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Contos -> Romance : 

Sofia aprendendo a perdoar o atraso da Arca de Noé

 
Foi a vontade de vencer o relógio que marcou o início daquele outono, mais pesado que o do ano passado. Com tanto burburinho assim, a Apple considerou orientar seus consumidores a baterem contra o solo tantas vezes quantas fossem necessárias as baterias de lítio. Ainda soava nos ouvidos dos presentes uma melodia distinta e importante, insistindo que acompanhar os ponteiros do relógio não vale a pena. Cometeria alguém em pleno juízo, tal ato de ousadia mesmo estando em um jardim ocioso?

- “ Estou tão cansada! Gostaria de ter, ainda que no final do expediente, uma visão desse paciente. E ter o tempo todo para ouvir os estalos do seu coração e distingui-los de um simples agregado moléculas obstinadas na execução da “ Serenata ao Luar”. Murmurou Sofia, algo preocupada com os movimentos da cabeça da costureira.

Porém, ali estavam todos. Perceptíveis na paisagem daquela natureza morta, olhando para o criador como se os quadros fossem testemunhas aleatórias de uma celebração jamais vista em local incerto e não sabido. Ela olhou de um modo meio fraudulento, espalhando o gás por todo o celeiro incomodando os vizinhos. Os cabelos em desalinho pelos ombros presos por um lenço nas duas extremidades. Parecia que cantava e chorava segurando o rosto com as mãos delicadas.
- Por que na segunda feira passada aquele monge vestido de branco ofereceu rosas?”, perguntou Sofia, como que se aguardasse que os velhos salgueiros respondessem em menos de um minuto.

Mas apenas silêncio havia naquele local. Trazendo uma cruz e um escaravelho sobre o peito a chuva deu lugar ao sol. Ela sorriu. Não havia nada mais a ser feito ali. Murmurou quase em falsete, semitonando algumas breves e outras tantas quantas colcheias.

- “ Você bem sabe que a dor provem da sabedoria. A essência das decisões quando são profundas ofuscam o gênio escuro exaltando a arte aos olhos dos animais doentes”

Grimaldi fingiu que nada ouvira. Em sua cruzada destrutiva, sentia a mente tão mesquinha como diluída em xarope de ervas medicinais com sabor mentolado. Para facilitar aferiu a pressão arterial do animal antes que exalasse um último suspiro, encontrou o caminho da saída lentamente, um pouco triste , como os pedúnculos de um pêssego maduro em época de colheita.
Sofia era jovem. Poderia talvez um dia perdoar a todos bem como aos devedores diante das transferências monetárias efetuadas com gentileza irradiando graciosidade em todo seu corpo.

“ Eu os perdoo. Não passam de quadrados vazios chorando pela vaga crença perdida, relegados ao esquecimento como os capuzes dos agasalhos das crianças em dia de calor . Mas suponha que fossem as mãos de outra pessoa?”

Suponha ao menos que, se Sofia estivesse esticando o varal entre meu amor e a casa de farinha, não precisaria desse objeto tão tosco e vulgar. Para não dizer inapropriado e nitidamente censurável como os olhos do cão emitindo lamentos tristes diante de uma máquina de assar frangos. Ato contínuo disse em tom cristalino:

-“ Perdoem a todos. Aos inimigos e aos amigos. Todos que se portaram sem pressa, como um corpo morto em círculos de fogo enfrentando rajadas generosas forradas com branca colcha de retalhos primorosamente costurada com pedacinhos de pele de cotovelo consagrando a plenitude do vazio austral.”

Mas naquele momento sequer Sofia tinha conhecimento da sua própria carne. Sua confusão sobre os índices das bolsas ao redor do mundo era não só estranha como brutal. Só restava cair em um desvario seguido de desmaio súbito, como um louco imaginado que é fruta e dormindo num galho de cerejeira enquanto vigia os canteiros de flores da sanha melífera dos beija flores tesoura. Percebendo que não poderia mais ficar calado, Grimald ponderou:

- “ Observem que todo corrimão é uma linha sensível. Estou esperando a horas encostado na beirada do dia. Se mais alguém teve um problema semelhante também não poderá deixar de perdoar. Pode fazer assim. Deixar-me ao pôr do sol nesta cidade caipira na parte inferior do abismo de rosas. Que solo apresenta calcário sem denunciar a localização dos elementos permanentes e coerentes? É como tê-lo de dentro para fora, mas só vê-lo acidentalmente no final de uma festa.”

No brilho perolado das crostas de manteiga as brânquias gananciosas trabalhavam incansáveis. Ninguém mais que ela habitara insaciável a área reservada para os quiosques e totens de emissão de bilhetes vendido pela internet. Arrematou com toda propriedade:

-“ Será que é por que nos restaurantes self service as taxas são diferentes? Todos somos bem versados nos livros de receitas e nos escapulários. Podemos deixar correr os séculos no centro do distrito da culpa evitando o curto-circuito na eternidade."

Na verdade, naquele momento era apenas ele e ela. Sofia e Grimaldi estavam entre as pessoas, afogados no universo sem esperança de uma carona na Arca do tal de Noé.



 
Autor
FilamposKanoziro
 
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