https://www.poetris.com/
 
Contos -> Infantis : 

A palestra

 
Tags:  conto    infantil    fábula  
 
A palestra
 
Naquela manhã, o furão, Furavidas, cansado de ser considerado, pelos restantes habitantes da mata, um bicho feio, fedorento e amedrontador, ferido na sua sensibilidade de mamífero carnívoro e caçador, resolveu convocar o conselho da bicharada, resolvido que estava a promover a sua popularidade e melhorar, no que lhe fosse possível, a sua autoestima.
Os restantes animais compareceram à chamada do figurão, armado em fino texugo, um pouco incrédulos com a pertinência daquela reunião, marcada às pressas.
Da copa das árvores apareceram, em primeiro lugar, os pássaros de muitas cores e espécies, acabados de acordar, com aspeto fresco e húmido, de quem saiu de um belo banho, neste caso de orvalho da noite. Num chilreio, uníssono, cumprimentaram o furão, ao mesmo tempo que ocupavam os seus lugares privilegiados nos ramos das árvores, de onde poderiam ver e ouvir tudo o que se iria passar.
De pronto, pousado no galho de um velho carvalho, apresentou-se o mocho Fausto, ave notívaga, que esteve de vigia toda a noite e trazia os enormes olhos amarelados, neste caso avermelhados de sono, ao mesmo tempo que rabujava pelo facto de lhe não ser permitido o direito ao descanso, após cumprir dignamente o turno da noite.
De seguida, compareceram apressadamente, a chinchila, Francisca, acompanhada da família dos coelhos Quinquins.
Logo atrás, morta de curiosidade, a raposa, Laurinda, marcou presença, com o seu ar arguto e atento, de quem não tem tempo a perder, nem é dada a socializar.
Furavidas foi acomodando todos os seus convocados à volta da fogueira, que ardia vigorosa, atestada que estava de achas da mais fina madeira.
Por fim, a tempo de assistir ao início da palestra, chegaram os manos saguins, que trilharam caminho, de liana em liana. Por sua vez, os esquilos, Avelãs, vinham animados a mordiscar nozes e a cuspir escrupulosamente as cascas, enquanto o ouriço cacheiro mais parecia uma bola de picos, o que lhe dava um certo ar de poucos amigos.
Furavidas subiu para um enorme tronco, colocado estrategicamente, por forma a observar as mais diversas reações dos seus convidados, de tão perplexos que todos estavam com o motivo daquele estranho encontro, de tal ordem que muitos deles hesitaram em vir por considerarem tratar-se de uma perda de tempo.
Quando o furão ia dar início à prometida palestra, ouviu-se o ruído arrastado da mais vil representante da mata, a serpente SSSTSSST. Todos os animais se voltaram com as penas, os pêlos e até os picos em pé, de tão arrepiados e eriçados que ficaram com a presença de tão indesejado membro da floresta. Escusado será dizer que o réptil ficou de fora do círculo, previamente formado pelo furão, por repugnância e desprezo dos restantes animais.
Furavidas resolveu, então, fazer uso do direito à palavra, colocando-se no bico das patas traseiras:
- Amigos e conmatenses, agradeço a todos os que se dignaram comparecer a esta minha convocatória. Prometo que serei breve na apresentação do processo de intenções, com vista à implementação de regras de boa convivência.
A passarada agitou-se e os grandes olhos do mocho Fausto esbugalharam-se incrédulos perante o insólito momento. Aquele bicho hiperativo e eremita não podia estar a falar a sério. Vai ver, batera com a cabeça, só assim se justificava expor-se publicamente, em função do bem estar da comunidade animal.
- Como vos digo, sou um animal dado à reflexão e, modéstia à parte, algo filosófico. Concluí numa das minhas muitas meditações, que embora todos sejamos diferentes fisicamente, há algo que nos liga e transforma numa espécie de membros de uma grande família, à qual correntemente se chama “comunidade animal”.
Assim sendo, não vejo porque devamos andar, a maior parte do tempo, de costas viradas uns para os outros. Manda o princípio da educação e do civismo que interagemos uns com os outros, de forma cordial e, se possível, nos ajudemos mutuamente.
Grosso modo, ouviram-se palmas entusiastas, ao discurso empolado de Furavidas, com exceção feita à raposa e à serpente, que logo verbalizaram a sua discordância:
- Nunca ouvi ideia mais estapafúrdia na minha vida. Onde é que já se viu uma raposa assinar um pacto de paz com as suas pretensas presas...
Podem daí tirar o sentido, que, no que depender de mim, não vai sair daqui nenhum acordo assinado. Até porque eu sou um bicho pouco letrado e nem sei escrever o meu nome.
(Que fome que eu tenho!!! Deixem lá esta fantochada acabar, que vão ver...)
- SSSTSSST, SSSTSSST!!! (vociferava a serpente, expondo a sua enorme língua viperina em sinal de irritação). Engulo qualquer um de vós de uma vez só e nem sequer me arrependo quando gritam e me pontapeiam na barriga e tentam sair cá para fora.
Furavidas interrompeu a acesa discussão que entretanto se gerara, apressando-se a explicar a sua teoria:
- Caros conmatenses, imaginem que a nossa mata é alvo de fogo posto. O que faríamos nessa situação?
- Fugiríamos a quatro patas, respondeu Laurinda, a raposa velha.
Furavidas respondeu-lhe com ar académico, olhando-a por baixo dos óculos:
- Talvez tu fugisses,mas e a tua cria? Terias capacidade sozinha para a salvar das chamas, a tempo? E tu, serpente? Ser-te-ia certamente muito dificil sobreviver sozinha, bem como salvar os teus ovos.
Laurinda assentiu com a cabeça e respondeu que nunca havia pensado na possibilidade de poder vir a vivenciar um cenário desses.
SSSTSSS cuspiu o veneno que lhe esverdeava a língua e baixou a cabeça em sinal de perplexidade, o mesmo seria dizer que reconheceu uma fragilidade que, até ao momento desconhecia em si.
O furão percebendo que os animais mais intransigentes já começavam a dar sinais de apreensão, avançou com o teor da palestra:
- Se pensarem bem, aqueles que vos pareciam mais vulnerávies às vossas investidas cegas, são precisamente aqueles que, em caso de calamidade, vos poderiam vir a ajudar e sei que o fariam sem hesitar. Os pássaros, por exemplo, poderiam levar as vossas pequenas crias no bico e deixá-las a salvo.
A serpente que é animal desconfiado e de poucas palavras, respondeu, mordendo a própria língua:
- Confesso que nunca tal me passara pela cabeça.
Furavidas continuou a sua dissertação, acrescentando:
- Como podem concluir, todos nós dependemos uns dos outros. Assim é a vida em comunidade. O que eu pretendo clarificar é que não há animais fortes, nem fracos, porque nada somos uns sem os outros.
Os manos saguins aplaudiam o furão, enquanto se balançavam nas lianas e riam divertidos. De repente, começaram a guinchar nervosamente, apontando para a beira do riacho, que corria a 500 metros de onde se encontravam. Ao virarem-se todos se aperceberam da presença do lobo, Serafim, que não havia aderido à convocatória de Furavidas, mas, que agora os observava escondido e por certo mal intencionado.
Com a presença do predador mais feroz, todos os animais tremiam de medo, com exceção da serpente que se pôs em pé o mais que conseguiu e mostrando-se solidária atreveu-se a enfrentar o lobo Serafim:
- Se avançares sobre qualquer um dos meus amigos aqui presentes, vais-te ver comigo.
Serafim avançou alguns metros na direção do ajuntamento e replicou:
- Deves pensar que me metes medo. Anda exprimentar os meus dentes aguçados e as minhas garras prontas a fazer-te em cem enguias.
- Se eu fosse a ti, não tentava a gracinha. Talvez não queiras saber o dano que te pode causar uma mordidela minha nesse teu pescoço de predador estúpido. Sabes que eu posso ter a espinha bífida, mas em inteligência, ganho-te aos metros que tenho...
O lobo refletiu e resolveu retroceder na sua ideia de atacar o grupo que, sem se ter apercebido, já estava mais unido do que nunca e pronto a dar a vida uns pelos outros.
Pela primeira vez, a serpente foi aplaudida pela sua valentia e por ter posto em risco a sua própria pele em detrimento da vida daqueles, que, até àquela altura, sempre vira apenas como suas potenciais presas. Gostou da sensação calorosa daqueles aplausos e percebeu o quanto é valoroso ter amigos e importante ser querida pelos seus iguais.
Laurinda não se conformando com tais intimidades e farejando ao seu redor instintivamente, resolveu perguntar:
- Isto da solidariedade e cumplicidade animal é muito bonito, na teoria, mas na prática como é que eu encho a barriga?
- Com frutos, sementes, larvas e animais que possam ter morrido de morte natural. Isso também é comum encontrar na mata. Não tens forçosamente que ser tu a matá-los. Compreendes? (replicou Furavidas)
- Então, mas eu sou caçadora por natureza, é algo instintivo para mim. Tudo é uma questão de sobrevivência.
A serpente, recém sensibilizada, respondeu-lhe com humildade:
- É tudo uma questão de mentalização, porque a natureza põe ao nosso dispor uma panóplia de alimentos sem fim.
A raposa ainda não convencida, replicou:
- É como no mar, os peixes de grande porte, também comem os pequenos...
- A verdade é que também se poderiam alimentar de limos e algas, respondeu a chincila.
Laurinda não se dando por vencida, insistia na argumentação contrária:
- Então e os humanos? Que eu saiba comem carne e peixe e quase todos nós vamos parar aos seus pratos e nada mais do que um belo pitéu somos para eles.
Fausto, o mocho, que até então se mantivera calado, resolveu intervir, fazendo juz à sua capacidade de literacia:
- Os humanos não são exemplo para ninguém, consideram-se muito superiores a nós, mas o facto é que estão a anos luz dos animais. Entre eles cresce a animosidade e o ódio, a solidariedade para com o próximo, deu lugar às guerrilhas raciais e políticas. Nada detém a sua ânsia de poder. Os sentimentos negativos, tais como a corrupção e todo o tipo de marginalidade, para atingir fins menos escrupulosos, tomaram conta dos humanos. Cabe-nos a nós mostrar-lhes os verdadeiros valores.
Os aplausos voltaram a ouvir-se, desta feita direcionados ao mocho, que falou por último, mas com muita probidade e sabedoria.
Os animais terminaram a reunião assinando, de livre e espontânea vontade, um acordo de paz e respeito pela vida alheia, lavrado no cartório notarial da mata, onde Furavidas é escrivão e zela com pobridade pelo bem estar dos seus conmatenses.
Escusado será lembrar que Furavidas ficou na estória da mata encantada como o mentor da equidade e do civismo e o seu nome é hoje um ícone de respeito e exemplo para todos os seres vivos que se sintam parte integrante deste mundo que todos partilhamos e deveríamos saber proteger e respeitar.


Maria Fernanda Reis Esteves
52 anos
natural: Setúbal
 
Autor
Nanda
Autor
 
Texto
Data
Leituras
1139
Favoritos
0
Licença
Esta obra está protegida pela licença Creative Commons
6 pontos
6
0
0
Os comentários são de propriedade de seus respectivos autores. Não somos responsáveis pelo seu conteúdo.

Enviado por Tópico
FatimaOliveira
Publicado: 04/01/2013 22:05  Atualizado: 04/01/2013 22:05
Super Participativo
Usuário desde: 01/01/2013
Localidade: Salvador - Bahia
Mensagens: 158
 Re: A palestra
Nanda, o texto é maravilhoso, educativo, numa maneira muito peculiar você consegue passar para o leitor tudo que a sociedade, a maioria das vezes, se omite. A individualidade reina absoluta no universo, a fogueira das vaidades não encontra limites, enfim, como costumamos dizer "é muito cacique para poucos indios". Como seria bom se acontecesse uma palestra dessa no meio político! Parabéns. Abração.

Enviado por Tópico
varenka
Publicado: 04/01/2013 23:46  Atualizado: 04/01/2013 23:46
Colaborador
Usuário desde: 10/12/2009
Localidade:
Mensagens: 4211
 Re: A palestra
Nanda, bem sabes como goste de ler teus textos.Este esta feito para o momento que vivemos.
Apresento minha amiga FatimaOliveira.Beijos de Varenka

Enviado por Tópico
carolcarolina
Publicado: 05/01/2013 00:31  Atualizado: 05/01/2013 00:31
Colaborador
Usuário desde: 24/01/2010
Localidade: RS/Brasil
Mensagens: 9297
 Re: A palestra
Amiga Poetisa
Nanda

Um belo texto amiga poetisa...a comunhão fortalece...sobre o trecho que humanos comem os animais...por mim não morreria nem um...não gosto que matem nada...
Bjinhos
Carol

Enviado por Tópico
visitante
Publicado: 05/01/2013 08:16  Atualizado: 05/01/2013 08:16
 Re: A palestra
Nanda, sempre as fábulas nos dão grandes lições de moral. Parabéns.

Enviado por Tópico
TRIGO
Publicado: 05/01/2013 12:14  Atualizado: 05/01/2013 12:14
Colaborador
Usuário desde: 26/01/2009
Localidade: Cabeça-Boa - Torre de Moncorvo
Mensagens: 2299
 Re: A palestra, Nanda
... nanda

nunca verás a noite contra os lírios, nem te deitarás no meu hálito
quando habitarmos a lua ... »


Feliz 2013, para ti

Enviado por Tópico
fotograma
Publicado: 05/01/2013 15:00  Atualizado: 05/01/2013 15:00
Colaborador
Usuário desde: 16/10/2012
Localidade:
Mensagens: 1576
 Re: A palestra
fabulosa fábula para diversas ocasiões e todas as idades

será que todos lerão da forma que merece?

abs