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A Mão Direita do Diabo Parte 4

 
Libertar o Pan não era apenas dar liberdade a uma criatura, mas talvez, libertar o último da espécie. Estranho, disseram-me muitos, pois que todas as missões de Orfeo parecem resultar em algo de bom, embora ele estivesse a serviço do diabo. Orfeo mesmo percebera isso, mas alguns conceitos talvez estivessem errôneos na mente das pessoas. Quem sabe o mal não seja tão “mau” assim... Quem sabe exista alguma segunda intenção nas ordens de Zack... Ou mesmo, quem saberá, o mal não seja uma contraparte necessária, para equilibrar as coisas?...
Mas, divagações tão poderosas não podiam ocupar por muito tempo a mente de Orfeo. Ele fora incumbido de enfrentar as serpentes aladas. Os animais mais terríveis que habitaram um dia a superfície da terra. Mas ele tinha as suas armas... Uma lira habilmente construída por ele, aquela sensação de coragem que geralmente acompanha aqueles que venderam a alma ao capeta, e que pode ser traduzida por: alta confiança. E a tradicional burrice dos camponeses da idade das trevas, que aqui traduzo por falta de oportunidades, já que não se tratava de uma burrice hereditária. Lembrando que o fato de Orfeo ter ficado rico não aliviou em nada a sua falta de instrução, sabedoria e conhecimento, já que riqueza não é diretamente proporcional a inteligência - embora dê oportunidades - assim como duas sacas de milho extras é diretamente proporcional a mais galinhas.
Seja como for, abstrações linguísticas e raciocínios complexos matemáticos à parte, Orfeo partira para cumprir a sua missão. E embora esta parecesse mais fácil do que entrar nas catacumbas e enfrentar ratos, baratas e vampiros sociais, uma cobra alada poderia facilmente enrolar-se nele e parti-lo em dois, caso desejasse. E sim, elas desejavam!
O vale em questão parecia um queijo parmesão, cheio de buracos. Cada buraco era uma toca em potencial para uma serpente fria e escorregadia, doida para enfiar os dentes afiados na carne macia de alguém. Quando os moradores das vilas eram atacados conseguiam, às vezes, com certo sucesso, se livrarem da cobra com tochas e flechas de fogo. Mas Orfeo estava se dirigindo para o ninho das víboras, e nem todo o fogo do inferno poderia ajudá-lo ali, ainda menos a chama ridícula que carregava.
Ora, mas Orfeo era o mais exímio dos artistas, para quem já se esqueceu. E não só a sua lira era encantada, como também a sua musica! E foi com as duas que ele entrou saltitando no vale, como uma jovenzita que vai de repente passear no parque em pleno dia de sol, entoando notas tão maravilhosas e contagiantes, que esse que vos escreve começa a bailar e cantarolar enquanto se lembra das notas, e o que dizer das serpentes então? Que ao ouvirem semelhante melodia saíram a rastejarem em ritmo compassado e alegre, todas na mesma direção e sem controle da própria vontade! Alguns anos mais tarde, lembrando-se dessa mesma ocasião, Orfeo construiria uma tal flauta mágica para um certo flautista com problemas de infestação de ratos, mas isso é uma outra história.
Seguiram assim, todas as cobras, a dança hipnótica de Orfeo e sua lira, todos na direção do lago, até que em mal hora, e já cantando vitória antes da mesma, uma corda da lira arrebenta-se! E se Orfeo não estivesse a serviço do próprio diabo, com certeza o culparia de tão desafortunado acontecimento.
Aproximadamente oitenta serpentes de dois metros de altura, e envergadura de asa de quatro metros, libertaram-se de repente do transe, e deram de cara com o personagem mais azarado que já tive o desprazer de conhecer. Ali estava ele, sozinho, no meio de um ninho de cobras, como se de repente um cidadão comum se levantasse e fosse errar em pleno planalto central, entre o palácio do planobaixo, com-gresso, e supremo tribunal infernal!
A sua sorte, se é que posso chamar isso de sorte, foi que cada cobra queria exclusividade em sua refeição, e começaram a brigar entre si para ver quem ficava com o petisco...




A cena pode ser, mais ou menos, descrita assim: Imagine uma lagoa cheia de peixes famintos, e um engraçadinho balançando uma minhoca na linha bem acima deles. Pois bem, Orfeo era a minhoca, e as suas pernas, a linha. Ele corria por sobre as escamas enceradas das serpentes, pulando como se fosse pipoca e estivesse sobre uma chapa muito quente, enquanto mandíbulas munidas de presas muita afiadas tentavam lhe arrancar um ou dois pedaços. Arrepio-me só de me lembrar... E tal não foi o desespero de Orfeo, que ao encontrar duas varinhas e um toco oco de árvore, deu a tocar percussão neles, à maneira de um artista contemporâneo de reggae, sabendo ele de suas habilidades musicais sobre humanas. E não é que deu certo! As cobras pararam de tentar mastigá-lo e se concentraram outra vez no ritmo hipnótico.
O problema todo era que, ele não podia arredar o pé dali, já que o tronco estava preso no chão. E parar de batucar significava ser engolido na primeira oportunidade.
Do que cobra gosta mais do que de gente? Ratos! Pensou ele. Bem espertamente, diga-se de passagem. Não que ele fosse inteligente, insisto novamente nesta observação. Mas convivera tanto tempo com os ratos, que ele conhecia cada hábito seus, maneiras, gostos, forma de andar... quase como se fossem da família.
Então, variando um tom ou outro, buscando uma nota mais aguda aqui, outra ali, ele foi trazendo os ratos mágicos da floresta para se juntarem à festa. Eram os inimigos naturais das serpentes aladas e eram ratos um pouco maiores que os normais, e com um surpreendente poder de camuflagem. Eu já vi coisas absurdas!... Como eu já andei por lugares estranhos!... Já encontrei seres de todos os tipos!... Mas aquela cena eu jamais achei que veria em minha vida, e jamais pensei em esquecê-la... Cobras aladas e ratos dançando em uníssonos, no mesmo passinho, como se fosse um teatro miserável de esquina, na época da depressão, e eu tivesse pagado vinte centavos só para ver aquilo.
Essa dança insana durou, por pelo menos, meia hora, foi o tempo que Orfeo levou para imaginar o plano “b”. Que consistia em juntar o maior número de ratos possíveis junto às cobras, para assim, desse modo, elas desistirem dele e avançar nos ratos. Mas não podia ser coisa pouca não! Tinha de ser uma turba inacreditável de ratos, para dar uma briga boa né, e não apenas alimentar as serpentes famintas. Para oitenta cobras de dois metros, noves fora vai um, deveria ter pelo menos, dois mil ratos. Isso era mole, dois mil ratos viviam debaixo da velha cabana de Orfeo (pergunto-me quantos políticos profissionais existem em Brasília). E assim, com todo mundo dançando ao ritmo mediável de green leaves, eis que Orfeo toma coragem e cessa a música....
Cobra olhou pra rato, rato olhou pra cobra, Orfeo olhou para estrada... E eis que a poeira se levantou e a cena mais bizarra da história teve o seu desenrolar! Eu via e ouvia de tudo e um pouco, no meio daquela massa disforme de escamas e pêlos. Até um miar pestanejado de gato e um relinchar de cavalo lembro-me de ter ouvido, embora não me recordasse da presença desses dois animais na “festa”.
E enquanto Orfeo se perdia na estrada em meio ao pó de seu próprio rastro. A poeira abaixava mais aqui atrás, e para o espanto geral, os ratos saíram voando, roubando as asas das cobras, e a elas só restou rastejarem de volta para os seus buracos. Nasciam ai os morcegos, e o bom e velho ditado... “Deus não dá asa a cobra”.
Mas posso garantir, um dia elas tiveram... Ah, tiveram...


j

 
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London
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