que fujo em segredo tantas e tantas vezes quando me quero esconder deste tempo de agora.

E vou pelos carreiros que conheço como as minhas próprias mãos. Tanto na ida como na vinda, tenho a companhia sempre pronta e desinteressada dos pardais e dos cucos esquivos, que me seguem lá no alto dos ramos dos pinheiros que me levam pela sombra.

A velha casa de pedra serve-me de abrigo aquando da trovoada inesperada. Existe lá uma prateleira com livros já meio desfeitos e aos quais faltam muitas folhas, mas, nas que lhes restam, há sempre qualquer coisa que ainda não tinha visto nem lido...

O velho abrunheiro, ao fundo da quelhada grande, oferece-me a sombra apetecível onde me deito descansada sob a relva e durmo uma sesta merecida.
Há joaninhas que se misturam com morangos selvagens, salpicando de vermelho o ervascal abandonado por onde me entretenho a brincar enquanto a minha mãe trata da rega dos feijoeiros ali ao lado.
Pela noitinha, de volta a casa, eu e os cabritos saltitamos contentes pelos muros adiante, ou não fossemos todos crianças!

É dia da matança do porco. Levanto-me mais cedo que o costume e corro para o mais longe que posso. Sento-me numa pedra, meto os dedos nos ouvidos (não quero ouvir os guinchos do pobre coitado) e espero uma boa meia hora... depois regresso.

Um serão quente. O canto dos grilos a cortar o silêncio. Um petromax na mão, alumia-nos o caminho. Eu às cavalitas do meu pai. Um caminho estreito. Uma casa com um outro petromax pendurado no tecto. Um monte de espigas à espera de serem debulhadas... meia dúzia de pessoas, cada uma com o seu mangual a bater uma a uma e o milho vai saltando e formando um imenso lago de grãos...
Há conversas, há risos e gargalhadas, há histórias de outros tempos ainda mais remotos. É hora de voltar. Amanhã o milho irá ao sol...

De tamancos com sola de pau, sobe ligeira a escada encostada aos ramos da oliveira grande do pomar. A mãe, aflita, chama-a, mas ela, teimosa, finge que não ouve e sobe cada vez mais depressa. Sobe até ao fim; até ao último banço da escada de madeira...

A fogueira crepitava e erguia labaredas altas, tal como ela gostava.
Sentadas no bordo, de mãos e pés esticados em direcção ao lume, riamos despreocupadas. Talvez o nosso riso se devesse apenas ao conforto de ver aquele lume a arder ali mesmo à nossa frente, a aquecer-nos por fora e por dentro. Nunca mais comi uma sopa de couves aferventada tão saborosa como aquela... Ao lado, uma malga de vinho e um naco de broa com sardinha, acabadinha de sair das brasas da fogueira.

Noutro dia, no telhado da mesma casa, sentadas nas lajes aquecidas pelo sol de Março, pedia-me que lhe enfiasse as agulhas com linha preta porque os seus olhos cor de mar rasavam-se de água e não a deixavam vislumbrar o buraco minúsculo da agulha. Estava sempre a coser qualquer coisa enquanto me ía contando histórias de lobos e de homens.




*... vivo na renovação dos sentidos, junto da antiguidade das lembranças, em frente das emoções...»

Impulsos

coisa pouca

 
Autor
cleo
Autor
 
Texto
Data
Leituras
963
Favoritos
3
Licença
Esta obra está protegida pela licença Creative Commons
33 pontos
9
0
3
Os comentários são de propriedade de seus respectivos autores. Não somos responsáveis pelo seu conteúdo.

Enviado por Tópico
visitante
Publicado: 14/07/2012 23:56  Atualizado: 14/07/2012 23:56
 Re: Memórias das coisas
Eu enchí os olhos e minhas próprias memórias dessa deliciosa leitura. Uma pessoa, para mim, só é inteira, quando guarda nalgum lugar intocado da memória, as recordações da infância. Sejam elas boas ou más, mas sempre verdadeiras. Essa menina que habita, tão inteira, dentro de ti, traz-nos aromas, risos, visões de ternura, vivências tão bonitas e tão significativas. Belíssima partilha, a qual agradeço. Minha criança interior se sentiu acarinhada com tuas memórias.

É lindo!

Bjs.


Enviado por Tópico
Vania Lopez
Publicado: 15/07/2012 02:07  Atualizado: 15/07/2012 02:07
Colaborador
Usuário desde: 25/01/2009
Localidade: Pouso Alegre - MG
Mensagens: 17658
 Re: Memórias das coisas
Seu texto é um espelho em que muitas vezes
aparece nosso rosto, nossas memórias entrelaçadas
em um momento único, driblando a gravidade da poesia.
Ah, menina! Me fez sentir em casa de todas as maneiras,
roçada no calor do fogão de lenha no colo da saudade.
Obrigada é pouco... bjs

Enviado por Tópico
visitante
Publicado: 15/07/2012 10:33  Atualizado: 15/07/2012 10:33
 Re: Memórias das coisas
Um texto que causa nostalgia, que toca a alma do leitor sensível. Muitos parabéns.

Enviado por Tópico
martisns
Publicado: 15/07/2012 11:49  Atualizado: 15/07/2012 11:49
Colaborador
Usuário desde: 13/07/2010
Localidade:
Mensagens: 29310
Online!
 Re: Memórias das coisas
Um poema que muitonoa fazr recordar. nos faz voltar no tempo, lindo demais

Enviado por Tópico
Liliana Jardim
Publicado: 15/07/2012 19:04  Atualizado: 15/07/2012 20:57
Luso de Ouro
Usuário desde: 08/10/2007
Localidade: Caniço-Madeira
Mensagens: 4528
 Re: Memórias das coisas
Memorias que se entranharam na alma e que nós ajudam a ultrapassar as intemperes do tempo.

Gostei de recordar coisas que te dão prazer

Beijinhos

Enviado por Tópico
SunsentL
Publicado: 15/07/2012 20:29  Atualizado: 15/07/2012 20:29
Participativo
Usuário desde: 09/06/2012
Localidade:
Mensagens: 33
 Re: Memórias das coisas
Se a senhora não é escritora profissional, está quase perto. Muito bom os meus parabéns. :)


Enviado por Tópico
cleo
Publicado: 16/07/2012 10:52  Atualizado: 16/07/2012 10:52
Luso de Ouro
Usuário desde: 02/03/2007
Localidade: Queluz
Mensagens: 3857
 Re: Memórias das coisas /Resp. A Todos
Vania Lopez

aquazulis

Liliana Jardim

Toda eu sou gratidão pela vossa atenção, dedicação e apreciação.
O meu imenso obrigado!

martisns, isto não é um poema na sua forma visual, mas na essência sim... é tudo poesia!